26.10.09

DOUTOR, QUERO TROCAR MEU MONGOLOL





A ausência de sentimentos é pior que a depressão. Já escrevi isso aqui, tentando descrever o embotamento causado, muitas vezes, não pela doença, mas pela medicação. Acho difícil esquecer de um tempo em que eu, apertado pra ir ao banheiro, pesando quase 120 quilos e sem nenhuma libido, perguntava à patroa se ela achava que eu deveria ir mesmo ao banheiro. Esse para mim foi o tempo do lítio, no início do tratamento, quando tudo o que a medicação fez foi melhorar a qualidade de vida de quem estava a minha volta – e não a minha. Claro que pra muita gente o lítio resolve o problema, mas não foi o meu caso, isso estava óbvio. Talvez faltou á psiquiatra da época, ao invés de me manter num tratamento desumano, se perguntar se não seria meio anormal alguém que conseguiu se inserir no mercado de trabalho como advogado autônomo estar agindo, depois do lítio, como um semi-vegetal.


Pois assim como aquela época ruim desapareceu com o melhor tratamento que eu tive em substituição ao lítio, dessa vez chegou a hora de dar adeus ao Trileptal que outrora me salvou, talvez, até do suicídio. Após 4 anos de uso contínuo e regular do Trileptal, finalmente eu começo a sentir mais prejuízo que benefício no uso desse estabilizador. Um pequeno aumento nos episódios mistos, indicando que o medicamento já não produz o mesmo efeito de antes, não foi o que motivou a mudança de medicação que está por vir, mas a piora na minha capacidade de concentração e de tomar atitudes e decisões - acionar o “start”, pra começar a fazer o que quer que eu precise – que me motivou a buscar a mudança no tratamento, pois eu estava travando mais e mais, dia após dia. E quando isso começa a atingir o trabalho, não dá pra ficar sentado esperando para ver no que vai dar.


Durante um estado misto, onde depressão e mania são perceptíveis ao mesmo tempo, é difícil saber exatamente o que está acontecendo. É difícil se perceber, se situar. Depressão, depois de um tempo, até dá para perceber que ela está ali, porque se sucumbe de forma muito óbvia, a perda de motivação é óbvia, as cores do mundo mudam de forma óbvia, e um lampejo mínimo de racionalidade que seja, durante um estado depressivo, é suficiente para fazer perceber que o exagero na tristeza com que o mundo se apresenta só pode estar vindo de dentro pra fora, e não de fora pra dentro, como acontece com alguém que acaba de perder um ente querido, por exemplo.


Mania, depois de um tempo, e de minimizá-la com tratamento, também dá pra perceber que se instalou. No meu caso, eu patológica e compulsivamente passo a achar que as pessoas bola-da-vez (aquelas a quem se dirige a agressividade, e dependendo do nível do estado maníaco, a todo mundo), não só perderam a consideração por mim, como estão fazendo questão de demonstrar isso. Coisa que só está acontecendo em minha cabeça quimicamente alterada pela doença bipolar.


Mas e estado misto? Estado misto é uma espécie de “angústia agitada”, é como ficar rodando entristecido e sem parar atrás do próprio rabo. Deprimido, mas nem por isso menos agitado, é o que parece um estado misto. É um bate-bola entre a angústia da depressão e a raiva da mania, onde não bastasse a tristeza da depressão, ela tem de vir acompanhada de sentimentos de ódio (para alguns mais sortudos, de grandeza), que se agravam consideravelmente pela dificuldade de comunicação que eu sinto nesse estado. E se tem uma coisa que torna a vida muito difícil, não só entre loucos bipolares e outros tantos transtornados, mas entre as pessoas que gostam de crer que são normais também, é a dificuldade de expor o que se quer, o que se sente. As conseqüências da dificuldade de comunicação entre as pessoas são tão óbvias quanto pregam os autores de livros de auto-ajuda e ao mesmo tempo, tão difíceis quanto se mostram na vida real. Não saber expor os próprios sentimentos da forma adequada, no momento adequado, ou para a pessoa certa, gera rompimentos de toda espécie, no trabalho, no amor e em todas as relações sociais. Não precisa ser normal para entender isso. Mas precisa ESTAR normal para entender isso. Porque num estado misto, por exemplo, eu não vejo minha dificuldade de me expressar como uma dificuldade de me expressar, eu vejo como desconsideração do outro que não quer me entender.


Ora, eu ao menos aceito a existência da doença bipolar, mesmo ouvindo, como ouvi, nesse final de semana, de um médico, que isso se cura com um machado e muita lenha pra cortar. “Tudo bem, ele é ortopedista”, disseram os outros médicos na mesa, alguma espécie de piada sobre os ortopedistas não serem médicos, eu acho. Mas eu aceito a doença bipolar, não desprezo a classificação médica da Organização Mundial de Saúde (o famoso C.I.D., que cataloga mais de 200 transtornos mentais diferentes), e sei que parte da culpa da ignorância humana sobre transtornos mentais reside nas pessoas com a lamentável cara-de-pau de usar a doença como desculpa. Mas outra parte reside no próprio atraso da medicina psiquiátrica, ciência da qual nem meu amigo médico ortopedista, que na faculdade estudou medicina psiquiátrica, parece acreditar piamente, tanto que se vangloriou, na mesa, de ter ficado de segunda época “só nessa matéria”.


Pois após 4 anos usando trileptal, é hora de dar adeus. De uns tempos pra cá, os prejuízos cognitivos vem aumentando consideravelmente. Ando com uma dificuldade imensa de me concentrar nas tarefas que eu tenho que fazer. Não consigo encadear meu raciocínio de forma a compreender todo um processo em algum trabalho específico que eu tenha que realizar, do início ao fim. Daí isso me angustia mais, e, com mais dificuldade de dizer o que eu preciso, acabo brigando com quem trabalha comigo, e não conseguindo de jeito nenhum que seja feito o que é preciso, que eu já nem sabia mais direito o que era mesmo. E em estado misto eu me questiono se sou eu, se é depressão, mas não parece, porque eu fico cronicamente agitado, mas daí não consigo usar esse gás pra fazer nada que precise ser feito, e a tristeza aumenta e ajuda a piorar o resto, e o ciclo se amplia, e tudo fica embaçado, e é aquela novela que quem tem doença bipolar (de verdade) sabe de cor, quem não tem desconfia que não existe, e tudo bem também, cada um pense o que quiser pensar e aceite e medida da própria ignorância em sua vida, que se enganar com a crença de que o pouco que se sabe já é muito, é um bom jeito de achar que está feliz.


Daí a pergunta: mas como foi que você descobriu que o que estava te fazendo mal era o remédio e não mais um complexo episódio da doença? Não tem fórmula mágica pra isso, eu simplesmente percebi que de um tempo pra cá, em absolutamente todos os estados em que eu me encontrasse, misto, depressivo, maníaco, eutímico, eu estava começando a babar na gravata, a agir como lesado, esquecer palavras, esquecer conversas, sentir um freio, um grilhão invisível, mas imenso, em tudo o que eu queria fazer, como se, independente do estado da doença, forças misteriosas conspirassem com sucesso para que eu não conseguisse sair do lugar de jeito nenhum. Escrever aqui então, nem pensar, não saía nada nem espremendo.


Sem mencionar que quase 10 dias sem trileptal devolveram boa parte do meu raciocínio, e pior, de um jeito que eu já nem lembrava mais que funcionava. Não, eu não deveria ter interrompido o tratamento sem aconselhamento médico. Sim, eu sei que em breve terei um rebote de crise por conta disso, mas eu precisava respirar, precisava sentir que existe vida à minha volta, precisava da certeza que o mundo ainda está por aqui e que não, tudo não está tão ruim quanto vem parecendo, não, eu não virei um vagabundo que precisa de machado e lenha pra trabalhar da noite pro dia, e não, tudo não fica na mesma não importando o que eu faça.


Receio, receio mesmo, eu tenho do que está por vir. O novo medicamento pode reduzir a taxa de glóbulos brancos no meu organismo. Vai ser realmente ótimo tomar um soco numa sessão de sparring, abrir o supercílio, e não só não cicatrizar, como infeccionar mais.


E tem médico que diz que um machado e muita lenha pra cortar cura doença mental. Antes fosse, pois para mim isso seria um treino, já que treinar golpes de machado, continuamente, ajuda a melhorar a força para o boxe. Mas carregar um machado por aí, não sei, mas acho que não ajudaria a melhorar as relações sociais.


Então, lá vou eu tomar meu novo mongolol, ou remédio de cabeça, como queiram, e sangrar mais, ao invés de seguir o conselho do meu amigo ortopedista e sair por aí com um machado nas mãos e um surto maníaco-depressivo na mente, que acho que vai deixar a gente normal toda morrendo de medo. E assim, eu continuo preferindo as minhas cicatrizes que as dos outros.


Mas até chegar o remedinho novo... muaaaahahahahaha!


Fui.

5.8.09

É “paia”.





Aqui o povo quando fala de filme, diz que tem filme “paia”, mas também tem filme “facão”. “Paia” (palha) é aquele filme ruim mesmo, em todos os quesitos, tipo “Mar Aberto”: aquela filmagem de quinta categoria, que tem acho que só uns 2 atores no elenco, e ainda bem ruins e um orçamento, que se foi de 10.000 dólares, já é uma vergonha como foi mal aproveitado. Já filme “facão” é diferente. Filme “facão” é o tipo de filme com efeitos especiais tão super-hiper-mega que ficam absolutamente inverossímeis. Como “Carga Explosiva”, um dos melhores exemplos de filme facão da atualidade. Ou a franquia James Bond, que tem até alguns bons filmes, mas definitivamente todos com cenas totalmente “facão”. Assim, o que é “paia” pode ou não ser “facão”, e vice-versa.

Mas como mudar de assunto no meio da conversa é especialidade de bipolares, queimou uma lâmpada da luminária que fica em cima da minha cabeça no escritório. Daí no dia seguinte queimou outra, de outra luminária, numa antesala mais à frente. Daí o meu computador, que é o servidor, começa a dar pau. Faz um “tchóinc” dentro da CPU, eu abro, assopro a poeira, dou uns tapas e ele volta a funcionar. Daí o computador da assistente, que depende de estar em rede com o meu pra funcionar, começa a dar pau. Daí o back up que ela tem no computador dela é de duas semanas atrás. Daí meu computador volta a funcionar, mas o mouse trava na tela. Daí a moto não pega, o portão da frente de casa quebra, eu mando arrumar, eles arrumam nas coxas, e enguiça de novo. Daí todas as 4 lâmpadas das duas luminárias da minha sala queimam.

Daí eu sigo, agora, no mesmo assunto, que é reclamar da vida: O boxe deu errado, de tudo que é lado. Íamos abrir uma academia aqui, mas o Negão, meu treinador, deu pra trás na última hora. Se abrir aqui onde moro desse certo, eu não precisaria mais viajar 44 km quatro vezes por semana pra ir numa academia. Daí disputar o título de boxe amador também deu errado. Fui cortado do campeonato, com a desculpa da federação que era por causa da idade, e isto, de fato, me deprimiu, porque daí tem a crise dos 40 e as dores no joelho que começam a não querer passar nem com repouso de 2 semanas. Daí eu começo a ganhar peso de novo, por estar desmotivado para treinar, daí o sobrepeso me detona o joelho e o tornozelo, se eu volto a correr dia sim e dia não. Daí eu acho que não é o sobrepeso, mas a idade. Maldita crise dos 40, das mais reais que existem.

Daí eu pego tudo isso e mais um pouco e coloco tudo no mesmo saco, que é o “saco cheio” de tudo isso. Daí eu vejo tudo de forma bem negativa, e começo a achar que o mundo é um lugar “paia”, como um filme “B’. E que eu, principalmente, sou “paia”, e o meu mundo é o lugar onde as lâmpadas queimam, a casa cai, o bife passa do ponto e tudo parece conspirar para dar errado.

Daí eu me percebo ingênuo demais pra muita coisa, (ainda mais se considerar que estou próximo aos 40), inteligente pro que não faz a mínima diferença, (ainda mais se considerar que estou próximo aos 40). Percebo me tornando um imbecil cada vez mais crítico e pau-no-cú. Percebo-me com uma inabilidade social que engessa essa interpretação distorcida da realidade que eu chamo de minha vida, onde eu me sinto refém da ditadura da política da boa educação e do puxa-saquismo institucionalizado, onde “malandro é malandro”, “mané é mané”, e eu não sei em qual “bezerrice da silva” me encaixo.

Enquanto isso, fora do olho do furacão, a Adriana está só me observando, calada. Ela me observa correndo atrás do próprio rabo, me auto-sabotando, ficando borocoxô, com cara de domingo chuvoso, daí de repente nervoso, onde eu escuto algum “opa, opa, calma, seu Antonio” e é só, enquanto eu estou no turbilhão emotivo que também já me encheu o saco, de tantas vezes que se repetiu em quase 20 anos de doença bipolar, e que eu luto para minimizar as conseqüências, com algum sucesso nessa luta, graças em grande parte à sensibilidade da Adriana pra lidar comigo nos períodos bravos de crise.

A Adriana já me conhece há 7 anos. Ela sabe que cessam, cedo ou tarde, minhas distorções maníaco-depressivas da realidade, e eu, depois de um tempo reflexivo, que geralmente é reflexo da vergonha de um período anterior meio fora da casinha, pirado, agressivo, eu sempre falo. Então ela observa, calada, e espera. Eu espero também, porque quando eu estou pronto para falar ela sempre está pronta para me surpreender com uma visão das coisas que sacode esse “meu pequeno palquinho” que eu gosto de chamar de meu mundo. E dessa vez não podia ter sido diferente das outras.

- Tô na maior angústia, Adriana. Eu ando achando que meus amigos são “paia”, que minha carreira é “paia”, eu mesmo sou “paia”, meu boxe é “paia”, meu treinador é “paia”, e o mundo é um lugar cheio de malandragem, de gente filha da puta, que quer e gosta de levar vantagem em tudo, desde os escritores de livros de auto-ajuda aos filhos, esposa, clientes: todo mundo em algum momento vai me ferrar, e eu sou idiota o suficiente pra não ver isso chegando.

- Isso tudo, Antonio, é o padrão repetitivo familiar de julgamento e rótulo. Eu estava te ouvindo e lembando do que sua mãe me falou, quando sua irmã estava prestes a casar com o Liazid na igreja. (Liazid é meu cunhado). Dentro da igreja, pouco antes de sua irmã entrar, sua mãe me diz que ela conheceu um neurocirurgião, que foi fazer uma prova com a sua irmã e sua mãe acha o cara lindo e maravilhoso e estava se perguntando porque sua irmã escolheu o Liazid e não o tal neurocirurgião. Afinal, na concepção da sua mãe, o Liazid não tem mérito nenhum, quem tem é o outro. As escolhas sua e de seus irmãos são sempre erradas. O feijão do vizinho sempre é bom, o de vocês é uma merda.

É como a advocacia, ou o boxe, em sua vida. Seu inconsciente te diz que se você vai lá e vence, não é que você é bom, é o outro que era ruim. Na sua cabeça, o adversário, quando é derrotado, é “paia”. E em qualquer circunstância você faz isso, Antonio. E sua mãe idem. O nome disso é insatisfação crônica. Por isso que você rotula o tempo inteiro, como viu sua mãe fazer. Só que as pessoas não são garrafas vazias que precisem de rótulos.

- Mas “pqp”, eu sou o primeiro a odiar rótulos! Eu prego contra essa porra toda aí que você falou até no meu blog.

- Sim, e eu acredito que você odeie mesmo. Mas isso num plano consciente, onde você busca se convencer disso, pois quer muito mudar, dá pra perceber. Só que esse comportamento de rotular tudo e todos é uma armadilha do seu inconsciente, Antonio. Para mudar isso, você tem que ir se conscientizando desse processo até seu insconsciente perder o domínio e parar de te jogar nesse padrão de repetir o que você viu na infância.

- Eu incrivelmente não consigo fixar isso que você está falando.

- Claro. Para te proteger, seu inconsciente vai jogar isso tudo que a gente conversou fora, até que você desista de se confrontar consigo mesmo. Veja, por exemplo, quando a gente discute e você tenta me desqualificar: muitas vezes isso é a voz do seu inconsciente, te dizendo que se eu aceitei me casar com você, é porque só pode haver algo muito errado comigo. E que você também não casou comigo porque você tenha méritos. Em seu inconsciente eu me casei com você porque eu sou “paia”. A mensagem do seu inconsciente é: “A Adriana dá confiança a mim, porque ela é paia. Ela é relaxada, ela é péssima mãe, ela não tem qualidades”. Só que não é isso, Antonio. Eu estou com você porque você é um homem cheio de méritos e qualidades. Só é meio “pobremático da cabeça”, mas você tem mesmo é que colocar seus méritos para fora.

- E eu não faço isso? Eu luto muito pra tentar acertar, e você sabe disso!

- Eu já disse que você tenta, tenta mesmo, eu percebo. Mas geralmente, você põe a voz do seu inconsciente que diz que você só se sobressaiu porque o resto é burro. Porque o mundo é uma merda. Porque aí fora só tem gente “paia”. Na sua cabeça, seu inconsciente funciona assim: “Veja bem, Antonio. Olhe pra Adriana e olhe pra Angelina Jolie”. No seu inconsciente está a voz da sua mãe, dizendo: “só existe satisfação realmente, Toninho, meu filho, quando o céu é o limite”. Me poupe, Antonio. Sua mãe só vai estar feliz quando você for ministro do supremo, sua irmã for nobel de medicina e seu irmão for campeão de fórmula um ou engenheiro nos boxes da Ferrari. Mas isso você já percebeu.

- Pelo menos eu não me frustro mais com o descrédito que recebo dos meus pais.

- Não mesmo?

- Ta bem. Eu ainda me frustro.

- E quando você obtém sucesso em alguma coisa, sua sensação é de que o mérito nunca é seu. Não foi você que ganhou. Foi o outro que perdeu. Mas cada dia que passa você percebe isso com mais intensidade. E é claro que você vai superar isso.

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Nota: O leitor deve estar se perguntando como foi que eu escrevi isso tudo, se eu mesmo disse que não conseguia fixar isso que a Adriana me disse. É simples: O mecanismo de defesa de “jogar fora” do inconsciente não tem como sobreviver às maravilhas da tecnologia. Como eu já sei que meu inconsciente joga fora tudo o que é importante, dessa vez, eu gravei a conversa. E a reproduzi aqui, com a anuência da minha amada interlocutora.

Te amo, Adriana.


23.6.09

Eu não vô patipitipá!

Ah, perninhas! Perninhas cresceu. Parece um melão num palito, aquele cabeção com cabelo chanel meio alorado, meio de cor de terra, naquele corpinho magrinho. E a personalidadezinha de Perninhas? Ah, perninhas...Ela pode até estar querendo alguma coisa, mas se resolve “reinar” (ficar birrenta), não interessa onde, quando, como, Perninhas sempre dá um jeito de chamar a atençãozinha, se jogar no chão, enquanto dá um gritinho igual ao do Bruce Lee, algo como “uadáááá-wuuuuuhhhh!”, ou então ela diz, esticando a mãozinha para a frente “não pai!. Esperi pai !” Fora as vezes em que eu flagro Perninhas fazendo alguma merdinha, e ela se esconde atrás de uma de suas miudezinhas, fecha um olho e fica me mirando com o outro olho, como se ela realmente pudesse se esconder atrás de um brinquedinho de 5cm por 3 cm, que é o tamanho máximo das miudezinhas que ela adora colecionar.


Ah, Perninhas e suas miudezinhas! Perninhas pega tudo e vai juntando em saquinhos que ela leva consigo aonde vai, um saquinho de cada vez. Ela coloca pilha, tampinha de garrafa pet, alguma pecinha dum jogo de xadrez , um pedaço de um brinquedo de Kinder Ovo, uma cabecinha de uma bonequinha, como a “Mida Poly” – assim ela chama a bonequinha, acho que é daquela série de mini-brinquedos da Polly World, sei lá, nem me ligo nos desenhos atuais, tão politizadores e estranhos, mas, enfim, é o mundinho de Perninhas, sempre as miudezinhas. Daí ela sai pra almoçar com a gente, por exemplo, e quer levar o saquinho cheio de miudezinhas de toda espécie ao restaurante. E o interessante é que Perninhas não espalha as miudezinhas, ela as guarda e coleciona. Ocasionalmente Perninhas tira cinco ou seis miudezinhas do saquinho, leva um papo com as miudezinhas e volta a colocá-las lá.


Perninhas vive num mundo totalmente fantástico e cheio de imaginação, onde falas, jargões, clichês, caras e bocas dos personagens dos filminhos que ela assiste ela imita e coloca nas mais cômicas situações. Com isso fica quase impossível dar uma bronca em Perninhas, pois ela sabe se sair muito bem das situações, fazendo de conta que não entende e revidando com uma frase de filminho que ela viu umas cinqüenta vezes no DVD, algo como um trecho do desenho Aladim, da Disney, onde ele diz “Você confia em mim? Confia em mim?” Pois Perninhas, quando vê que a bronquinha está séria, às vezes estica o bracinho (como na cena em que o Aladim vai pegar a mão da princesa) e diz, com uma voz bem fininha: “você confia em mim? Confia em mim?”.


E quando a Perninhas quer repetir uma frase ou cena de filme inteira mas não sabe exatamente o que as personagens disseram? Aí ela vai falando mais baixinho e mais fininho e começa a enrolar, como algumas pessoas fazem com letras de músicas em inglês que elas não tem muita certeza como se canta. Daí e da capacidade que Perninhas e todas as crianças tem de inventar, saíram pérolas como “Não pai! Eu não vô patipitipá!” E outra, mais incompreensível ainda,. E que ela usou por muito tempo: “Não, eu não vô petemê!”

Como “patipitipá” foi uma expressão de Perninhas que veio da escolinha, imagino que tenha sido uma recusa dela em participar (patipitipá) de alguma atividade. Enfim, Perninhas é essa figurinha, parecidíssima com a Adriana, completamente independente e doida. Meio bipolarzinha, eu diria, morrendo de medo que ela ou a Laís tenham essa doença maldita. O pai da Adriana, pra piorar, também tinha. A carga genética, no caso das minhas filhas, é grande.


Sei que dos grandes questionamentos que Perninhas levanta, como “eu não vô petemê” (até hoje não foi descoberta a origem dessa palavra) e “eu não vô patipitipá” , eu sempre reflito a respeito. Quanto ao “Petemê”, o interessante é justamente o mistério por trás da expressão. Como ser criança é poder ser tão franco com as pessoas que você nem se importa se o que você diz faz sentido ou não, enquanto em nosso mundo “adulto”, o sentido vem até antes da palavra, e todo mundo passa o tempo todo medindo tudo o que vai dizer. Mas não vou falar da filosofia do “eu não vô petemê”. Vou falar da do “eu não vô patipitipá”.


Fiz minha primeira luta, em 31 de maio de 2009. Perdi, por 13 pontos a 10. Teoricamente, isso significaria que o outro lutador acertou 13 golpes limpos (sem bloqueio de minha parte, ainda que parcial) e eu, 10 golpes nele. Não me senti derrotado. Não tem como sentir-se derrotado, depois de subir ali.


Realmente fazer isso é um verdadeiro batismo de fogo. A preparação pra lutar então, é uma experiência que demonstra que está certa a máxima que diz que o caminho é mais importante que a meta a ser alcançada. É uma disciplina que, se o lutador seguir a risca, faz acender o lado mais animal que um humano ainda carrega dentro de si. Lutadores, enquanto estão se preparando para lutar, vão virando puro instinto, aquela coisa que não tem mais vez nem importância no mundo atual. O instinto parece estar desvalorizado, frente a limitações como as impostas pela polidez e uso do que é politicamente correto. Não estou dizendo que as pessoas deviam sair por aí resolvendo seus conflitos de forma violenta, não é isso, mas estou dizendo que confiar no instinto significa estar preparado a tal ponto que o sujeito tenha a certeza de poder contar com ele nos piores momentos: e se superar.


Trinta e sete anos. Demorou demais pra fazer isso. Após lutar, fui advertido que não poderia continuar no campeonato, pois o regulamento permite apenas lutadores até 34 anos. No entanto, o presidente da federação disse que não sou impedido de lutar “lutas de exibição”. Essas lutas, ao contrário do que o nome sugere, significam que eu posso desafiar quem eu quiser para lutar no mesmo evento de um campeonato, mas sem a disputa de título. Se eu quiser título, tenho que me profissionalizar – daí não tem limite de idade. No momento, eu só penso na revanche, que o oponente aceitou e provavelmente será em agosto.


“Muito velho pra isso tudo”. Os imbecis adoram proclamar isso, para atestar que sua falta de coragem pra subir num ringue é justificável pela idade e não se sentirem tão mal quando vêem outro da mesma idade deles lutando. Outros acham que eu estou nessa porque não quero envelhecer. Bem, de certa forma eles estão certos. Estou em uma fase em minha vida maníaco-depressiva em que eu quero viver. O que eu mais quero é viver! Treinar arduamente melhorou minha saúde física e mental. No entanto, foi duro ver que fui barrado de continuar lutando em campeonato por causa da idade, enquanto moleques de 20 anos de idade com 3 meses de boxe entram em campeonatos e quase tem suas cabeças arrancadas, pois não tem tempo de treino o suficiente pra saber se defender direito. E isso significa tomar uma surra no ringue muitas vezes, coisa que comigo não aconteceu. Eu perdi, mas de forma alguma tomei uma surra.


Perninhas, Laís e Adriana assistiram a luta, a última do evento, quando já tinha pouca gente no ginásio, e todo mundo desceu da arquibancada e foi pro centro do ginásio. Perninhas (me contaram depois) corria em volta do ringue e gritava: "Vai pai! Vai pai! Acéta ele!" Minhas filhas saíram de lá sentindo orgulho de seu pai.

Enfim, ao contrário de Perninhas, eu vô patipitipá! O mundo e suas idéias distorcidas do que é ou não é bom para a gente que se foda. A medalhinha ou o cinturão, para quem passou no batismo de fogo e se tornou um verdadeiro guerreiro, é o de menos. Eu luto pelo prazer da auto-superação dos medos não antes, deixando de fazer e nem depois, com terapia, mas DURANTE a batalha, que aparentemente é a situação mais infernal e irreversível possível de se imaginar. E às pessoas que simplesmente não entendem o porquê, eu uso a outra filosofia de Perninhas e digo: Dane-se. "Eu não vou petemê!"



Fui.


8.5.09

Ah, no meu mundo...


Fiz merda. Entrei em um grupo de discussão de transtorno bipolar, com milhares de “colegas”. E num dia hipomaníaco-quase-passando-da-conta, debulhei. Escrevi pra cacete sobre nossa parcela de responsabilidade no trato com os outros. Basicamente, o fato de que não interessa se você ofendeu porque estava em crise ou porque não tem caráter mesmo: seu interlocutor se machuca.

Nem é preciso dizer que fui massacrado. Sei que depois que eu saí do grupo virtual, debaixo de uma chuva de críticas e alguns elogios, acabei rediscutindo o assunto em outro grupo. E num lampejo de sanidade (tenho tido vários ultimamente, doutor, será que estou bem? hehehe) eis o que eu escrevi:

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O que torna difícil às pessoas compreender que o transtorno bipolar é uma DOENÇA é o fato de que muitas pessoas com doença bipolar são "aparentemente normais, com lampejos de desequilíbrio".

É que as pessoas não se dão conta de fatores como estar ou não se tratando, estar ou não se tratando adequadamente (pode ser que lítio, apesar dos médicos recomendarem como primeira opção, no início do tratamento, seja pior do que não se tratar para o doente), fatores de comorbidade, como uso/abuso de álcool e drogas. E principalmente, as pessoas não se dão conta que existem pelo menos seis tipos de doença bipolar.

Não é de hoje que pessoas com transtornos mentais são discriminadas. E o desconhecimento generalizado sobre os transtornos mentais é o grande responsável por isso. Muita gente coloca no mesmo saco todos os gêneros de loucos. Até o último código civil revogado, a menção era mesmo "loucos de todo o gênero". É comparar um serial killer, ou um estuprador, ou um pedófilo, com uma pessoa que em razão de um desequilíbrio tem o que parece ser uma lente de aumento sobre suas emoções - sem contudo mudar seu caráter - digam o que quiserem, mas é uma atitude discriminatória, preconceituosa e desinformada.

Bipolares não tem retardamento mental, ou QI baixo. Tá cheio de bipolares que agraciaram o mundo com suas obras. DE Van Gogh a Ulisses Guimarães, de Mike Tyson a Jim Carrey, a variação de humor de muitas pessoas é responsável muitas vezes por trazer ao mundo insano das pessoas "normais", como os capitalistas predatórios e o populacho apavorado, um equilíbrio em suas vidas insanas.

1.4.09

O louco e o mundo




“Também não é raro ver-se um mais louco, rir-se muito de outro menos do que ele. Mas na minha opinião o homem é tanto mais feliz quanto mais numerosas são suas modalidades de loucura, contanto que não saia da espécie que nos é peculiar e que é tão espelhada que eu não saberia dizer se haverá, em todo gênero humano, um só indivíduo que seja tão sábio e não tenha também a sua modalidade. Se alguém ao ver uma abóbora, a tomasse por uma mulher, dir-se-ia ser o pobrezinho um louco. A razão disso é que semelhante perturbação raras vezes costuma aparecer entre nós. Mas quando um marido imbecil adora a mulher, julgando-a mais fiel do que Penélope, mesmo que ela faça crescer em sua cabeça um bosque de chifres, e intimamente se felicita, bendizendo enormemente o seu destino e dando graças a Deus por ter se unido a semelhante Lucrécia - ninguém acha que se trate de loucura, porque isso, hoje em dia, é a coisa mais natural deste mundo.”

Erasmo de Rotterdam, in Elogio da Loucura

Estado misto é um negócio de outro mundo mesmo. A gente acha que entende o que está se passando, que é geralmente a maior carga de pensamentos negativos possíveis a respeito de situações que, quando estamos num período de normalidade, não enxergamos do mesmo modo. E essas oscilações brabas provocam conseqüências drásticas, movidas pelos motivos errados, fruto de uma interpretação de um doido que se encontra em estado misto e, como eu disse, “acha” que entende o que está se passando.

Pois eu acabei de sair de um desses estados mistos. E como eu já disse aqui, eu estou bem treinado em identificar meus estados de crise da doença. E percebo que idéias sobre, por exemplo, o quanto minha vida está uma merda, desaparecem completamente, tão logo a crise vá embora. E essas idéias influenciam todas as facetas da vida, seja trabalho, filhos, relacionamento amoroso, prática esportiva, estudo, e até os próprios sonhos. Dizer que influencia a auto-imagem é até desnecessário, porque numa crise depressiva, por exemplo, todo mundo sabe que fica se sentindo uma merda ambulante.

Somos rotulados no mundo onde vivemos. Parece que rotular é uma forma primitiva de se entender. Assim como os cães lêem o mundo através do olfato, belas bundas redondas encaixadas em quadris largos, cintura fina e peitões identificam, no meu inconsciente, mulheres com melhores chances de procriar e no meu consciente, uma vontade doida de trepar com esse tipo.

Ele é negro. Ele é gay. Ele é neonazista. Ele é corrupto. Ele é drogado. Ela é anoréxica. Ela é sexy. Ela é inteligente. Ela é recalcada. Ela é ninfomaníaca. Ela é culta. Ela é boa de cama. E a gente vai rotulando e se entendendo diante disso tudo. Pois o problema está nesse hábito hediondo de rotular tudo e todos para “se entender diante do mundo” – expressão mencionada pelo meu camarada Fred, e que explica muita coisa.

E por que o problema está nos rótulos? Porra, isso é óbvio, ainda mais pra quem tem doença bipolar, onde as conclusões retiradas dos rótulos, nos períodos de crise, conseguem ser ainda mais equivocadas do que as derivadas dos rótulos das pessoas que não sofrem com variações patológicas de humor.

Com isso tudo dá pra concluir que doença bipolar é uma benção pra quem se entende diante dela. Não haveria nada mais fácil do que se dar conta do quanto nossas perspectivas se alteram diante de variações tão grandes de humor quando alguns tipos (I,II, III e o caralho) e estados (maníaco, depressivo, misto, hipomaníaco e o caralho também) da doença manifestam. Não haveria nada melhor para curar uma crise depressiva rapidamente dando-se conta, na semana seguinte a depressão, de como as cores do mundo se modificaram. Tudo isso seria possível com a minimização desses estados, através dos melhores tratamentos que a cada um coubesse, se isso fosse possível. O melhor tratamento pode ser desde não se tratar, dependendo do nível da doença do maluco, passando por tomar só óleo de peixe (omega 3), até lítio e eletrochoque. Claro que aqui estou levando em conta mais como o paciente com doença bipolar se sente diante do mundo do que aquilo que a sociedade rotulante espera dele, que seria, normalmente, apenas que ele parasse de encher o saco.

Só que até se entender diante da doença vai um longo processo. E faz parte desse processo entender que, nos períodos de crise, pode acontecer o que muita gente considera como a desculpa perfeita propiciada pela maluquez ou pela bebedeira: “ah, eu esqueci! Foi mesmo? Nossa...Eu disse ou fiz tudo isso?”

O problema é que nem sempre isso é uma desculpa. Nem sempre um doido bipolar lembra, de fato, logo no dia seguinte, que no dia anterior infligiu a quem importa uma pancadaria verbal capaz de levar aquela relação pro buraco, seja amor, amizade, trabalho, ou o que for. Isso sem contar que o mundo tem ficado mais intolerante com certas coisas, como padrões de comportamento. Se eu escrevo palavrão, isso é suficiente pra que muita gente deixe de ler o resto. “Ele escreve palavrão”. O rótulo é o cabresto que a humanidade confeccionou e que serviu direitinho em seus olhos vesgos. A intolerância é, muitas vezes, senão todas as vezes, fruto desse cabresto humano que se tornou a porra do rótulo. E malucos (o melhor termo, EM MINHA OPINIÃO, é “pessoa com transtorno mental”) possuem ainda a agravante da distorção extra nos rótulos, provocada pelo desequilíbrio químico com que foram “agraciados”, seja porque fizeram uma merda muito grande, como fumar crack, seja porque tem uma raiz hereditária, como é o caso da doença bipolar.

Então pessoas que se amam se agridem, casamentos de almas gêmeas vão pra fita, empregos promissores desabam, a intolerância cresce e a humanidade morre. Parece que eu estou tentando pegar o caos e transformar em oportunidade? Porque é isso mesmo que eu estou tentando fazer, depois de perceber que o caos é relativo e conseqüentemente, relativizável. E quem melhor pra manipular o caos do que nós, os loucos, as maiores autoridades em caos?

Ah, nós, os loucos... parece que temos mais a oferecer ao mundo do que nosso desequilíbrio. Orgulhe-se de sua loucura você também. Melhor ainda, coloque sua loucura a seu favor, não a utilizando como desculpa, não a utilizando como rótulo, mas buscando entender que nenhum rótulo ou loucura é capaz de definir quem você é, porque, louco ou não, seu humor varia diante do mundo, seja ele tolerante ou não à porra do rótulo.

Fui.


27.1.09

Point Break




Eu escrevi muito até concluir que não dá pra postar tudo o que a gente gostaria, porque ofenderia muito a honra de pessoas que eu deveria estimar. Falar mal dos pais não pega muito bem. Não que eu me prenda a conveniências ou que eles não mereçam, depois do que fizeram a mim, a Adriana e às próprias netas. A questão é expor a vida deles aqui, com o que não posso concordar.

Então eu vou resumir a história e dizer que este é um ponto de ruptura com meus pais. No ciclo da vida, eles deveriam dar maior valor aos filhos e não rejeitá-los, como se o amanhã estivesse garantido. Mas a opção é deles. Quanto a mim, eu nunca vou dar as costas a minhas filhas. Nunca vou bater a porta na cara delas ou colocá-las pra fora. Elas podem virar lésbicas, assaltantes, traficantes e até políticas corruptas, que eu jamais vou deixá-las na mão.

Deixa pra lá. A questão é o “point break” com meus pais. As coisas acontecem porque tem que acontecer, não tem mistério. A questão é estar preparado para entender o que a vida quer mostrar quando determinada situação ocorre, sem muitos julgamentos ou lamentações frente ao ocorrido.

“O amor dos pais pelos filhos é incondicional, e por isso os pais são as pessoas no mundo que mais amam os filhos”. Quem prega essa utopia devia ter vergonha na cara e se lembrar dos pais pedófilos, bandidos, safados, violentos, que abandonam deliberadamente e tantas outras demonstrações de “amor incondicional” que existe no mundo de hoje.

Filhos rejeitados vivem um sonho impossível, que é o de corresponder a expectativas impossíveis de seus pais fracassados. Quem foi sempre rejeitado pelos pais, quem foi sempre colocado pra fora de casa ao menor sinal de conflito ou pelo menos quem foi constantemente ameaçado disso deveria saber que nunca, jamais será capaz de satisfazer os anseios de seus pais, porque pais que agem assim geralmente perderam e perderam feio pra vida; daí projetaram seu insucesso absoluto nos filhos e seu relacionamento com eles passou a se resumir em cobrar o sucesso que não tiveram, gerando nos filhos a mesma frustração doentia que os acompanhou a vida toda.

Acho que matar os pais dentro de si pode ser o primeiro passo para aumentar significativamente as chances de sucesso de quem teve pais frustrados que, como todo mundo, só dá o que tem: no caso, a frustração. Um pai de santo disse isso pra mãe de santo da Adriana: “Ninguém dá o que não tem, minha filha. Quem não tem amor no coração, não tem amor pra dar pra ninguém, nem pros filhos, nem pros netos. Pra ninguém”.

Eu tenho certeza absoluta que esse papinho de amor incondicional dos pais para os filhos é a mais pura balela. Pais pedófilos tem amor incondicional? Pais que fecham as portas de casa na cara dos filhos tem amor incondicional? Pais violentos, que batem nos filhos até desmaiá-los tem amor incondicional? Não, não tem, como não tem psicanalista que me convença do contrário.

Foi bom, no final das contas, o que ocorreu. Fui forçado de uma vez por todas a abandonar a idéia de não ser um fracasso para os meus pais e me concentrar em não ser um fracasso para as minhas filhas. É como quando você toma aquele pé na bunda inesperado e logo depois enxerga nisso uma oportunidade de tocar a vida do seu jeito, sem esperar mais por algo que sabe que nunca vai vir. Eu andei dizendo pra Adriana que não reconhecia mais a minha família. Mas aí ela me disse que isso é porque, caso eu ainda não tenha notado, minha família não são mais meus pais. Às vezes eu sou meio lento mesmo.

Estou no que considero o pior tipo de manifestação da doença: o estado misto: a depressão bloqueia o raciocínio e a mania amplia a ira provocada pela incapacidade de me expressar adequadamente. É só olhar a confusão de idéias dos meus últimos textos. Mas acho que está passando.

Ah, sim, em breve, vídeos de algumas de minhas lutas. Prepare-se para muito sangue e uma coragem inspiradora.

Fui, me sentindo mais livre em 2009.

23.12.08

Evander Holyfield – a inspiração.




Boxe não tem divulgação quase nenhuma no Brasil. Não sei do resto do mundo, mas eu fico imaginando de onde vem o descrédito generalizado do boxe. Geralmente os primeiros que vão pra fogueira são os lutadores, que sabem muito bem que não dá futuro ter sérias lesões cerebrais na base do cérebro que podem levar a sérios problemas neurológicos. O que as pessoas não conseguem entender é que a realização de muitos guerreiros, principalmente os profissionais, é ficar em pé durante muito mais tempo ainda do que o inferno físico e psíquico que um guerreiro tem que aguentar em 12 assaltos. Vai ter uma crise de ansiedade no ringue, no meio de uma luta, pra ver se seu fôlego suporta três minutos.

Holyfield tem 46 anos e quatro títulos mundiais. O cara tem uns trinta anos de boxe na veia e uma resistência física de um lutador de 30 anos de idade. E foi buscar o 5o título mundial de boxe, dando a cara pra bater com um gigante de 2,13 de altura, 147 quilos, pelo menos cinqüenta vitórias e duas derrotas. Sim, parece que no cartel ele tem uma, mas qualquer lutador sabe quem venceu a luta, contra aquele armário semi-imóvel, que por saber quem iria enfrentar, e por também saber que teria, provavelmente, que suportar os12 rounds inteiros, ficou estancado no ringue e esperando com toda a confiança de um Ivan Drago (coitado do Dolph Lundgren perto desse cara) acreditando que os golpes do oponente não iriam produzir o nocaute que, pessoalmente, eu acho que o Holyifield tinha condição de ir buscar.

Mas é isso o que as pessoas não entendem, como não entendem como um cara com cada lesão monstruosa, como o Ronaldo, do futebol, tem que se preservar e infelizmente não pode, sob pena de ter de se aposentar mais cedo que o esperado, simplesmente cair matando em cima só com o coração.

Eu não era fã do Holyfield. Quando ele tomou a mordida na orelha do Tyson, depois de dar algumas de suas infames cabeçadas e irritar um provável bipolar, provavelmente não tratado, do tipo do Tyson, eu fiquei chateado com a atitude do Tyson, que isso não se faz mesmo num ringue, porque isso, para o boxeador que é desportista, é uma falta de respeito, muito acima da dor do golpe, mas entendi que foi uma reação do Tyson a provocação das cabeçadas do oponente, que também é falta. Apesar disso, ao “final” daquela luta, o Holyfield teve uma atitude totalmente desportista naquela época, mas, como eu já disse aqui nesse blog, eu não me impressiono muito com a polidez, ainda mais quando ela é pra justificar uma conduta que o “Real Deal” sabia que não é permitida mesmo, porque fere, pelo menos superficialmente, bem mais que um soco com luvas. Ferida, em geral, não assusta quem é guerreiro, mas irrita pra caramba, porque limita o seu combate.

Mas eu confesso que dessa vez, a polidez do Holyfield impressionou. Naquele final circense da luta, com Valuev dano um aceno meio murcho logo após o término, enquanto aquela pontuação descabida era cozida entre os jurados, e em pouco tempo sua anunciada vitória, sem graça na verdade, apesar daquele Showmen que colocaram no espetáculo ter uma cara de “vamu pensá positivu” até pra anunciar o resultado tenebroso, tudo sob as vaias e inconformismo dos presentes, filmada e entrando em rede mundial, com o conseqüente olhar atento de muito mais gente do que se supõe, quebrando mais um pouco a credibilidade do boxe. Sim, apesar disso tudo, a polidez do Holyfield impressionou. Ele disse ao entrevistador, com toda a humildade que lhe é peculiar, que tinha batido muito mais no russo do que o russo nele, que ele se sentiu muito bem no ringue e na maior calma, que ele ia pensar ainda no que iria fazer, e deixou tudo como quem deixa para trás um passado distante e bem ruim. Bem, como o passado ruim era bem recente, ele mostrou porque, aos 46 anos de idade, ainda mantém uma forma física que quase ninguém em sua idade mantém. Tudo para ser, bem ao contrário da insistência para que o Ronaldo do futeba permaneça jogando, “aposentado compulsoriamente” dos ringues.

Me recuso a acreditar que Holyfield tenha sido o último grande guerreiro do boxe profissional. Muita gente acha que o boxe acabou quando o Ali se aposentou, daí veio um cara, treinando arduamente pra subir de peso, porque era o único capaz de derrotar a fera Tyson, que pra muita gente, que não entende nada de boxe, era só um troglodita e não sabia lutar. Pos além do Tyson surgiu esse magrelo que hoje é o gigante Holyfield, que não merecia esse final grotesco.

Acho que está passando da hora das pessoas que detém o poder repensarem suas atitudes corruptas, porque por causa delas a vida vai se tornando algo sem graça. Menos, é claro, para os guerreiros, que sempre sabem quem venceu e quem perdeu. E menos ainda para quem, como o “Real Deal”, faz o impensável e o impossível.


18.12.08

Rastreando o alvo certo ou

Só se for agora

Ou

A tão sonhada resposta pronta

Ou

Foda-se o título. Só leia o texto.







Mudei de idéia sobre o inconsciente ser aquele cara grande e burro (post de 25/09/2007 intitulado Morte ao Inconsciente). Ele, na verdade, é um magrelo assustado com um cérebro imenso, que fica correndo em volta da minha caixa craniana e dando um grito contínuo de “AHAHAHAHAHAHAHHHHHH”, enquanto eu estou numa crise maníaca ou simplesmente meio ansioso demais para sair dos ciclos de auto-sabotagem em que eu me meto de vez em quando.

E enquanto esse magrelo no meu cérebro grita e corre continuamente, existem inúmeras portas em volta dele, de onde saem vozes como a do “paizinho”, que dizia “Toninhooo....vc não vai ser ninguém na vidaaaaaa”, além da voz da mãezinha, dizendo “será, Toninho, meu filho? Será que isso é assim mesmo? Será que não é de outro jeito? Olha, Toninho....cuidado, filho!”.

Daí tem vezes em que a impressão que dá é que a mente “jogou fora”. Isso geralmente acontece quando se ouve verdades que doem. Alguém te diz como as coisas são de verdade, ou você mesmo descobre, mas fica quase impossível compreender porque o cérebro não ajuda. E olha o magrelo com um cabeção correndo em volta da caixa craniana e gritando, enquanto outras portinhas se abrem em volta e a distração corre solta, só pra afugentar da percepção as verdades sobre mim mesmo que meu inconsciente guarda.

E quando é que o homenzinho começa a correr de novo? Ah, fodeu, porque eu descobri, mesmo com toda a distração propiciada dentro da caixa craniana pelos gritos de agonia do magrelo, as vozes internas do meu pai e da minha mãe, o bulling no colégio, a enrabada na infância e o medo de prejudicar meu cliente com uma derrota que não é minha decisão, eu descobri. Não a causa, mas os momentos em que todo esse processo grotesco de desenho animado rola na mente: é quando eu preciso ligar o Start. Sim, o Start, o botãozinho que existe no meio da caixa craniana e que liga os motores das bobinas cerebrais para começar algo que eu temo “não conseguir, Toninho, seu imbecil”, porque “será que é assim mesmo que faz, Toninho?”. Algo como o trabalho, por exemplo, que me faz hesitar muitas vezes porque eu, como muitos profissionais, tenho medo do julgamento do cliente mais que do juiz. Hesitação e conhecimento andam juntos, mas não a hesitação que te impede de fazer por causa do que os outros vão pensar, mas aquela hesitação que provém da dúvida e que deveria servir de combustível para adquirir novos e melhores conhecimentos, não fosse esse maldito magrelo gritando e correndo em volta da caixa - em sentido anti-horário, é claro, provavelmente como uma alusão, não tão inconsciente assim, ao regresso no tempo, ao andar pra trás da hora, até a infância onde tudo começou – até que eu apague de vez tudo o que aprendi a respeito do quer quer que me me impeça de acionar o botão de start. É isso mesmo, Start, início, partir do princípio, fazr algo a respeito, ainda que na incerteza, melhor que se fechar como uma concha, deitar em posição fetal, chupar o dedo e dizer “eu sou uma fraude, eu sou uma fraude, porra, eu sou uma fraude”.

E não, não estou culpando meus pais. Tenho razões para crer que o carinha no cérebro deles é maior e grita mais alto que o meu. Em outras palavras, eles também tiveram sua cota de violência psíquica na infância, tenho certeza. Eu tento quebrar o ciclo que eles não conseguiram, pela Adriana, pelas minhas filhas e pela convivência com o mundo e com o carinha magrelo que corre sem parar na caixa craniana.

Não quero ser John Malkovich, mas queria um portal pra dentro da minha caixa craniana, onde o magrelo ia levar o maior cacete da vida inútil dele, até ficar desacordado e descobrir que não é exatamente tudo que eu temo, apesar de sentir que ultimamente também ando me sabotando para voltar a treinar boxe a sério. Com certeza é medo de perder, mas não de levar porrada, que isso já rola em muito treino e nem sempre de forma leve. Tudo bem, esse ano eu tive a desculpa da pós, que junto com o trampo tomou mais tempo que eu previa e, lógico, é prioridade. Mas ano que vem eu vou deixar esse magrelo tomar umas pancadas do outro peso pesado. Daí eu vou virar pra ele, naquele momento knock down (meio grogue mas ainda em condições de lutar), e perguntar:

- E daí, tem certeza mesmo que você vai continuar aí correndo e gritando ao invés de acionar A PORRA DO BOTÃOZINHO DE START?

Sim, hoje, nesse momento megalomaníaco maravilhoso, eu digo que sim, sou a porra de um herói sim. E meus super-poderes vem na mesma medida da porra do medo que eu sinto de simplesmente ser feliz. Há quem questione não ter tudo para ser feliz e não ser possível ser feliz por não ter tudo o que é preciso. Eu só questiono a porra do botão de Start que se encontra sob o domínio do magrelo que corre e grita de pavor lá dentro, enquanto ouve as vozes do “paizinho e da mãezinha”.

Esse texto pode ser, para você leitor, a coisa mais doida que já leu nesse blog. Mas para mim faz todo o sentido.

Abraços a todos e feliz natal.

- TONINHOOOOO........... SUA FRAUUUUUUDEEEE!!!!.....

- SERÁ? SERÁ? SERÁ, TONINHO, MEU FILHO, SERÁ?

Ah, paizinho e mãezinha, fui e não me encham o saco.

13.11.08

A trava para estudar




Tem algumas coisas a respeito das pessoas e de mim mesmo que eu não entendo, não importa o quanto eu pense nelas ou busque uma resposta pronta no google.

Uma delas é a trava para estudar. Já falei disso aqui nesse blog, mas eu sempre permeio o assunto porque até há pouco ele era meio tabu pra mim mesmo.Mas depois de tanta porcaria que tem acontecido no mundo todo eu, pelo menos, ando perdendo a vergonha pra certas coisas. Isso é se nivelar por baixo e pode até ter relação com o porque da auto-sabotagem para estudar, sempre que eu preciso. Deve ter mesmo, mas definitivamente isso não resolve o problema. Tem mais coisa aí. Cuilpar os pais sempre é fácil demais e também não resolve o problema. Conheço um mundo de gente que vem de famílias simples, onde o estímulo ao aprendizado simplesmente não exisitia, e eles se saíram bem, eu acho.

Mas a trava pra estudar é estranha. Ela causa angústia, só que não é como você ter toda aquela sede e saber que a angústia será aliviada quando você correr para o Oásis, ou para os livros. Porque não, muitas vezes eu não tenho aquela sede. Mas aí fica muito mais estranho quando eu tenho aquela sede, porque a angústia é capaz de aumentá-la ainda mais e eu ainda assim continuar apenas olhando de longe para o oásis dos livros. Quando eu fico travado pra estudar, se muito eu chego na beira do oásis e olho o sumário, e “olha, tem coisas interessantes aqui, coisas de que eu preciso mesmo”. Enfim, coisas que contextualizam bem situações concretas, coisa que o sistema educacional é especialista em não fazer. E eu acabo não saindo do sumário, mas “pretendendo comprar o livro”. E é claro, não matei a sede e continuo olhando de longe pra água fresca do Oásis, e me perguntando se ela é ralmente fresca ou não está de acordo com o que eu preciso, que é sempre a porcaria da resposta pronta. Culpa dessa ejaculação precoce que se tornaram as relações entre as pessoas e que faz o dia parecer ter 16 horas e não 24. E sabe que eu me pergunto mesmo se a Terra não tá rodando mais rápido e como tá todo mundo embarcado nela, ninguém percebeu? Mas essa eu não achei no google, acho que tinha de ir a um laboratório de astronomia.

E o combustível que mantém acesa a trava pra estudar? Desse eu entendo: a auto-sabotagem emperra o meu mundo e o de quase todo mundo. Como estar aqui, agora, escrevendo isso e perdendo o preciso e precioso tempo precocemente ejaculado pelo mundo e que me obriga a voltar pro planeta que está sufocando, coisa que eu tenho que reconhecer ainda que eu não curta os ecochatos. Mas quando a humanidade for extinta o planeta vive de novo, galera, nem se incomodem. Quem vai dançar somos nós mesmos, e nossos descendentes, até não sobrar mais nada. E a auto-sabotagem é confortável, porque eu meio que entro em uma zona de sonhos, sonhando que estou escrevendo sobre a realidade, por exemplo, como estou fazendo agora, ou, outro exemplo, como se auto-sabotam – e aos ecochatos - os investidores que quebram o mundo inteiro e vão levar todo mundo pro buraco além do vazio existencial de suas almas insaciáveis e burras, que sempre se sabotam fazendo-os esquecer da história do rei que transformava tudo em ouro e morreu de fome, aquele rei lá que eu não lembro porque só li a resposta pronta. Ah, era Midas, eu acho.

Mas não é só isso. Tem mais coisa no universo da trava pra estudar. No meu caso e no caso de todo mundo que lida com direito, tem a fé na justiça, abalada pela carga massiva de notícias, tendenciosas ou não, sobre a parte do mundo que eu considero a mais importante, porque é a que impede as pessoas de dilacerarem umas com as outras, de forma mais escancarada ainda que a forma que vem ocorrendo hoje em dia. A falta de fé do cidadfão na justiça o leva a desistir de contratar advogado. E quando ele assim mesmo o faz, a falta de fé de seu advogado na justiça, pelo menos no começo da advocacia, eu penso, para quase todo mundo, apavora e o medo paralisa. Mas isso no fimal das contas acaba sendo bom, desde que o advogado aprenda que ele tem de provar exaustivamente o que alega e que o que ele pede deve ter respaldo legal, porque, afinal, assim mesmo pode ser que uma história terrível de injustiça ocorra.

Tá, mas no que isso me trava pra estudar? É simples: sem fé na justiça a possibilidade da qualidade dos serviços jurídicos cair é imensa, afinal, se o profissional se deixar levar profundamente por esse sentimento, ele pode, ao invés de ter a visão sobre a prova exaustiva e o pedido possível, começar a se questionar que diferença faz pedir de um jeito ou de qualquer jeito que for. E isso serve tanto para os que buscam resolver os conflitos com conhecimento como aos que pelo menos intentam resolver com tapinha nas costas, ainda que não seja possível (pelo menos deveria nuca ser possível) funcionar. Com certeza os gabinetes dos juízes ficariam bem mais vazios e eles conseguiriam mais celeridade, respeitadas, é claro, as situações em que é realmente necessário pedir urgência. Sei lá, sou meio conservaor nisso, porque trabalhei em gabinete de juiz e sei que ali se lida com o impossível, o que, se não dá o direito ao juiz de impedir o acesso do advogado, deveria também conferir ao advogado o dever de ter bom senso para dirimir o que é de fato urgente e impossível de ser entendido pela linguagem escrita da petição.

Ah é, não posso dar opinião virtual. Mas posso dizer que eu já sofri desse mal (o da falta de fé na justiça) mas escolhi o caminho do estudo e é por isso mesmo que eu tô aqui fazendo toda essa mea culpa e tentando mais uma errônea vez me entender através do blog. Aliás, até sobre a (im)parcialidade do juiz tem livro escrito, e por um juiz inclusive. Aprender sobre esse processo ajuda a serenar um pouco o coração do incrédulo.

Daí tem também os livros de capas e títulos atrantes e conteúdo terrível. Não falo aqui dos jurídicos, cuja capa geralmente é terrível e o conteúdo, geralmente atraente, desde que não se busque a resposta formatada, assada e usualmente buscada. Mas os livros de capas e títulos atraentes que são uma merda reforçam bastante a trava pra estudar.

No final, eu poderia considerar que é preguiça mesmo, ou falta de colocar o estudo em minha vida como um ritual, diário e a ser exercido em hora certa ou ao menos aproximada, como escovar os dentes. Não é por nada não, mas vai tentar fazer isso tendo doença bipolar. Aliás, do mesmo jeito que eu posso ficar semanas sem ler nada que não seja trabalho, eu posso pegar um “Terras do Sem Fim” (do Jorge Amado) da vida e ler compulsivamente do início ao fim. Difícil é achar um livro desse naipe, ou seja, do naipe do meu interesse pessoal na história crescer tanto ao longo do livro que eu simplesmente não consiga abandoná-lo.

E daí o pior de tudo é perceber que, como meu cunhado (que é provavelmente o segundo cara gênio que eu conheçi pessoalmente na minha vida) me disse um dia, eu na verdade gosto e muito de aprender, de deter o conhecimento e poder discutir os assuntos. Mas aí eu fico pensnado que talvez minha curiosidade em aprender não seja assim tão imensa. Enfim, dá pra ficar nesse círculo do inferno o tempo que eu quiser. Dá pra dar a desculpa que eu quiser. Dá pra fazer a afirmação mais tosca a meu respeito que eu quiser, como dizer que algumas vezes eu tenho preguiça de pelo menos tentar adquirir o hábito de estudar e ler outros temas com mais assiduidade. Também dá pra dizer que eu sou filho da era da informação, ou que eu não sei definir prioridades na hora de me restringir a ler o que eu preciso, que já é muito.

Dá pra dizer tudo isso. O que não dá é pra entender o porquê. E escrever esse post me deixou na mesma, que é a habitual, incômoda e insegura auto-sabotagem que meu inconsciente insiste em tentar me fazer acreditar que é o melhor para mim.

Postergar o estudo, ao menos para quem é bipolar, é muito parecido com outras limitações sentidas nos períodos críticos da doença. Mas também é algo comum entre as pessoas que ainda se acham normais, talvez fruto da deseducação parental, escolar e religiosa, que impõe rituais de disciplinas muitas vezes sem nenhum sentido, ou não, sei lá. Se eu soubesse não estava aqui me auto-sabotando outra vez. Ou estaria?

Ah, que porre que é assunto não aprendido, indefinido e não respondido.

Fui.

3.11.08

Aos comentantes

Quem comenta quer resposta, pelo menos aqui, é o que dá pra perceber.

Não dou resposta porque não sou psiquiatra, apesar da quantidade massiva de imbecis em matéria de doença bipolar que tem nessa profissão.

Como não tem nada a ver com direito, eu posso dar somente minha "opinião virtual", conceito que vi hoje num site que diz que advogados estão proibidos de dar "opinião virtual" em matéria jurídica. Aliás, a quantidade de mecanismos e evasivas legais para impedir os advogados, principalmente os iniciantes, de manifestarem sua opinião é um absurdo que só interessa aos advogados de status elevado. Eu estou de saco tão cheio de gente pretensiosa metida a poderosa que acha que tem colhões de aço.... ah, se vocês soubessem... gente assim costuma virar meu alvo prioritário. Meu sangue só esquenta se eu fico do lado das minorias.

Então você, que é um babaca poderoso, quando achar que eu me excedi em minhas opiniões, porque elas tiram sua fraudulenta capacidade de se expressar por outros meios que não seja aquele estagiário super inteligente que você tem, pense duas vezes antes de vir folgar aqui.

Não me escondo atrás de carteirinha de oab, não me acho "otoridade" nem peço pro guarda não me multar por excesso de velocidade porque eu sou "devogado". E apesar do bom humor, eu honro sim a classe a que pertenço, sabe como? Não roubando os outros! E se eu não me identifico direito aqui é justamente para que eu possa continuar escrevendo O QUE EU QUISER, SEM QUE ISSO IMPLIQUE EM CAPTAÇÃO DE CLIENTELA, coisa que os poderosos, com seu aparato midiático e seus outros amigos poderosos de pau pequeno e carros luxuosos como eles fazem com os pés nas costas.

E também não engulo essa de influenciar as pessoas com um discurso negativo, ou como quiserem conceituar. Minha página é subversiva? Subversivo de cú é rola! A ditadura acabou, caso algum filho da puta adepto da ditadura entre aqui e não saiba. Liberdade de opinião é coisa de democracia, você se acostuma.

Esse tipo de idiotice é como aquelas propagnadas imbecis dando a entender que possuir um filme pirata é roubar, quando a conduta criminal do roubo é totalmente diferente e envolve violência e ameaça. E acusar alguém de um crime não cometido também é crime, ó governo idiotizante. Esse tipo de propaganda mostra a posição do governo sobre o brasileiro médio: o governo nos acha burros, do tipo que engole tudo o que vê a frente. Isso é subestimar e idiotizar o brasileiro, mais do que o péssimo sistema educacional já faz. Além disso, eu ao menos tenho a humildade de rever minhas opiniões, coisa que os ignorantes metidos a sabidos nunca fazem.

Hoje não estou muito bem, então eu saio do assunto muito. Ao leitor do blog, peço desculpas. À polícia do pensamento, peço um ringue e dois pares de luvas: hoje é aquele dia! Hoje eu tô com a macaca. Ao cara de dois metros que me intimidou, eu digo: se aquele domingo na chuireascaria fosse num dia como hoje tem sido pra mim, cê tava fudidaço, mermão.

Porra, tô quase saindo do próprio corpo. Maldita doença. Não tá dando nem pra escrever.

Voltando então a questão da opinião virtual: Ela não inclui tratamentos com medicação ou diagnóstico. Minha opinião é baseada exclusivamente nos meus sentimentos e sintomas da doença, devendo ser levado em consideração, é claro, que eu já me trato há cinco anos e nesse período eu já burlei o tratamento, já tomei um monte de porcarias que os médicos incompetentes e desumanos me receitaram e por conta disso, como já dito anteriormente, já fiquei, por um bom tempo, gordo, broxa e burro.

Já discordar da minha opinião seria ótimo e é uma pena que quase ninguém faça isso por aqui. Assim o que eu escrevo não melhora nunca.

Enfim, sobre os comentários que eu ocasionalmente recebo, que mais parecem perguntas e desabafos, e considerando que eu continuo ignorante em matéria de internet, vamos combinar o seguinte: eu posto um comentário de resposta, opinião virtual ou o que quer que seja - no mesmo lugar onde você fez o seu comentário, em resposta, pode ser?

Desculpem de novo, pela falta de harmonia no post. Tá foda hoje, fazia tempo que eu não ficava assim. Foi uma situação que me deixou assim. É melhor vazar do escritório e ir pro boxe, seguindo um conselho de um velho amigo.

Blog de doença é bom por isso: fica registrado e a gente tem meio que um diário de bordo. Eu leio os textos passados e vejo altos e baixos. E a vida é isso.

Fui.






20.10.08

Olhar matador


Quando um lança uma crítica a nosso respeito, ele provavelmente está errado. Quando vários lançam a mesma crítica, ainda podemos pensar que é complô. Mas quando todo mundo tem a mesma opinião, aí só se o mundo estiver errado, não que isso não seja possível, mas.... a quem eu quero enganar?

Eu olho feio pras pessoas e nem me dou conta que estou fazendo isso. Pra mim isso é um reflexo claro do pouco auto-conhecimento que eu tenho, tanto que nem minhas próprias expressões faciais eu sinto direito. Maníaco sente? Sente demais, esse é o problema. O cúmulo é estar se sentindo feliz por dentro e sem perceber estar lá, lançando aquele olhar matador que só eu sei fazer. Se meu poder de aproximar as pessoas de mim fosse o mesmo que eu tenho de afastá-las, eu teria uma legião de fãs.

Maldito olhar matador. É sério, isso tem se mostrado cada vez mais um problema pra mim. Não que esse problema esteja aumentando, ao contrário, mas agora eu tenho me dado mais conta disso do que nunca.

Quando eu saio pra correr, uma cão-cocker, (uma raça de cães bem “lesa”) sai pra correr comigo, sem coleira. Ela me acompanha todo o trajeto, mas é a única coisa esperta que ela faz. Se mandar sentar, rolar ou outra coisa ela não faz não. E recentemente eu descobri porque esta tarefa em particular ela desempenha tão bem: é que eu a protejo dos cães que a ameaçam pela rua, por isso ela está sempre colada em mim e eu posso correr tranqüilo.

Esses dias atrás estávamos correndo, tinha um portão meio aberto, e um chihuahua começa a latir histericamente para ela. Eu passo correndo, vejo aquele projeto de cão latindo e seus donos, numa manhã ensolarada de domingo, tomando chimarrão na varanda da casa. Não tive dúvidas: rosnei pro cachorro, que deu um gritinho de susto e depois desatou a latir como um epilético em crise e, como eu estava correndo, meu rosnado passou pelos donos também. Entenda, que eu já estava correndo há quase 10 km e tava meio abobado de cansaço, aquela sensação de ar pesado que começa a dar quando a fadiga já está chegando no auge. Eu imagino a cena, do ponto de vista deles: só pode ser um maluco em fuga do hospício. Bem, eles quase acertaram.

A gente identifica algum problema que está acontecendo conosco, queremos mudar a situação, mas o inconsciente grande e burro não deixa: ele fica jogando fora toda informação positiva que recebemos e nos mantém no mesmo limbo, sob o auspício de uma falsa proteção. Mas eu dobro meu inconsciente, só preciso de mais um tempo. Não é necessário tentar se controlar o tempo todo, bipolar ou não, mas é necessário na medida em que o controle nos propicie bem-estar. Eu enxergo mal de longe, e já tendo a franzir a testa pra olhar de longe pros outros. Daí a beleza também não ajuda muito a dizer que eu to gostando do que to vendo. Junte a isso o meu tamanho e o meu tom de voz, e me diz se dá pra ser feliz assim.

Claro que eu não queria ser baixinho, ou franzino. Pra beleza já não ligo mais, quando eu era adolescente tinha tanta acne e isso me desgastou tanto que acabou perdendo o valor e eu digo “ainda bem”. Mas ser julgado pelo olhar matador não é justo comigo, e é o que acontece.

Não cobre ternura de um ogro, ó mundo cruel.

Fui.

3.10.08

Aos candidatos corruptos




Prezado candidato corrupto:

Na qualidade de cidadão Brasileiro eu venho lhe dizer que o senhor não estará fazendo nenhum favor aos cidadãos do país se cumprir decentemente seu papel. Então, depois de vencer a eleição, tente, se possível, não pedir propina toda vez que for fazer o seu trabalho. É só um trabalho, não uma máquina de dinheiro para o senhor brincar como se fosse seu cofrinho.

E ao senhor que além de corrupto também é desprovido de uma boa formação acadêmica e profissional, quando resolver fazer seu trabalho, procure ter perto de si pessoas competentes, ao invés de seus parentes que também não estudaram nem trabalharam muito, assim como Vossa Excremência.

Sempre lembrando que caso o senhor - que é político e é corrupto, ou que vai se tornar um e já sabe das próprias intenções – ficar com raivinha do que eu escrevi aqui, tem sempre a opção de lutar comigo num ringue, onde o senhor vai apanhar tanto que vai achar que está cercado. E caso o senhor cague e ande, e for político aqui pelo sul do país, pode ser que a gente se veja e que o senhor seja processado por um simples cidadão, que ainda não se convenceu da própria inutilidade nesse campo e tem verdadeira paixão por acabar com a sua raça, usando, é claro, todos os meios legais. A não ser que o senhor prefira o ringue mesmo. Portanto, antes de roubar o dinheiro que as pessoas suaram pra colocar nas suas mãos, pense bem: pode ter alguém pior que eu bem perto de você!

Passar mal, oh excelentíssimo filho da puta.

Fui.

2.10.08

Gerson não merece




No mundo animal, onde o mais esperto sobrevive melhor que o mais forte, todo mundo já ouviu a expressão: “é a lei de Gerson!”, atribuída às pessoas que adoram levar vantagem em tudo, para se sentirem por cima da cocada preta e compensarem suas frustrações e as enrabadas que a vida dá, ou porque não valem nada mesmo, ou os dois casos, que muitas vezes se confundem.

Mas a grande ironia da Lei de Gerson está no seu surgimento: O tal do Gerson foi meio-campista da seleção brasileira que ganhou a copa de 70. Jogador fenomenal, com um fôlego de dar inveja a muito atleta, terminada a copa do mundo onde o Brasil levou legítima vantagem sobre todos os outros, fez uma propaganda de cigarros, no tempo em que isso ainda existia. No comercial, ele acende um ciga e diz, com aquele sotaque de carioca esperto: "Gosto de levar vantagem em tudo, certo?". Após perguntar pro consumidor do outro lado da tela “que vantagem levava o fumante de outras marcas se o tal ciga dava tudo o que ele queria, como o prazer de fumar sem irritar a garganta”, ele ainda diz: “leve vantagem você também”.

Parece que hoje ele é cronista esportivo no Rio de Janeiro e já se desculpou pela lei criada. Ora, senhor Gerson: o senhor não tinha de se desculpar com ninguém. A malandragem e o jeitinho brasileiro já existiam desde a colonização. Na verdade, o povo é que tem de se desculpar com o senhor, por ter atribuído a seu nome uma lei já consolidada em nosso desordenamento de costumes anti-jurídicos.

Pessoalmente, o que mais me chamou a atenção no comercial foi a palavra “certo”, estrategicamente (ou não, vai saber, o cara era jogador de futebol e fazia propaganda de cigarro) tornando mais afirmativa do que nunca a frase que é o sentido da vida de tanta gente no mundo inteiro: “gosto de levar vantagem em tudo, certo?”.

Já que pra tanta gente o Gerson virou lei, eu me pergunto se os departamentos jurídicos da indústria de cigarros nunca intentou usar a figura do Gerson pra justificar que o cigarro não faz tão mal pros pulmões quanto os autores dos processos milionários que essas companhias tomam constantemente gostariam de provar. Quem se espreme, marginalizado, nos fumódromos de prédios que de tão altos tornam injustificáveis as saídas no térreo pra fumar, pode ter se sentido vingado pela alegada falta de fôlego que a trupe politicamente correta imputa aos fumantes ativos. Afinal, é tanta gente levando a culpa pelo cigarro que dá até medo: se o marido ou a esposa fumam a valer, as chances do parceiro empenhado em largar o vício no cigarro diminuem muito, eles dizem. Se alguém fuma perto dum eco-chato, o eco-chato morre mais rápido, eles dizem, advertindo com toda aquela violência ecologicamente justificada que o fumante não tem o direito de poluir o ar que o carro flex do eco-mala pode poluir à vontade. Em outras palavras, eco-chatos, por estarem favorecidos pela atual conjuntura distorcida, levam vantagem em tudo, em prejuízo dos cada vez mais discriminados fumantes, vítimas da indústria que engambelou o coitado do Gerson e o tornou uma lei viva e atuante até nossos estranhos dias.

Maldita Lei de Gerson. Há dois meses eu comecei a dar aulas de boxe numa academia da cidade onde moro. Eu treino a 22 km daqui, em outra cidade, e quis trazer o boxe pra cá pra poder ter um lugar mais perto pra treinar, acima de tudo. Meu plano era, com tudo estruturado, e uma turma razoável formada, convencer meu treinador a vir dar aula aqui. Só que o dono da academia é um adepto da lei em comento. Ele não forneceu nenhum equipamento para as aulas e também não me pagou por elas. Tudo bem, eu disse: use a minha metade do valor da mensalidade dos alunos pra comprar equipamentos. Não dá pra treinar sem ao menos um par de luvas de luta (as luvas bate-saco são por conta do aluno), algumas cordas, uns dois sacos decentes de pancada e um par de luvas de foco (pára-mão). E mesmo abrindo mão da grana miada das aulas de boxe (só duas horas-aula por semana) o cara embolsou tudo e não comprou nada. E é tudo barato pra cacete.

Fui forçado a desistir de dar aula. Não dá pra enganar aluno dizendo que aquilo é um treino de boxe sem que se tenha nenhum equipamento que propicie um treino de boxe. Segundo a maioria adepta da Lei de Gerson, o cara está certo: ele levou vantagem e eu fui otário. Só que quando os meus alunos (já eram 12 até então) souberam que eu tinha aberto mão de receber pro babaca poder comprar equipamentos, eles não acharam o cara tão esperto assim. Alguns deles já eram alunos da academia, que tem musculação e vários eco-chatos treinando, que olhavam com aquele ar pobre de reprovação que reflete a inveja que muita gente sente de lutadores, não sei exatamente porquê.

E adivinhe só? Agora eles viajam comigo pra treinar boxe na outra cidade também, e abandonaram a academia do jurisdicionado do Gerson, que por sinal é um eco-chato que anda com uma bela caminhonete que deve ser movida a Diesel.

E o Ministério da Saúde adverte: cigarro é droga e causa dependência, mas como o governo é adepto da lei de Gerson ele permite a venda assim mesmo, além de fazer os fumantes engolirem, com a fumaça, aquelas fotos macabras de caras sem pé, fetos mortos num vidro de maionese e uma cinza, na ponta de um cigarro, pendurada para baixo pela lei da gravidade, que para os eco-chatos daquela academia deve ser mais iminente que a lei do Gerson.

Ah, achei um link da propaganda de ciga do Gerson:

http://www.interney.net/blogs/inagaki/2008/04/08/lei_de_gerson/

E fui.

16.9.08

Feliz 2006 - a continuação*


*http://tonhodalua.blogspot.com/2006/02/feliz-2006.html



É claro que bipolares não querem lidar com seus problemas pessoais. É muito diferente lidar com problemas na fase maníaca, na fase deprimida, na fase hipomaníaca e, se tiver alguma fase normal, nela também.

Então eu não ia mais falar nisso aqui, como fiz naquele post “feliz 2006”, mas final de semana passado fui intimidado por um cara de dois metros e quatro centímetros de altura, com uns 140 kg, que foi demitido lá no início de 2006 por conta da sujeira toda que foi descoberta envolvendo uma empresa laranja e o desvio de um milhão de reais, sabe-se lá pra onde, até hoje.

E eu ajudei no processo. Primeiro fiz um pedido de instauração de um inquérito civil, que dois anos e lá vai pedrada depois descubro que desapareceu misteriosamente. Mas eu fiz, a princípio representando a classe médica, pra na hora de entregar o pedido no Ministério Público o presidente da associação dos médicos não assinar procuração e eu ter de encaminhar de próprio punho as irregularidades que até aquele momento eu tinha prova documental pra entregar. Algumas eu até relatei ali, naquele outro post (feliz 2006).

Depois vieram me procurar as pessoas que trabalharam para a empresa laranja e que não receberam seus créditos trabalhistas. Aí não tiveram escapatória. Como se tratava de uma contratação por uma empresa interposta, a dispensa de licitação através da decretação de estado de emergência na saúde para liberar um milhão de reais “sem maiores problemas” e a contratação irregular dos funcionários que iriam atuar na emergência do hospital pela empresa laranja interessava investigar. A Justiça do Trabalho usou seu poder fiscalizatório e mandou oficiar, no final dos processos, ao Tribunal de Contas do Estado, e até ao Ministério Público Estadual, determinando o encaminhamento de cópias dos processos trabalhistas para que se apurassem as irregularidades. Não dá pra generalizar, pra mal ou pra bem, eu sei, mas a Justiça do Trabalho, depois disso tudo, pra mim pelo menos, não merece fazer parte dos índices negativos das pesquisas sobre a confiança do cidadão na justiça. Aliás, é por causa desse caso que eu resolvi, finalmente, escolher a área do direito que quero me aprofundar e me dedicar, e fui fazer pós em direito do trabalho.

Então. Daí o prefeito daqui vai tentar se reeleger. E, como eu disse, nada aconteceu com ele até agora em relação a isso. Os partidos de oposição ao prefeito colaram parte das sentenças dadas pela Justiça do Trabalho nos textos de seus jornais de propaganda eleitoral, e o caos veio à tona, com aquele Shrek imenso querendo meter a mão em mim. Ah, sim, o decoro e a polidez: antes de contar, ressalto que agora ele é um nobre candidato a vereador. Então. Domingo passado, eu fui a uma churrascaria (eu sei, parece que eu tenho alguma coisa com churrascarias), mas o palhaço, quando eu fui me servir de um café, e fui obrigado a ficar de frente para o vagabundo, ficou me encarando, com cara de “vou te matar” As meninas brincavam pelo restaurante, a Adriana estava sentada e bem preocupada de ver que o cara tinha ido ali. Pois o cara não parou aí. Ele atravessou o restaurante, como numa cena de filme do Sérgio Leone, cruzou comigo enquanto eu voltava para minha mesa com o café. Foi até o balcão, a parte mais alta do restaurante, e com seus 2,04m cruzou os braços e ficou de frente para onde eu estava sentado, me encarando de um jeito que muita gente, eu imagino, teria se borrado, em frente a minha mulher e minhas duas filhas.

E esse aí é o reflexo do manto da impunidade acontecendo numa situação real. Como nenhum deles foi processado pelo desvio de dinheiro, agora o mais gigantesco deles quer me esfolar vivo e sente que pode. Maldito buller de dois metros. Eu poderia ir até o ministério público, à polícia, mas de que adianta? O cara é político, tem vários amigos. A promotora que acabou de vir pra cá, há coisa de quatro meses, coitada, nem era da curadoria dela, mas ela ficou tão preocupada com a questão que resolveu mandar achar o pedido que eu tinha feito lá em 2006, e que, dois anos depois, eu resolvi ir atrás pra ver no que tinha dado. Sim, eu tinha deixado pra lá durante dois anos, porque enfrentar isso vai além do meu poder de controlar uma crise que isso com certeza deflagra.

Ah, sim, tem esse papo de blogueiro vaidoso. Pode acreditar quando eu digo que vaidade foi pro saco com a quase nenhuma publicidade que isso trouxe, porque eu não quis dar entrevista, não quis envolver imprensa marrom local pró-prefeitura (até então era) no problema, enfim, é claro que uma situação em que pode gerar alguma boa fama traz vaidade. Mas isso não é como ser artista de cinema, a não ser que ele vá à convenção anual da ala dissidente do cinema da qual ele faz parte, ou na convenção anual dos serial killers matadores de artistas de cinema. Você não vê uma platéia feliz. Você vê uma turba enfurecida, uns porque sabem que se o cara não se reeleger vão perder seus cabidinhos de emprego, mas a maioria é porque engole mesmo a propaganda adversa, que, é claro, vem recheada de fundos para a publicidade, obtidos com o desvio do dinheiro que iria servir para tratar doentes. Dá vergonha ser honesto às vezes.

Mas o manto da impunidade, era disso que eu ia falar. Como ninguém fez nada, e todo mundo ficou com medo, ou sofreu pressão, ou levou dinheiro, não importa, agora, quem sobrou com o problema nas mãos fui eu e os partidos que resolveram espalhar a notícia. Ah, sim, eu não tenho filiação partidária também, então, ninguém dos partidos está preocupado em me defender, apesar de usarem o que eu fiz em benefício da campanha, o que, pra dizer a verdade, se ao menos servir pra levar à tona da população local tudo o que aconteceu já valeu. Segurança de minha família à parte, as pessoas tinham o direito de saber. Mas olha a merda que rola se eu contar. Quero dizer, eu não tenho nada além dos punhos pra me defender de nem sei quem pode querer fazer que coisa. Mas tudo tem um lado positivo: meu sonho era subir no ringue com um político corrupto, e esse tem dois metros e pesa 140 kg, mais ou menos. Porra, certeza que dá medo. Mas esse é o barato de ser lutador: a superação através da confiança gerada em treinos cavalares. Eu não me sinto intimidado por vagabundo de dois metros, tampouco chamo pra briga. Mas se vier não venha depois dizer que punho de pugilista é arma branca, meu filho. E eu até seria camarada em avisar isso antes, se eu visse que você ia querer me bater mesmo, em frente à minha família.

Sei lá, tô tentando lidar com isso, pensar no que fazer. Não sou o único na cidade que esse buller intimida, é claro, afinal, as provas foram fornecidas pelos próprios médicos que cansaram de ser roubados. Desviam o dinheiro da saúde e depois querem que os médicos trabalhem de graça. A corrupção é uma rede do crime e do medo. Os caras acham que tem culhão de entrar, são viciados em poder, às vezes não é nem pelo dinheiro. E cidadãos que deveriam poder contar com políticos para ter uma vida melhor acabam sendo vítimas de alguns deles, dentro mesmo de sua cidade.

É como eu disse, eu amo essa cidade. Eu fiz tantos amigos aqui e eu e minha esposa somos tão bem tratados pelas pessoas em geral que eu resolvi não enterrar meu talento pra destruição e usá-lo pra ferrar os safados certos. Eu queria provar, no começo disso tudo, em 2005, que todo e qualquer cidadão tem mecanismos pra enfrentar a corrupção, que todo mundo pode reagir. Foi uma merda descobrir que eu estava errado, que eu fui ingênuo, pra muita gente inclusive. E eu joguei limpo, eu avisei o prefeito que isso ia acontecer, já em dezembro de 2005. Ele é que não ligou a mínima. Enfim, eu tentei fazer tudo certo. Fracassei? Não sei não. Eu acho que mudei as coisas, um mínimo que seja. Porque os corruptos se amedrontaram. Se não tivessem se amedrontado, não tentavam intimidar de volta.

Quanto ao gigante de dois metros... bom, se ele vier me bater, além de tomar uma surra descomunal, porque eu também luto no peso pesado – e eu luto, não sou só uma massa bombada - ninguém vai poder dizer que ele, vinte centímetros maior que eu, foi vítima de uma covardia.

Fui.



Ah, sobre o Lula, que falei no outro post: mudei de idéia radicalmente. digam os defensores da elite branca de plantão o que quiserem. O cara está de parabéns. Corrupção sempre existiu, mas só no seu governo a população brasileira, pela primeira vez, ainda que num vislumbre, conseguiu enxergar quanta merda existe para ser jogada no ventilador. E eu não vou generalizar e dizer que brasileiro esquece. Eu sou brasileiro e não esqueço. É isso aí.


29.8.08

Todo blogueiro é vaidoso.


Li uma reportagem na Revista Época de 28 de julho, intitulada “O fim da egomania”, sobre o filme Nome Próprio, que trata do declínio dos blogs egocêntricos como muita gente deve considerar esse aqui.

O doente bipolar atravessa diversas fases de compreensão e aceitação da doença. Dentro desse processo, falar da própria doença é uma das coisas mais difíceis que existe, exatamente porque quem tem transtorno de humor é discriminado de alguma forma, sempre. Estou pensando até em fazer minha monografia da pós (em Direito do Trabalho) sobre atitudes discriminatórias na fase pré-contratual do contrato de trabalho para portadores de doença bipolar. Se nossa legislação ainda engatinha em relação aos portadores de necessidades especiais (antigamente chamados de portadores de deficiência, mas agora é politicamente incorreto), em relação aos “deficientes mentais” ela ainda está saindo do ovo. A pergunta que eu quero tentar responder se fizer essa monografia (seria mais uma dissertação, e não é o momento disso ainda, daí eu não saber como inserir o tema dentro da proposta metodológica de uma monografia, sem contar que eu acho que não conseguiria expor todo o tema numa banca sem precisar denunciar aos mestres e doutores que eu tenho essa doença), enfim, a pergunta seria algo como “ se configura atitude discriminatória negar a contratação de um candidato a uma vaga de emprego quando ele sofre de doença bipolar”.

De qualquer forma, falar da própria doença, muitas vezes, se não é constrangimento, é um porre. Eu já passei da fase do constrangimento? Se tivesse passado, colocava meu nome aqui. Mas vão pensar o que? Algo como “olha ali aquele advogado bipolar / seu advogado é um louco / como alguém tão desequilibrado pode trabalhar numa profissão que exige nervos de aço? / ele também é negro, ou gay, ou aidético, ou pai-de-santo? Alucina? Fala sozinho? Perde prazo? / e por aí vai.

Vaidade todo mundo tem, inclusive a dona que escreveu o artigo. Posso dizer que minha vaidade é estar em forma suficiente para não ter de dizer Não a quem quer que queira fazer luvas comigo. Minha vaidade também passa por uma obsessão em fazer a coisa certa, sem, no entanto, me tornar um chato egocêntrico e, principalmente, sem deixar de lado meus ideais do que eu considero certo e errado e sem me prender a conceitos ou regras nas quais eu não acredito. Não ligo muito pra grana, nunca liguei muito pra grana, mas respeito os capitalistas, desde que eles não tirem o que não é deles, o que é meio incongruente, pra dizer bem a verdade, mas a missão é essa mesma: achar um ponto de equilíbrio e aprender a aceitar para ser aceito, porque todo mundo vive atrás de aprovação, de um jeito ou de outro.

Agora, dizer pra mim, que sempre antes de escrever, fico brigando comigo mesmo porque não quero contar certas coisas e me pego tentando achar a linha entre fazer a coisa certa (que pra mim é passar para os bipolares minha visão da doença e ajudar a relativizar um pouco a merdalhada toda que ela significa em nossas vidas) e não precisar me expor, tendo ainda que considerar a meio impensada obrigação de não ficar anônimo em certas tentativas de uso do que o estado policialesco intenta chamar de “liberdade de expressão”, liberdade essa que te ferra, por exemplo, numa entrevista de emprego, ah, aí eu sou obrigado a dizer, sobre a matéria ali escrita que indiretamente criticou o meu blog, que vaidade de cu, com ou sem acento ortográfico porque o Bill Gates é politicamente correto nos monopólios capitalistas, mas enfim, vaidade de cu, minha tia, é rola.

Abraços.

18.8.08

Nem sei que título intitular isso.





Levantei cedo no domingo, umas 07:00, resultado de nunca conseguir ir dormir tarde no sábado, porque já venho moído da sexta à noite e sábado cedinho de pós com poucas horas intervalares de sono e uma viagem de ida e volta que dá pra lá de 200 km.

Enfim, depois de uns meses do acidente e da motoca estar zerada resolvi fazer as pazes com ela e dar “um galeto”, como dizem aqui e eu também digo agora. Por aqui tem estradas rurais sinistras


e lindíssimas ao mesmo tempo, no meio do nada, de muita floresta e muita água corrente,

além de caminhos de trilhos antigos de linha férrea e algumas ocasionais entradas de sítios, com casas de arquitetura européia antigas,


de madeira e de alvenaria, e dentre elas, pra completar a paisagem sinistra, com avisos do tipo: “Propriedade particular – não entre. Respeite ou não será respeitado” - e mais ocasionalmente ainda, algumas igrejinhas isoladas com cemitérios no fundo ou ao lado delas.

Parei a moto e num acesso de curiosidade mórbida pensei: - Putz, será que eu desço?

Cacete. A portinha da capela se entreabriu sozinha, no exato momento em que eu pensei isso. –Tudo bem, é o vento, que eu não sou alucinado nem esquizofrênico.

Resolvi descer da moto e entrar, mas tive um problema: a moto não parava em pé, porque o pezinho afundava na terra, inexplicavelmente seca. – Tudo bem – eu pensei – agora é que eu não desisto de entrar ali mesmo. Procurei um pedaço de pau, calcei o pezinho da moto, desci. Tirei os tênis na porta. Entrei, ajoelhei. Vi imagens de santos estranhas, que por mais que eu olhasse, pareciam não querer se fixar em minha mente, sei lá, uma sensação estranha.

Eu não tinha certeza se acreditava ou não em fantasmas, espíritos, eguns ou coisa que o valha. Até o que aconteceu depois.

Ainda dentro da capela, não ouvindo nada, nem pássaros, nem vento nas árvores, nada, som algum, uma coisa na verdade estranhíssima, tive a sensação de que definitivamente existia alguma coisa ali.


Bom, eu não estava sentindo medo, então levantei, saí da capela no meio do nada, calcei os tênis e fui até a moto. E quando eu me sentei na moto, percebi que o espelho do lado direito estava quase que totalmente desrosqueado e virado apontando para o céu, dum jeito retorcido incrível, que eu levei um tempo pra arrumar, e até agora não consegui, então tenho que levar na oficina porque do lado direito estou sem visão traseira.

Dizer o quê? Eu sou bipolar, não sou mentiroso e não sofro alucinações. Poderia ser alguém que passou ali e brincou? A moto estava a uns seis metros de onde eu estava, a porta da capela estava aberta e eu acho improvável não ter ouvido. Quando anoiteceu, ontem ainda, a mãe de santo da Adriana ligou pra ela, eu atendi e aproveitei e contei. Ela estranhou, porque ela nunca ouviu nada assim de mim antes, e ela acreditava que eu era um cético nessas coisas, eu acho.

- Olha, Tuninhu. Isso aí é Exu-Tranca-Rua, meu filho, que abriu a porta procê. Você fez algum pedido ali dentro? – Na verdade, eu havia feito sim.

- Eles entram em lugares assim também, e veja bem, não é por desrespeito, tem padre que já reza missa ecumênica com candomblé. – Eu achando graça dela se justificar pra mim que nem me considero mais católico.

Sei lá, sei lá. Vou voltar lá semana que vem, fotografar o local e postar aqui. Mas pessoalmente, pra mim existe Deus, isso é incontestável. Agora, o que mais além da gente Ele colocou por aqui e pelo resto do universo, aí, como dizem aqui, “você já me perguntou demais”.

Fui.

Outro lado da moeda, SA-IN-DÔ!

O outro lado da moeda: enquanto o babaca almoçava com dor de consciência, eu, que já não tava lá muito bem, meio hipomaníaco passando do ponto, engoli o churrasco – bem servido pelos garçons, que parecem ter gostado da minha atitude - junto com aquele tremor interior de quem parece que não cabe em si mesmo, típico das sensações maníacas que sempre estão lá pra nos lembrar que certas coisas e melhor simplesmente deixar pra lá. Me desconcentrei da beleza das minhas filhas e da minha patroa felizes por eu ter ido lá enfrentar a fila por elas e me concentrei em conter a bomba maníaca que eu senti subir depois de ter chamado o babaca de babaca.

E isso me fez pensar que talvez o babaca tenha sido eu. Bom, feliz dia dos pais pra mim. E atrasado ainda.

Fui.

11.8.08

E daí, ô babaca?


Daí eu vou ontem com a patroa e as crias numa churrascaria meia-boca que tem aqui perto. Dia dos pais, o lugar tão cheio que tinha senha pra entrar. A fila do buffet, gigantesca. Acomodei as crias e a mulher, entrei na fila e peguei dois pratos, um pra salada, outro para pratos quentes, e depois eu dividiria tudo na mesa. Após 40 minutos de espera, eu tinha dado a volta por toda a churrascaria, passado em frente a seção de saladas e pratos quentes, e me vejo finalmente em frente a uma travessa já meio vazia com batatas fritas, que era o último prato e que minhas pequenas adoram, e um idiota furando logo a minha frente na fila e começando a se servir das batatitas.

- Senhor, é minha vez agora - eu disse, enquanto ele me ouvia, fazia cara de tonto e continuava enchendo o prato e esvaziando a travessa.


- Dããã.... será que aqui não é o começo da fila? – ele responde, tentando dar uma de esperto.


- Não. E eu estou esperando há 40 minutos pra me servir e tem uma centena de pessoas na sua frente. Ele continuou se servindo, até esvaziar a bandeja. E quando esvaziou, ainda me disse, na maior calma e com um sorriso bem filho da puta:


- É, desculpe, acho que aqui era o fim da fila. Simplesmente.....


- Simplesmente, você foi um babaca. E minhas filhas vão ficar sem batatas fritas.


- Isso não te dá o direito de falar assim com as pessoas (é mole ainda ouvir essa?)

- Ah, não? Bom, seu babaca, você tem duas opções: pode me processar ou me bater. Mas tem umas cem pessoas que você contrariou atrás de mim. E ademais, você é um anão. Minha mulher diz que caras que tentam se auto-afirmar fazendo o que você fez geralmente tem o pau pequeno. Além disso, eu penso que quem age assim é geralmente covarde pra todo o resto. Babaca, anão, de pau pequeno e covarde. Eu só posso lamentar tanta desgraça. Feliz dia dos pais, seu babaca.

Esse texto eu dedico a todos os metidos a espertos e levadores de vantagem que ainda vão cruzar o meu caminho. Eu estou ansioso por encontrar com cada um de vocês, seus babacas.

Fui.

16.7.08

“Se dirigir não beba. E se beber, não escreva”.


Tente imaginar por um instante que o Estado tivesse todo o aparato suficiente a fazer cumprir todas as leis atualmente em vigor. Imagine, na esfera trabalhista, por exemplo, que as delegacias do trabalho tivessem condições de fiscalizar, autuar e multar todos os empregadores que mantivessem empregados na informalidade, fraudando seus direitos trabalhistas, não recolhendo os encargos corretamente. Com encargos em torno de 102 a 103% do valor do salário para a grande classe de trabalhadores brasileiros, inúmeras empresas iriam à bancarrota e o desemprego aumentaria.

Imagine que por conta desse aparato perfeito do estado, na esfera tributária não seria diferente, e uma enorme quantidade de gente cairia na malha fina, perderia seus móveis, imóveis e semoventes em execuções fiscais, enfim, a máquina estatal estaria mais que satisfeita com os valores corretamente auferidos, e poderia até fomentar programas de combate à miséria dos que perderam tudo pra ela.

Imagine, na esfera penal, que numa casa de família onde um filho é viciado, sei lá, em maconha, às 06:00 da manhã, com autorização judicial, enfim, cumprindo todas as normas com seu aparato perfeito o Estado invadisse a casa, a revirasse de pernas para o ar, achasse um baseado e levasse o criminoso preso. E que com os traficantes, o aparato da máquina estatal fosse tão poderoso que invadisse todas as favelas e deflagrasse uma imensa guerra onde os barracos ficassem apinhados de tiros de fuzil, e o que quer que estivesse dentro também. Mas sim, o crime acabaria, porque o aparato é imenso, nesse sonho utópico. E por aí vai.

Eu não sei, acho que sou muito burro pra pensar algo diferente de um Estado que, se cumprisse todas as leis, se tornaria totalitário e tornaria a vida das pessoas um verdadeiro inferno. Daí eu vejo que leis como, por exemplo, a nova lei de trânsito que viola o direito do cidadão de não se auto-incriminar, direito esse assegurado por um pacto internacional da qual nosso país é signatário, são leis que exemplificam bem meu sonho utópico: um sonho de um Estado que comece a repensar melhor suas próprias leis, pelo menos pra não dar a impressão que ao invés de existirem para servir aos legítimos interesses, vem nos tornando servos de sua legítima utopia.

Fui.

15.7.08

À POLÍCIA DO PENSAMENTO

Quero me fazer entender bem numa coisa: eu amo o sul do Brasil, e hoje, com bons amigos por perto e pessoas daqui que aprendi a admirar muito, eu me sinto mais em casa do que em qualquer outro lugar que já estive, e por isso mesmo eu lamento pelos poucos dissabores que tive, e que eu senti que acabaram gerando em mim um preconceito que felizmente eu aprendi a identificar e combater.

Eu considero o sul o lugar mais próspero do país, se você levar em conta todos os fatores, inclusive a natureza exuberante, apesar do desmatamento alarmante que vem ocorrendo por essas bandas.

Outra coisa: o que eu quis deixar claro e não consegui é o fato do preconceito existir e não ser notado pelo próprio preconceituoso. O preconceito decorre muito das meta-mensagens que recebemos ao longo da vida, mas isso não é algo que possamos usar em nosso favor pra nos eximir de culpa.

Intolerância, como eu disse, é algo que se aprende. Uma reação natural de quem se sente discriminado é discriminar também. E sim, pessoas menos favorecidas (não falo de critérios de eugenia, mas de miséria) são naturalmente selecionadas e descartadas, seja quando uma decisão que poderia ser também aplicada a inúmeros casos de crimes de potencial bem menor do que o do banqueiro beneficia só ao banqueiro, seja porque o sujeito é “de fora”, seja porque o sujeito resolve expressar sua opinião contra os abusos que estão saltando aos olhos e isso incomoda muita gente.

O fato é que quando se consegue passar por cima disso e passa-se ao interesse por realmente conhecer quem, por qualquer razão que dê origem ao preconceito, não se daria uma chance, as idéias preconcebidas vão desaparecendo, porque as pessoas, com todas as suas manias, depressões, preconceitos e obscuridades, são sempre bem mais interessantes e humanas que aparentam. Fora alguns casos absurdos, é claro, como dos assassinos em série, dos pedófilos ou dos políticos corruptos que geram a miséria.

Temos que estar atentos ao próprio preconceito e lutar contra, senão não dá pra só reclamar e desejar um mundinho melhor.

Fui.

Cu cu cu cu cu. Essa do corretor ortográfico é inacreditável.

10.7.08

Aqui é assim que nós fazemos!


Quem mora onde vivo e passou qualquer dissabor ao comprar uma mercadoria, contratar um serviço ou se utilizar da administração pública local, de um modo geral já ouviu essa frase.

É que aqui a segregação se inicia com a pergunta: “você é de fora?” É...se você é de fora, meu amigo, você tem um problema. E se, como eu, você resolve dar uma de engraçadinho e responder essa pergunta com algo como: “não, eu sou do mesmo planeta que você”, pode acabar passando um longo tempo sem amigos.

Eles são assim, aqui é assim que eles fazem. Medo, sempre a porra do medo. Medo do novo, como recentemente uma mãe disse pra Adriana, comigo ao seu lado, numa dessas homenagens que as escolas fazem aos pais e que são chatas pra dedéu:

- Você viu só? As crianças não fizeram a coreografia todas por igual. Quanta incompetência dessas professoras!

Enquanto na minha cabeça, depois de ouvir essa, rodava o vídeo-clipe “Another brick in the wall”, a Adriana responde:

- É, mas ninguém entra pra história fazendo igual.

As mães, loiras perfeitas se vistas de longe, se viraram todas e se entreolharam. Sei lá. Acho que não entenderam.

Mania de padronização é o que eles têm. Herança de uma época em que um povo foi dominado pelo medo, seja dos próprios nazistas, seja dos ascendentes, familiares ou sociais, que impunham de maneira nada sutil sua paixão pelo nazismo.

Definitivamente a intolerância é algo que se aprende. E eu começo a perceber que estou aprendendo com eles. E esse é o outro lado da moeda. O lado que mostra que depois de tanta má-fama nazi, tão fácil quanto chutar os alemães passou a ser humanizar ditadores negros como aquele Mugabo, ou Mugabi, sei lá, do Zimbábue, que prende o candidato da oposição, mata milhares de políticos e filiados seus e ainda vira pra imprensa internacional e desce a boca no Mandela.

Mundo mais sem sentido.

“Mach die augen auf”, eles dizem aqui, protestando em cartazes neonazistas muito mal-feitos que alertam sobre o perigo da migração em “sua” imaculada região. Nesse meio, a maior diversidade que se pode imaginar: tem nazi da classe A, B, C, e todo o resto do alfabeto. “O preconceito aqui é velado e não afeta ninguém”, disse o prefeito daqui, que também é descendente de alemães, se justificando da maneira mais infeliz possível num fórum de igualdade racial que rolou uma vez. É...“aqui é assim que nós fazemos”.

Eles têm, sim, muitas vezes, um jeito esquisito, nada receptivo, bem sem assunto. Mas eles também se envergonham de um passado que nem lhes pertence direito, porque quem veio de lá pra cá veio antes do barraco nazi se armar. E aqui, por mais que eles insistam, não são alemães, mas meros descendentes. Dizem que aquele compositor Richard Wagner já havia escrito um ensaio anti-semita bem antes de se propagar essas idéias. Mas e daí? Em Esparta, mais de mil anos antes, já não se praticava a eugenia? E em Santa Catarina, há três anos atrás, o governador não defendeu a eugenia em artigo publicado? Parece mentira, mas num artigo escroto, publicado em 2005, o governador, que depois disso teve sua foto estampada na internet usando um uniforme da SS, defendeu que a utilização das descobertas sobre o genoma humano deveria servir para que as pessoas pudessem evitar o nascimento de filhos "feios, deformados, deficientes ou idiotas". Tá em dúvida se tamanha imbecilidade é possível? Entra no Google–Grande-Irmão, vai em pesquisa avançada, escreva em expressão: “Luiz Henrique da Silveira” e em “todas as palavras” escreva apenas eugenia. A eugenia é a seleção das pessoas que supostamente teriam as melhores características físicas e mentais e a eliminação das doentes ou fracas.

Sei, sei. E ele? Tá vivo ainda por quê?

Volto a insistir: intolerância se aprende. Quem vive aqui e é de fora também começa a aprender a odiar de volta. E eu não falo só por mim, mas pelo menos eu identifico isso e procuro corrigir lá dentro. E é muito, mas muito difícil, principalmente diante de frases como a do tema deste post. Por conta disso, minhas raízes negras ficaram mais que preservadas depois que eu me mudei pra cá. Minha avó era mulata, sua mãe era negra e sua avó era escrava. E meu avô, surpreendentemente neste caso: seu marido! - de quem eu ouvi uma vez que “negro quando não caga na entrada caga na saída”, era filho de italianos. Vai entender. Acho que as pessoas são racistas muitas vezes e nem estão se dando conta. Daí parece que vai se tornando inevitável pensar em alemães e visualizar na mente uma suástica, ou pensar em italianos e lembrar da amizade entre o fascismo e o nazismo. E isso é generalizar. Isso é ser preconceituoso. Porra, eu não quero me tornar o que eu mais odeio nesse mundo.

Daí amigos: Três anos sem, ao menos por aqui. Bom, agora já são quase seis anos morando no paraíso. E eu tenho um rol e tanto: um é separatista, adepto do movimento “o sul é meu país”, torce pro coxa e me diz que “paulista é tudo pau no cu, mas a gente te trata igual”. Faço uma pausa nesse momento pra relatar que incrivelmente, cu tá sem acento porque o corretor ortográfico deste computador deve ser politicamente correto: ele tira o acento do cu.

Outro dos meus amigos é alemão, como eles se referem a si mesmos aqui, mesmo sendo descendentes da linhagem mais indireta possível. E no caso desse, é descendente de alemão por parte de mãe e de negro por parte de pai, coisa que eu só descobri quando, uma vez que fomos a São Paulo, ele se mostrou surpreso com a quantidade de negros e eu perguntei se ele era racista. Dá pra imaginar o tamanho da resposta que eu levei.

Outro do rol é negro por parte de pai e índio por parte de mãe. Outros três são descendentes de alemães dos dois lados. Não me consta que eles colem os cartazes nazi por aqui também. Eles me lembram mais do que nada que eu leia ou ouça a respeito que preconceito é feio. É só isso: é feio, porra. Precisa de mais adjetivos?

Daí quem generaliza, enfim, todo mundo, cedo ou tarde, também deve se perguntar se eu não odeio esse lugar. Não, não odeio. Amo esse lugar, senão não me importava, porra. Aqui é lindo, tem potencial auto-sustentável, mas, como em todos os lugares do mundo, admitindo-se ou não o ódio aos semelhantes, admitindo-se ou não a eugenia social em que se vive por conta da cultura superficial do estético, enfim, aqui, com eles fazendo do jeito deles ou não, não é diferente de nenhum lugar: aqui também os fracos não tem vez.

Fui.

Não, não: peraí: Antes, deixa eu testar de novo:

Cu, cu, cu cu.

Ainda bem que “puta que o pariu” não necessita acento. Mas cu sem acento só quando tá com hemorróida.

Tomar no cu

30.5.08

Contra-mão da maluquice generalizada.


Eu fico pensando o que passava na cabeça da garota bipolar (http://oglobo.globo.com/sp/transito/mat/2008/05/27/mulher_com_transtorno_bipolar_dirige_5_5_km_na_contramao_da_avenida_23_de_maio-546521793.asp) que rodou 5,5 km na contramão de direção em plena São Paulo, esses dias atrás. Fico imaginando o nível da crise maníaca dessa guria naquele momento. Ela já não devia estar bem. Segundo eu li, estava de licença para tratamento de saúde há dois meses. É a típica situação difícil de se decidir, porque tem crise maníaca que não se segura muito fácil.

É verdade que quem se trata adequadamente não coloca a vida dos outros em risco, mas essa regra não é absoluta porque os remedinhos não são 100% garantia de isentar o doente de qualquer piripaque. E quem não se trata direito ou simplesmente não se trata pode fazer isso numa crise com muito mais facilidade. De qualquer modo, pode até ser que o episódio tenha sido uma tentativa de suicídio da guria, que depois de presa disse que via policiais mortos pelo chão da rua enquanto trafegava no avesso. Vai saber.

Uma coisa pra mim é certa: essa garota, se não quiser se tratar, não deveria mais dirigir em São Paulo. Mas quanta gente não bipolar acaba morrendo baleado em conseqüência de briga de trânsito? Pois é, no caso de quem é bipolar, o problema é pior, porque como o piripaque foi de uma bipolar, a “unanimidade burra” a que Nelson Rodrigues se referia pode aparecer e o medo e o conseqüente preconceito contra os bipolares deve aumentar e muito nos próximos tempos.

Daí a se acabar confundindo e generalizando bipolares com todo tipo de maluco existente é um pulinho. Sujeito pode confundir o casalzinho sociopata que mata a filha de um deles com um bipolar, por conta dessa contramão suicida periclitante. Num mundo rodeado de medo e terror, a tendência prevista por George Orwell no livro “1984” de um estado policialesco vem agravando o problema a olhos vistos, vide o que foi dito pelo presidente nacional da OAB no discurso de posse do presidente do STF, onde ele afirma que existe uma competição entre os órgãos do governo para ver quem é o “rei do grampo”, enquanto do outro lado as pessoas mais e mais atemorizadas com o estado atual das coisas acaba pedindo por favor para que suas vidas sejam constantemente vigiadas pelo “grande irmão” nosso de cada dia.

Some-se a isso o valor demasiado da polidez em face do caráter. A polidez, a boa educação hoje em dia tem tão mais valor que o caráter, que se você for canalha, mas educado, ta tudo ótimo. Olha aqui, meu amigo que prefere a polidez ao caráter, ao déb ate franco sem frescura: Polidez de cú é rola! A boa educação é coisa de momento, então se pode escolher ser ou não educado, dependendo de com quem se lida. Essa é a maldita verdade. Imagino que a garota não foi lá muito polida quando foi presa, já que tava numa crise do demo, mas será que dá pra definir o caráter de alguém bipolar quando essa pessoa está em crise? Porque no meu caso, pelo menos, quando eu estou em crise e ofendo deliberadamente alguém, veja bem, posso estar errado porque não sou médico, mas me parece agora que com um tratamento mais eficaz pode até não ser possível erradicar totalmente as crises, mas que elas são minimizadas (não importando aqui a que preço de efeito colateral dos remédios) e, por conta disso, logo depois da crise eu consigo perceber que fiz merda, e daí o asco que eu sinto de mim mesmo cuida de fazer o resto, isso é certeza.

Mas será que numa crise eu seria capaz de, sei lá, espancar minhas filhas? Digo que não. Nem sempre eu me tratei adequadamente, por culpa minha mesmo e por culpa dos médicos e seus diagnósticos e tratamentos errados também. Mas nem por isso eu desci o braço ou mesmo dei uma palmada que fosse nelas. Em compensação, e não tô aqui fazendo mea culpa não, é só pra me fazer entender, mas eu já perdi a boa e gritei com elas, eu mesmo contei isso aqui em outro post. Já quanto a dirigir na contra-mão...

Fui, pro outro lado da rua.

13.5.08

É boxe na veia, véio!


Faltam 05 meses para o campeonato. Tenho treinado todos os dias, faço sparring uma vez por semana. Luto pra valer duas vezes por mês. A última foi semana passada e estou com os dois olhos roxos ainda.

Durante muitos anos eu tive medo de levar pancada. Mas o boxe curou isso definitivamente. Na última luta eu levei dois uppers (soco no queixo de baixo para cima, o mais fatal que existe). Minha cabeça balançou pra trás mas eu não caí. Nem fiquei grogue. Antes a idéia da dor de um golpe aliada a impossibilidade de fuga soaria terrível. Hoje me soa terrível sequer cogitar fugir. Meu orgulho é ficar lá, olhar com um olhar assassino pro sujeito que acabou de me acertar o que ele supunha ser o golpe perfeito e começar a avançar lentamente em sua direção, anunciando um revide tenebroso.

Meu treinador fica puto comigo porque eu digo a ele que quero tomar muita pancada enquanto treino para o campeonato que é pra acostumar e não ficar desorientado quando levar uma seqüência de golpes do adversário. Quando isso acontece é perigoso demais pros lutadores. Muita gente, principalmente no boxe amador, se apavora no ringue nessa hora. Resultado: não consegue mais bater, só foge e foge.

As pessoas não entendem o que é o boxe para o lutador. Boxe não tem a ver com violência pra gente. A violência é o de menos. Boxe é respeito. Como disse o personagem de Morgan Freeman naquele filme “Menina de Ouro”, o pugilista ganha respeito tirando o respeito do adversário.

Boxe é superação. É se sentir perdido no meio de sangue, suor e muita adrenalina, num intervalo de três minutos que pode definir sua existência, mas conseguir, diante do pior quadro possível, superar dor, medo e um cansaço terrível e manter-se em pé. Boxe não é um esporte de agressão, mas de calma. Você precisa de calma para bater certo. Pugilista não se assusta fácil, então não adianta vir abanando os braços igual a um Garibaldo descontrolado, do tipo: pegue o golpe onde pegar. Não vai pegar assim, só isso. Golpe pega mesmo quando é preciso. Tampouco os socos precisam ser muito fortes. Se você aprende a bater, a “jabear” e desferir o direto virando a mão para baixo antes de dar o soco, e atingir o alvo com a precisão dos três dedos (indicador, médio e anular), e conseguir voltar a fechar a guarda imediatamente, pode lutar com calma. Se você aprende a dar um só passo atrás ao invés de sair correndo do adversário, continua suficientemente próximo a ele para acertá-lo e não gasta energia à toa fugindo. Pugilista de verdade sabe poupar fôlego. E pra fazer isso, precisa controlar a ansiedade de ir pra cima com tudo, igual ao Garibado desvairado, ou fugir o tempo todo, o que, imagino, faz neguinho correr alguns quilômetros em um único round.

Boxe é controle das próprias emoções. Mesmo quem treina mas não luta acaba se dando conta disso. A ansiedade, principalmente em lutadores estreantes em campeonatos oficiais, faz golpear o vazio, dar socos sem nenhuma precisão e ficar gastando energia à toa, indo pra mais longe do adversário do que é preciso para acertá-lo. Pugilista não foge da dor, porque se fugir, apanha mais. Essa é uma lição das mais duras no boxe, mas não tem jeito. Tem de se estar emocional e fisicamente preparado para não se desconsertar pela dor, medo, falta de fôlego ou coisa parecida. Você toma um sopapo estonteante na orelha e não tem tempo de parar pra refletir. Não dá pra deixar pra amanhã, pra depois, pra daqui a dez segundos. Ao mesmo tempo, não dá pra se afobar. Se o gás acabar é lona na certa.

Pugilista, famoso ou não, enfrenta um preconceito social dos diabos. As pessoas de vida vazia sempre encontram motivos de sobra: No meu caso, mais fácil ainda, ja que eu sou bipolar, e tenho, como já disse mais de uma vez aqui, ao invés de surtos de grandeza, em minhas crises maníacas, surtos de agressividade. De alguma forma bem idiota as pessoas acham que o boxe vai potencializar isso, apesar de acontecer bem o contrário. Eu não bato em mulher. Nem na minha, nem em nenhuma, nem no boxe, onde eu sirvo de sparring pra uma prostituta que vai lutar daqui a 40 dias. É, minha vida é meio surreal mesmo. Sorte a minha, caralho. Sei que enquanto a prostituta desce o braço, eu apenas toco os lugares de sua cabeça e seu tronco, durante a luta, que estão descobertos, pra que ela perceba a necessidade de manter a guarda alta. Sem erotismo nem putaria, cambada de preconceituoso. O treino ali é sério. Não bato nas minhas filhas, odeio quem faz isso a pretexto de educar, mas já falei disso aqui, então deixa pra lá. Na verdade, acho que não entro em uma briga há uns quinze anos, pelo menos. Meu negócio é no ringue. É o esporte, a adrenalina do momento com aparência de impossível, é a superação. Discordo de juiz de boxe que deixa pugilista se matar lá em cima. Quem conhece um pouco sabe quando o cara tá meio grogue e corre o risco de tomar aquele baita desavisado na idéia e ficar pra lá de bobo, mesmo que não caia, ou pior. Mas pergunta se for a minha vez lá em cima, isso acontecer, e juiz parar a luta? Pergunta pra qualquer pugilista se for ele e acontecer isso, ainda que ele provavelmente discorde em relação ao colega.

Não adianta, esse é outro mundo mesmo, pra quem não tem contato direto com o esporte é incompreensível. Daí tanto preconceito, como por exemplo, o fato de eu ser pai, como se eu fosse um irresponsável fazendo o que eu faço. Irresponsável de cú é rola, mermão! Não tenho nem o que dizer pra esse povo, os babacas de plantão que me perguntam com que cara eu vou aparecer na audiência de olho roxo. Ora, eu vou com a minha cara e uma lesão esportiva nela. Qual é a porra do problema? Pior são os que vão bêbados.

Daí uns cinco palhaços bateram no meu treinador mês passado. Ele tinha ido a um bailão do povo, e os seguranças já sabiam que ele lutava boxe e além disso, ele é negro. Não adianta dizer que no sul do país não existe preconceito nesse nível. Bom, ele apanhou bem, mas quebrou a mão na cara de um. A Adriana fez o exame radiológico da mão dele, e outro médico que estava lá disse a ele:

- “Eu não entendo esse negócio de gostar de boxe. Vai jogar futebol, oras!” Ao que meu treinador respondeu:
- Óia só. No futebor a gente começa se abraçando e acaba tudo em briga. No boxe, a gente começa tudo na briga e acaba se abraçando.

Mais uma vez, meu treinador explica em poucas e simples palavras o que eu só consigo depois de um post inútil desse tamanho.

Fui.

10.4.08

Ah! Não tô maluco!




Bipolares às vezes sentem que estão curados. Basta um período hipomaníaco para ter essa impressão. Mas não se engane, essa doença não tem cura. No entanto, imagino que esses períodos influenciem muita gente a abandonar o tratamento. Se isso já lhe aconteceu (e se você é bipolar é quase 100% de certeza de ter acontecido), ao invés de pensar: “estou curado”, melhor pensar “o tratamento tem dando certo”. Por nada nesse mundo você deve acreditar que a doença deixou de existir e um período sem tratamento por conta disso vai ocasionar a volta das crises.

Comento isso porque tenho me sentido assim. E mesmo tendo plena consciência de que se trata de uma ilusão eu me sinto tentado a esquecer de tomar meu remedinho. Na verdade, estou numa maré muito boa, e isso acontece com todo mundo, bipolar ou não. É isso aí. A Terra é redonda, a vida se move em ciclos e quem tá embaixo invariavelmente sobe. Infelizmente parece que a regra também vale pros revezes.

De outro lado, é incrível a crueldade de algumas pessoas (as que acham que doença bipolar não existe, que é frescura ou desculpa) em não se conformarem com o fato de que bipolares também tem seus períodos de normalidade. Como a gente é louco, não pode nem aparentar normalidade para essas pessoas, senão elas, coitadas, se sentem injustiçadas. Isso sem mencionar a hipocrisia de quem se proclama responsável num mundo tão corrompido. Falta de caráter também é falta de responsabilidade, meu bom.

O problema é que nessa transmodernidade, loucura e liberdade andam juntas. E a inveja sempre sonda os loucos-livres, porque todo mundo adora proclamar a liberdade, mas poucos têm culhões pra aceitá-la, então resta admirar ou invejar quem vive o que prega. . Por isso é bom frisar também que quem usa a doença como desculpa para se tornar irresponsável merece descrédito. Mas quem se encontra limitado pelas crises da doença e não consegue avançar, e sabe bem lá dentro porque sente a carne carcomida pelo grilhão dos episódios depressivos (e as vezes, dos maníacos também e outras vezes dos mistos) merece compreensão.

Enlouqueça com responsabilidade. Bom, pelo menos tente.

Fui.

8.4.08

Liberdade de anonimato




Tem umas pessoas que postam comentários aqui e me pedem email, msn, me pedem pra inscrever no rss (o que é isso?) e outros bichos.

Eu tentei colocar um contador de acessos aqui e não consegui, porque tinha que copiar e colar umas “tags” no “código html”. Falou... Tags e código html. Boiei, duas vezes.

Então eu queria esclarecer duas coisas: primeiro, não sou psiquiatra ou psicólogo. Eu me limito a meter o pau nessa gente quando eles tratam os bipolares como cobaias de suas aventuras científicas e falar dos resultados sentidos na própria carne. Não dou consulta. Também não dou consulta jurídica pela internet, nem aceito cliente através de blog ou outro meio eletrônico, de rádio ou televisão. Acredite quando eu digo que se eu quisesse promoção pessoal através desse blog, eu tinha histórias bem mais interessantes e cabeludas pra contar. Vide o post “Feliz 2006”. Nada mais cabeludo que o final daquela história. Na verdade, o que eu faço é limitar ao máximo as histórias que digam respeito à minha vida profissional. Mas, de qualquer forma, também é minha vida.

Segundo: gosto da liberdade do anonimato. Ninguém precisa me explicar que temos uma constituição federal que ao mesmo tempo que diz ser livre a expressão, veda o anonimato. Essa mesma constituição não pensou, entretanto, num jeito de coibir a discriminação de pessoas portadoras de doenças. Apenas de forma genérica, tratou da questão da dignidade humana. E eu não considero digno ser discriminado porque tenho doença bipolar, principalmente em minha profissão.

Quando as pessoas pensam num profissional bipolar, geralmente não passa pela cabeça delas nomes como Winston Churchill, Ulisses Guimarães, Goethe, entre outros. É como esses imbecis que fazem testes sem fundamento em empresas de RH. Aí essas empresas imbecis de Rh de hoje em dia que definitivamente não sabem onde pisam estão lá, avaliando dois candidatos a uma vaga de gerente de projetos, por exemplo. Quando chegam os relatórios das avaliações para a administração da empresa decidir pela contratação de dois finalistas...

O primeiro:

“Sujeito com inteligência acima da média, excelente capacidade de liderança e organização e ao mesmo tempo, com períodos de alterações de humor. Interesses em artes plásticas”.

E um outro avaliado:

“jogou a carteira da escola na professora aos cinco anos. Aluno lento, repetiu de ano. Interesses em física e matemática”.

Agora eu pergunto: qual dos dois você contrataria? Provavelmente, os gênios do rh contratariam o primeiro sujeito. Que era Adolf Hitler. Será que alguém escolheu o segundo, que era Albert Einstein?

Pois é. Imagina se você vai fazer um teste de seleção e coloca lá que tem doença bipolar. Agora aqui eu tenho que me identificar? Não, obrigado.

De qualquer forma, minha cara tá aí, estampada. É uma forma de identificação. Só escolhi uma de um período bem depressivo, por sinal. A idéia era colocar outra num período maníaco, ao lado. Mas como eu disse, sou uma anta me matéria de internet. E não descobri um jeito de fazer isso.

Então é o seguinte: eu posso trocar idéias, não tenho nada contra isso. Só que não sei como fazer isso sem ter que revelar meus dados. Acho que no blogspot dá pra cadastrar um email, vou ver se descubro isso. Não é uma legislação falha que vai me impedir de dizer o que eu penso porque, pra eu dizer o que penso, tenho de ter ciência que serei com certeza discriminado por outras pessoas que veladamente cuidam para que a dignidade humana suma do mapa. Como algumas empresas de RH, por exemplo, que em dinâmicas de grupo já mandaram neguinho dançar a dança da boquinha da garrafa.

Sei lá. Quando eu achar o email, ou outro jeito, eu aviso. Até lá, e como sempre...

Fui.

4.4.08

Frase do milênio

"Quando você está em crise, você destrói as coisas que você normalmente mais preza. Como o seu casamento, por exemplo".


Dito por minha assistente, que sabe de minha doença.



Precisa dizer mais alguma coisa?



Fui.


11.3.08

3.6

Ao contrário do senso comum, envelhecer faz com que uma pessoa fique mais liberal e tolerante, e não mais conservadora e intransigente, segundo revelou um novo estudo. Pesquisadores da Universidade de Vermont e da Universidade Estadual da Pensilvânia descobriram que as pessoas com mais de 60 anos de idade tornam-se mais liberais, e mais rapidamente liberais quando comparadas com as pessoas mais jovens.

"Ainda há esse estereótipo sobre as pessoas mais velhas serem menos flexíveis quanto a sua forma de pensar ou serem mais conservadoras", disse Nick Danigelis, professor de sociologia em Vermont, que comandou a equipe de pesquisa. "Esse é um falso estereótipo. Na verdade, as pesquisas sugerem que quanto mais idosa, mais rapidamente uma pessoa aproxima-se das opiniões liberais."

Fonte: Terra notícias – 06.03.2008.

Pois é. E eu comemorei meu aniversário de 36 anos no show do Iron Maiden, em Curitiba. E fiquei numa ressaca pra lá de liberal. Maravilha.

Voltei com a Adriana. Minha vida sem ela é triste. Eu me percebi abandonando a mulher que amo de verdade para absolutamente nada no horizonte. Me percebi não querendo conhecer mais ninguém. Me percebi um completo idiota que não dá valor pra grande sorte que teve ao conhecer alguém como a Adriana. Ela é insubstituível. Não existe outra no mundo igual a ela, essa mulher liberal que morre de amor por mim. As coisas estão diferentes agora. Melhores do que antes, bem melhores, acho que como no curtíssimo período de tempo que a gente namorou. Eu não sei o dia de amanhã, não sei se algum dia vou me arrepender, ou se ela vai se arrepender. Mas não quero saber do “para sempre”, quero saber do “para hoje”.

Menos trileptal agora. Um comprimido de 300 mg à noite e é só. Meio ruim ao acordar, mas é tudo o que há de ruim nessa redução de dose. Não ando enfrentando crises e já reduzi o medicamento há mais de um mês. Estou vivo de novo.

Essa insatisfação que vem acompanhando o ser humano eu também sinto. Esse vazio, essa sensação de falta, de que algo falta. Mas a sensação de falta implementa objetivos de vida. E no momento, eles compreendem fazer uma boa pós e entrar na melhor forma física de minha vida para poder enfrentar a guerra nos ringues que se aproxima.

E quando isso passar, eu quero virar um velho safado, como Bukowski.

Fui.

12.2.08

Vai vendo


Daí ontem eu fui na ex, ver minhas filhas. Eram seis da tarde, e Laisão da Floresta e Perninhas estavam dormindo. E eu, procurando caneta e papel para tentar voltar a escrever à mão (adoro escrever à mão, porque dá mais tempo pra refletir), achei um bloco de papel de carta da IBF –Indústria Brasileira de Filmes. E já fui escrevendo o texto no passado que é pra não precisar editá-lo quando fosse colocar aqui no blog.

Eu olhava pro impresso da IBF e ficava pensando no quanto eu teria adorado cursar uma faculdade de cinema. Então decidi que vou estudar cinema no futuro, quando tiver tempo e grana pra bancar isso, ao invés de uma pós em direito do trabalho, que é necessidade e é mais urgente.

Pois é. Eu vejo um monte de gente que quer estudar direito. Olha, só digo uma coisa: Direito, se você faz pensando em ganhar dinheiro, muito dinheiro, saiba que você tem que estudar e muito (a não ser que seja parente ou amigo de gente poderosa dentro desse mundo – eu não tive essa “sorte”). Você tem que já ser do tipo que gosta muito de ler, ou ao menos, que tem o hábito de ler. Além disso, tem de ter criatividade para lidar com situações novas e perspicácia, muita perspicácia para entender os reais interesses envolvidos, e não é só do seu lado, é de todos os lados, é dos interesses de todo mundo.

Quer um exemplo? Tem um inventário correndo em outra cidade, e duas, de sete herdeiras, são minhas clientes. Elas eram filhas de uma relação extra-conjugal do falecido pai. Pois bem: Propuseram a elas uma baixa quantia em dinheiro, pela parte que lhes caberia na herança, e elas, contra minha vontade, estão inclinadas a aceitar, porque estão passando necessidade. Eu tento convencê-las a não fazer isso, principalmente porque quando eu fui até o local inventariado com um corretor de imóveis e um engenheiro florestal para descrever e avaliar a terra, vi que além da propriedade rural, existem inúmeras cabeças de gado que não foram mencionadas no inventário pelo herdeiro que abriu o inventário e que é quem mora no local inventariado.

Daí eu vou analisar a minuta (um esboço feito pelo tabelionato, a mando do advogado dos outros cinco herdeiros, fora minhas clientes) da cessão de direitos hereditários (documento onde minhas clientes vão ceder sua parte da herança em troca do valor baixo que propuseram) e vejo que além de constar um valor MENOR AINDA que o que foi oferecido às minhas clientes, a pessoa que constava como comprador da parte delas (o cessionário, que supostamente iria adquirir a parte das minhas clientes e pagar o preço) nem sequer é um dos outros cinco herdeiros.

Até aí tudo bem, a lei autoriza a venda a estranho de parte do que tem os herdeiros, antes mesmo de terminado o inventário. Só que, como a área ainda não foi dividida, todos os herdeiros têm direito a ela, então, se algum herdeiro quiser vender a sua parte a um estranho, todos os demais herdeiros tem de assinar esse documento de cessão de direitos, porque os herdeiros tem direito de preferência na compra de parte de um deles.

Mas enfim. Vai vendo até onde a malandragem jurídica pode levar neguinho no bico: se existe o direito de preferência ele deve ser respeitado, ou seja, antes de vender para um estranho, os demais herdeiros tem de manifestar seu desinteresse em comprar a parte que está sendo vendida. Como na escritura de cessão de direitos não iria constar a assinatura dos outros herdeiros, a lei autoriza qualquer um deles, se quiser, depositar numa conta judicial (que diga respeito àquele processo de inventário) o valor que foi negociado e pegar pra si o imóvel que foi vendido. Em outras palavras, o infeliz que não tinha nada a ver com o inventário e que resolveu comprar a parte das herdeiras iria perder o imóvel recém-comprado para um dos outros cinco herdeiros. E, claro, poderia processar minhas clientes e pedir de volta o dinheiro que pagou a elas, já que ele não ia ficar mais com a terra, se ouro herdeiro quisesse depositar o preço no processo e adquirir a parte negociada.

Só que nesse caso particular, o sujeito não é um cidadão que está sendo ludibriado. Não senhor. Ele é filho de uma herdeira, que por sinal, é a pessoa que se disse interessada em comprar a parte das minhas clientes, tudo intermediado pelo advogado dela, que abriu o inventário na cidade onde ele, advogado, mora, que não tem nada a ver com onde morava o falecido ou com a localização da terra. Isso mesmo. Ele nem poderia ter aberto o inventário ali.

Tudo bem, imagino que você não está entendendo qual é a jogada. Vou explicar:

Minhas clientes vendem para uma pessoa estranha ao inventário (sim, porque apesar de filho de uma co-herdeira, ele é maior e capaz, e portanto, independente dela) sua parte da herança, por um preço baixo. Ele paga a elas, elas ficam com o dinheiro, mas ele não fica com a terra, porque a mãe dele deposita o mesmo valor em dinheiro no processo e pega essa parte da terra pra si mesma. O dinheiro que ficou depositado no processo serve para pagar todas as despesas que ali constam (até recibos simples com valores absurdos de despesas com funeral já constavam do processo desde que ele foi aberto), além de custas processuais, impostos de transmissão, avaliação da terra, enfim, e o que sobrar, se sobrar, vai para os outros quatro herdeiros que ficaram (ou seja, menos minhas duas clientes e a herdeira que depositou essa quantia). Enquanto isso, o filho dessa herdeira safada processa minhas clientes e recebe de volta o dinheiro que pagou a elas, porque afinal, ele não recebeu terra nenhuma, já que minhas clientes não respeitaram a lei e cederam sua parte sem a anuência dos demais herdeiros. E elas estavam representadas por advogado (eu) quando fizeram o negócio (se fizessem assim, né? Claro que não fiz assim). Minhas clientes então, que para os outros herdeiros não valem nada, porque são filhas de um relacionamento extra-conjugal do falecido dono da terra, ficam com ZERO, a herdeira safada que é mãe do laranja que comprou adquire uma parte maior da terra que os outros herdeiros a um preço ridículo, recebe de volta o dinheiro que deu pro filho “comprar” a parte das minhas clientes, e ninguém tem despesa nenhuma com o inventário porque o dinheiro das minhas clientes pagou todas as despesas.

Então é isso aí. Você vai ver histórias incríveis, isso se tiver olhos, cérebro e algum conhecimento jurídico. E sabe como vc consegue isso? Estudando muito. Ou você pode passar de bobo, e depois também tomar um processo de suas clientes porque você as representou em um negócio que lhes deu o maior prejuízo. Além disso, você também pode não estudar, e precisar, como o advogado dos demais herdeiros, manipular as pessoas para ganhar mais dinheiro, porque só assim você sobrevive, certo?

Ah, é, a ética... Bem, eu digo o que a ética me impede de fazer: Ela me impede de encher esse advogado safado que está por trás de tudo de porrada. E sorte a dele que existe a ética.

Agora, voltando a IBF desse impresso onde escrevo a mão essas linhas: A IBF fabrica filmes radiológicos, não tem nada a ver com cinema. Mas e daí?

- Despesas com pós-graduação: R$ 800,00/mês.
- Trileptal: R$ 170,00/mês.

(***)Faculdade de cinema?

- Fazer faculdade de direito, virar advogado e desarmar uma fraude cinematográfica: não tem preço.


Fui.

31.1.08

Britney: uma gostosa fora de controle


Britney Spears é bipolar. Mas que surpresa, hein? Num mundo - ainda mais no mundo das celebridades - onde se busca justificativa pra tudo, tudo se justifica. Não estou dizendo que é o caso da loira, ela só pode ser mesmo bipolar. É a primeira idéia sobre quem passa dos limites hoje em dia. Tá na moda, dá ibope. E justifica quase tudo o que é macabro na personalidade humana. Ah, sim, lamento, mas esse post não é sobre a Britney , que eu não tenho o dom de Nelson Rodrigues. Não tenho palavras que substituam a beleza do flagrante dela descendo do carro sem calcinha, toda feliz em se mostrar num momento maníaco.

Nada disso. Vou falar do que me proponho nesse blog. E hoje é a pergunta: até que ponto é nosso direito (e da Britney, por que não) justificar a megalomania, a agressividade, os rompantes de descontrole emocional com essa doença?

Ora, se dá pra explicar o fato, deve dar pra antecipá-lo também. Se fazemos parte desse mundo e queremos ser aceitos, que tal fazer um esforço extra e começar a tentar se controlar mais, com menos medicamentos?

Uma cliente foi internada num hospital psiquiátrico em dezembro. Lá, ela foi diagnosticada com doença bipolar, apesar de já se tratar de “depressão” com uma psiquiatra. Erro comum, que quase todo bipolar sabe, e quase todo psiquiatra não. E depois de diagnosticada? Claro que é lítio na idéia pra começar o tratamento. E quantas vezes a gente não vê os médicos querendo matar uma galinha com uma bazuca? É sempre assim: Entope de lítio como primeira opção e pra acompanhar, dá-lhe anti-depressivos, pra aliviar o embotamento da dose absurda de lítio três vezes ao dia que lhe foi prescrita. Tá, não sou médico, eu sei. Mas já passei por isso e tive vontade de morrer, mas estava tão embotado que não tinha ânimo nem pra cortar os pulsos.

Eu tenho três clientes bipolares. É a infalível lei da atração. E é estatística também, porque essa doença, em termos estatísticos, não é como o câncer. Se você comparar a população mundial com algum tipo de câncer incurável, com a população mundial bipolar (que é uma doença incurável), pode concluir (talvez erroneamente) que a medicina anda mais atrasada no tratamento da doença bipolar do que do câncer, já que tem muito mais gente bipolar do que com algum câncer irreversível. Algum médico dirá que não, não é bem por aí, principalmente se considerarmos que até lá pelos anos 70, não existia nenhum tratamento e depois surgiu o lítio. Ah, tá. E agora, depois do lítio, existem milhões de tratamentos e nenhuma cura, do mesmo jeito. Mas peraí: é por isso que o lítio é sempre a maldita primeira opção? Por que foi descoberto antes dos outros medicamentos? Nós damos um lucro imenso pra indústria farmacêutica e para os médicos. Acho que a contrapartida mínima dessa gente seria ter paciência suficiente para começar com medicamentos mais leves, que MUITAS VEZES fazem o melhor efeito, que é aquele em que o sujeito se sente mais próximo de um ser humano, e não de um saco de batatas, como minha cliente, que engordou vinte quilos em um mês e tá meio abobada, exatamente como eu fiquei quando comecei a me tratar...com lítio, lógico.

Claro que tem gente que precisa de lítio. Mas se desse pra generalizar, a medicina não se esquivava de dar satisfações inventando tantos subtipos do “espectro bipolar”. É do tipo I, II, III, ciclagem rápida, blá, blá, blá. Tem os mais loucos e os menos loucos. Nós bipolares sabemos disso. Mas quando eu vejo um psiquiatra idiota receitar lítio como primeira opção pra todo mundo, dá vontade de emprestar meu cérebro pra ele por um dia que fosse, e que fosse um dia daqueles onde a crise maníaca está fazendo a alma quase sair do corpo.

Então não dá pra contar com os médicos. Não dá pra contar com os medicamentos. Claro, tanto os médicos quanto os medicamentos são necessários. Ruim com eles, pior sem, não há dúvida a respeito dessa máxima quando falamos em doença bipolar. MAS ESTÁ NA HORA DE COMEÇARMOS A FAZER NOSSA PARTE.

Imagine: você está em crise maníaca. Acorda tremendo por dentro. Os inúmeros pensamentos numa velocidade insuportável fazem você não duvidar de que está louco. É uma sensação terrível, uma mistura de pânico com impotência. Aquela energia toda está lá dentro, se acumulando, minuto a minuto. E ao mesmo tempo você não consegue sair do lugar, não consegue fazer nada com ela, que se acumula mais. Uma bomba que incha mas não explode. Não é assim? É, eu sei que é. Mas se eu já sei que é, não seria possível vislumbrar no meio da insuportável correnteza de idéias algo como “eu preciso me controlar um pouco”. “EU PRECISO RESPIRAR UM POUCO”, “EU PRECISO PENSAR NO AR”, ou coisa parecida? Sei lá, qualquer coisa que faça você voltar pro solo por um minuto. Já falei em outro post: APRENDA A IDENTIFICAR AS CRISES ANTES QUE ELAS ACONTEÇAM. É o famoso: “opa, parece que eu tô saindo do sério aqui”.

Porra de psiquiatria. Eu, doente bipolar, digo que dá. Eu venho conseguindo controlar mais e melhor minhas crises, desde o fatídico momento em que eu comecei a me preocupar em identificá-las. O resultado disso? Adivinha só? MENOS MEDICAMENTOS = MENOS EMBOTAMENTO = MELHOR APROVEITAMENTO DAS IDÉIAS = MAIS QUALIDADE DE VIDA.

Dá sim. Quem tem essa doença e quer QUALIDADE DE VIDA tem que aprender a se controlar com UM MÍNIMO DE MEDICAMENTOS. Defendo isso. E me processe se quiser, doutor, indústria farmacêutica, quem for.

Não defendo o uso irresponsável de medicamentos. Mas defendo veementemente a IMPOSIÇÃO DA OBRIGAÇÃO AO PSIQUIATRA DE SE COMPROMETER MAIS COM A QUALIDADE DE VIDA, E MENOS COM O QUE ELE SUPÕE SEJA UM CONTROLE NECESSÁRIO DO PACIENTE BIPOLAR. Qual é, seu psiquiatra? Entope o paciente de medicamentos, o cara fica babando na gravata e a família que já não o agüentava mais agradece e tudo bem?

E você, bipolar? Qual é? Vai ser parte meramente passiva no seu tratamento? Vai se queixar e o médico, todo pomposo vai usar toda aquela retórica imbecil e te convencer a continuar do jeito que você sabe que não está bom? Você tem que se comprometer com a sua melhora. Não tem milagre, meu filho. Se os remédios meia-boca não dão conta direito, você tem que fazer o resto.

E você, doutor? Qual a conseqüência de entupir o paciente de porcarias tão fortes, logo de cara, sem que esse seja o caso do paciente? Olhe as estatísticas e veja quantos bipolares desistem do tratamento. Será que o doutor já se perguntou o porquê? Aposto que o doutor nem admite que alguém leigo em medicina possa questionar. Claro, é mais fácil assim, porque se ninguém questionar, o doutor não precisa dar muita satisfação, né mesmo? E parece que médico odeia dar satisfação. Dos meus três clientes bipolares, sabe quantos sabiam que doença mental possuíam? Nenhum. Só depois que eu os convenci a não ter medo de perguntar pro médico, e que, por sinal, como CONSUMIDORES DOS SERVIÇOS MÉDICOS eles tem o DIREITO Á INFORMAÇÃO CLARA E PRECISA sobre sua condição de saúde, é que vieram com seus diagnósticos. Isso é uma vergonha, como é vergonhoso saber-se portador da doença, saber os danos que ela provoca em você e no ambiente à sua volta, e não se esforçar em melhorar um pouco, seja com exercícios físicos, terapia, ioga, meditação, abstinência de álcool e drogas, ou o que quer que você sinta que faz alguma diferença na hora de exercer algum controle sobre seus estados – principalmente os maníacos - que a doença provoca. Você pode até aprender a não se importar com a merda à sua volta. Mas não venha me dizer que você passou a gostar dela.

Daí parece que a Britney tem um documento que impede que os profissionais da clínica onde se internou lhe apliquem quaisquer medicamentos em até 72 horas. E ela disse que não dorme desde sábado. Claro que aí ela está passando por cima do que poderia beneficiá-la. Mas ainda assim é melhor do que tomar um sossega-leão e dar a impressão pra todo mundo do quanto ela ficou “boazinha”. Doença bipolar não devia ter esse nome por causa dos pólos mania e depressão. Devia ter esse nome porque o mais importante nos dois pólos é o fato irrefutável de que essa doença pressupõe SEMPRE UM MEIO-TERMO. E o meio-termo dessa doença é a qualidade de vida. O meio-termo é a ausência da doença. Não completa, porque não existe cura. Mas a aparente ausência já satisfaz e muito.


Fui.

23.1.08

Cagando e andando



- Mas às vezes eu fico olhado e me perguntando o que a pessoa com quem converso está pensando a meu respeito. Geralmente imagino que é o pior possível. Fico atento às expressões faciais, o movimento do corpo do meu interlocutor. Tiro as piores conclusões possíveis. E me afasto.

- Eu sei de um jeito para que você nunca mais se preocupe com a opinião alheia a seu respeito. É muito simples.

- Bom, essa eu quero ouvir. Manda.

- É só imaginar a pessoa cagando. Sentada no vaso, as calças arriadas, fazendo aquela força imensa, que faz saltar as veias do pescoço. Quanto mais importante pra você for a pessoa, mais vermelha ela deve ficar ao fazer força pra cagar, pelo menos na sua imaginação. Infalível. Você se esquece na hora da importância da opinião do sujeito a seu respeito, e se concentra naquele fetiche voyeurista de observar a satisfação das necessidades fisiológicas, coisa que todo mundo faz. As necessidades, não o fetiche. Distraindo o seu pensamento sobre a opinião a seu respeito, você provavelmente vai querer rir da pessoa. E cada vez que você imaginar que ela está pensando algo a seu respeito, também vai imaginar que ela não consegue emitir essa opinião, porque a opinião vem misturada com muitas cólicas e dor no reto.

- HAHAHAHA!

- É sério. Esse exercício relativiza significativamente a importância que você dá à opinião alheia a seu respeito. Distrai seu pensamento de um engodo fatal, que é o de cortar relações baseado apenas no que você acha que o outro está pensando.

Ela tinha razão. Infalível mesmo. No começo, eu não me lembrava desse conselho e ainda me concentrava em dar uma de adivinho do pensamento do outro. Em seguida, isso ainda acontecia, mas logo depois do engodo fatal eu pensava na pessoa cagando. Agora é automático: senti que opinou a meu respeito, já cagou na minha idéia, eu já me matei de rir por dentro e tudo fluiu muito bem. Não descobri nada melhor do que isso até hoje pra deixar alguém tão vulnerável quanto eu me sinto enquanto converso.

Ah, sim, a autora do conselho: Minha ex, sempre a mais sábia das criaturas. Com ela, quem cagou fui eu.

Fui.

26.12.07

2008

É tudo o que eu desejo que todo mundo deseje pra si mesmo em 2008. Chega de apanhar. Tá na hora de bater.

http://www.youtube.com/watch?v=elpC01CZn6U

o que ele diz:

“Pleasure and pain. They’re not opposites. They’re neighbors, separated by a thin line by a split second.
(Prazer e dor. Eles não são opostos. São vizinhos, separados apenas por uma tênue linha que divide um segundo)


One minute you feel like everything is going your way... Like you’re ready to climb the highest mountain, heading for the top of the world.
(Num minuto onde você sente que tudo está seguindo seu curso... Como se você estivesse pronto para escalar a montanha mais alta, indo para o topo do mundo).

But in the game of life, you never know. You train for years to get a piece of personal glory, for a chance to stand toe to toe with your fears and say, “here I am. Take your best shot!”
(Mas no jogo da vida, você nunca sabe. Você treina durante anos para conseguir um pedaço de glória pessoal, por uma chance de ficar cara a cara com seus medos e dizer, “EU ESTOU AQUI! DÊ O SEU MELHOR GOLPE!)”

Then the contest begins and BANG! Your down for the count. It’s not your day. You tried your best, but wasnt really your best.
(Então a competição começa e BANG! Você cai e começa a contagem. Não era o seu dia. Você tentou o seu melhor, mas não era realmente o seu melhor).

So do you go home with a broken heart...or do you get up?
(Então você vai pra casa com o coração partido… OU VOCÊ SE LEVANTA?)

Smarter
(MAIS ESPERTO)

Wiser
(MAIS SÁBIO)

and better prepared then ever before
(E MELHOR PREPARADO DO QUE NUNCA)

It’s a new day, a new season, a new you.
(É um novo dia. Uma nova temporada. Um novo você).

You hope it won’t be the same story, all the pleasure turn into pain again.
(você espera que a história não se repita. Todo prazer se transforma em dor de novo).

Are you ready to take life’s best punch and stay on your feet? I cant answer that, only you can.
(Você está preparado para levar o maior soco da vida e continuar em pé? Eu não posso responder isso, só você pode!)

Are you hoping for the best? Are you prepared for the challenge?
(Você espera o melhor? Você está preparado para o desafio?)

Are you a contender?
(você é um desafiante?)

17.12.07

Ilusão das ilusões

Foi meio duro me dar conta de que eu me achava muito apaixonado e depois descobrir que definitivamente não conheço meus próprios sentimentos. Não me amo tanto assim pra esquecer de tudo tão rápido e me sentir bem. Mas é o que está acontecendo. Foi ilusão de paixão, ou, ilusão de ilusão, o que dá no mesmo.

"Não era pra tanto". "É muita vela pra pouco defunto". "Não tava com essa bola toda". Enfim, essas frases refletem bem o que vem a minha mente agora. E eu não fugi da situação. Fiz uma puta de uma catarse, não fiquei evitando meus pensamentos a respeito da situação. Eles simplesmente se esvaíram sozinhos e deram lugar aos acima citados.

Meio chato esse post, é verdade. Mas é pra me lembrar que a ilusão, ás vezes, pode ser enorme e levar neguinho pro abismo, que muitas vezes não tem nada de ilusório. Quase foi o meu caso. Mas... não foi. Ainda estou vivo. E não me sinto mais ferido.

Agora é tocar sozinho. Tudo o que quero é aprender a conviver comigo e me libertar das ilusões. A realidade pode até ser uma merda, mas pelo menos dentro da realidade, o que se sente é real, inclusive os bons sentimentos. De cara, na minha vida real de agora, já deu pra perceber isso.

Bom, espero ficar deprimido em breve, pra poder ter inspiração e escrever melhor.
hehehe... eu e minhas ilusões.

Fui.



7.12.07

Olhos incertos

As lembranças vêm de acordo com o que meus olhos viram. Eles observaram, contemplaram, em uma direção diametralmente oposta a sua. Choraram, sorriram, se embriagaram numa paixão avassaladora, de um sofrimento que minha alma não suportou. Meus olhos, cansados de ficar tristes, finalmente desistiram de olhar nos seus.

Seus olhos, na direção oposta, olhavam com silêncio e dúvida. Eles sorriam, nem sempre sorrisos confiáveis, tranqüilos, certos. Meus olhos nunca souberam interpretar os seus, que aos meus pareciam imbuídos de uma falsa verdade, uma mentira dissimulada, uma máscara com olhos de direção voluntária, precisa. Meus olhos se deixaram enganar pelos seus. Boca e corpo entraram nesse jogo, sofrendo junto a conseqüência de olhos incertos, de um “não sei” insistente e chato, que sua boca insistia dizer. Meu corpo, assim, já não te queria mais.

Agora meus olhos olham à distância, precisos, aliviados de não cruzar com os seus, porque a boca e o corpo iriam se confundir de novo. Meus olhos voluntariamente apagam o passado que o coração ainda se recusa, meio insatisfeito com os lugares distantes onde é obrigado a se dirigir. Meu coração vai, meio sem vontade, meio sem entender, cambaleando, tal qual um bêbado desorientado, pelo corpo que está cansado de lutar consigo mesmo. Abandono-o por isso. Não permito que insista, esse insatisfeito que quer saber o que nunca virá a saber: o que seus olhos viam, enquanto os meus se perdiam no mar dos seus.

Breguices, como diria a menina má. Breguices para confortar um coração que não quer viver minha vida com o resto, olhos, boca, ouvidos, corpo. Mas vai. Vai viver.

Fui.

6.12.07

Travessuras de menina má


Não dá pra deixar de comentar o livro que li nessa semana. Já postei um trecho aqui, do Travessuras de Menina Má, do Mário Vargas Llosa. Trata-se da história de um sujeito que passa a vida apaixonado por uma mulher que sempre o despreza, em troca de uma vida que ela acreditava ser o melhor para ela: uma vida de dinheiro e poder, onde ela se envolve com todo tipo de cara que acha que vai lhe propiciar isso. E ao longo de uns cinqüenta anos, se encontram e desencontram, nos mais variados lugares do mundo, onde as coisas aconteciam, nas décadas de 60, 70 e 80, em meio à revolução cubana e peruana, a virada do mundo burguês para a era hippie, enfim.

Mas o comentário e o questionamento que queria fazer é sobre amor e paixão. Fica a impressão que os dois personagens concluem que a paixão (a dele por ela, pelo menos) só atravessou décadas por conta desse jogo de conquistas frustradas, o que me remete à água morna que se tornam os relacionamentos ditos “saudáveis”, que são aqueles em que as coisas tem, sim, mais equilíbrio, mais estabilidade, mas isso, sim, tira o gosto e a graça de uma vida, que quando é uma vida que está numa fase apaixonada, mesmo que numa idade mais avançada, parece voltar a carregar o gás, a energia, a disposição, como uma alegria mais intensa, enfim, essas coisas da paixão, que só sentimos quando estamos apaixonados. Isso me angustia, porque eu não queria viver as dores de nenhum dos dois tipos, então, existe um meio termo nessa história, um ponto de satisfação sem a mágoa da rejeição da paixão, ou da mágoa do desinteresse do amor todo certinho que esfria?

Sei lá. Só sei que quem viveu um amor – ou paixão - não correspondidos, devia ler esse livro. E quem, como o lado da menina má, sabe propiciar angústia e não sente a mínima culpa em perpetuar a angústia de quem não se sente correspondido, também.

Fui.

4.12.07

Quase-identificação

“E desligou, sem se despedir. Fiquei vazio e doente. Senti tanta raiva, tanta desmoralização, tanto desprezo por mim mesmo, que tomei – mais uma vez! – a decisão de apagar Mrs. Richardson da minha memória e, para dizer uma dessas breguices que a faziam rir, do meu coração. Era estúpido continuar amando umas pessoa tão insensível, que estava farta de mim, que brincava comigo como se eu fosse um boneco de pano que jamais tinha me demonstrado a menor consideração. Dessa vez sim, você ia se liberar da peruanita, Ricardo Somocurcio!” (do livro Travessuras da Menina má, de Mario Vargas Llosa).

Claro que depois ele foi atrás dela outra vez. Pois é. Não me surpreende que você, Vargas Llosa, tenha conseguido perder a candidatura à presidência do Peru pro Alberto Fujimori.

nota

Apaguei alguns posts. Peço desculpas, porque alguns coments tb foram apagados junto. Mas ontem foi dia de limpeza, de um passado recente e bem ruim. Percebi uma coisa que gostaria de deixar registrado: é sobre nossas decisões. Muitas vezes, senão todas elas, por mais que os amigos, as pessoas que se importam com a gente digam: não vale a pena, sai fora, siga com sua vida, etc... as decisões cabem a nós, e só cabem quando nos sentimos preparados, quando estamos prontos. E é só assim que realmente funciona. O que não podemos, não devemos fazer, é protelar muito o que sabemos inevitável, adiar e continuar a sofrer. Parece óbvio? Parecer, parece. Óbvio não é o mesmo que fácil. Mas é mais do que adequado.



Fui.

30.11.07

?

1a teoria: me auto-destruo pra justificar meu insucesso sem me dar conta que meu insucesso é resultado do meu processo auto-destrutivo.

2a teoria: a velha teoria da solidariedade à infelicidade dos pais. Se eles não são felizes, como é que eu vou me permitir ser?

3a teoria: odeio essa, mas já que pensei, vou colocar: me faço de vítima porque só assim eu recebo a atenção que preciso. Na infância, quando eu ficava doente, minha mãe cuidava tão bem de mim...

...

Às vezes eu escrevo essas coisas que é pra não esquecer, pra não bloquear, pra desabafar. Rimou, mas é prosa mesmo.

Sei que aos trinta e cinco anos de idade eu cansei de me fazer mal. Não vou esperar mais trinta e cinco pra morrer com aquela cara besta de serenidade, achando que encontrei o sentido da vida. Tô atrás de equilíbrio, de homeostase. Simplificar a vida é uma arte. Com o devido respeito ao meu matemático amigo Frederico (www.tirocinio.blogspot.com), reduzindo-se todas as raízes quadradas, no final das contas somos o quê? Hidrogênio, oxigênio e carbono. Pura química, só isso. Mediações químicas dão o sentido à vida. Um desequilíbrio severo ocasionado por uma depressão, por exemplo, faz a vida parecer não ter sentido algum. Outro desequilíbrio maníaco, pode fazer o sujeito querer abraçar o mundo.

Então, pra fechar essa “pérola” de post, um pensamento que pode ser classificado como hedonista por muita gente aí, mas é isso mesmo: a coisa mais importante que eu tenho são meus neurotransmissores. Claro, tem toda uma gama de questões emocionais, que podem me fazer oscilar bastante entre um lado e outro, entre o bem e o mal (mais uma vez, desculpe, matemático amigo, eu sei que não sou um ser binário, só me comporto assim às vezes), enfim, mas o que fazem bons neurotransmissores em pessoas que não sentem culpa em trair, por exemplo? Vou dizer o que eles fazem: propiciam um puta de um orgasmo. E o que fazem neurotransmissores fudidos em quem sente culpa? Dão uma puta inveja do orgasmo dos sujeitos do primeiro exemplo.

Ah, sim, alguém deve estar se perguntando qual foi a droga que eu tomei dessa vez pra escrever tanta merda. Eu digo: Valproato de sódio. Tive de agregar mais um estabilizador de humor, porque após dois anos, finalmente o Trileptal está dando sinais de não dar mais conta do recado. Eu venho atravessando uma crise depressiva e tanto.

E daí, anti-depressivos? Nem pensar, sou de ciclagem rápida. E aí, o valproato? Bom e barato? Não é bem assim. Me dá problemas de libido. Ou será que fui eu que incuti isso na cabeça?

E assim, no final do post, mais perguntas que respostas. E lá vamos nós, para mais um ciclo medicamentoso maldito.

21.11.07

Lição de boxe


Não dá pra ficar todo dia mal. Alguma hora eu tinha que ficar bem. Aconteceu ontem, depois que fui ao boxe, após quase um mês sem treinar. O boxe mantém minha sanidade. Sem o boxe, eu fico doente. É certeza.

Meu treinador me viu chegar, parou de treinar um cara que ele estava fazendo “pára-mão” e me perguntou se eu estava bem, se estava tudo bem. Eu não respondi, apenas rolaram lágrimas dos meus olhos. Comecei a enrolar as faixas em volta das mãos. A vontade de bater titubeava entre voltar com toda a ira do universo e toda a fraqueza que eu andei carregando aqui dentro.

Então ele segurou minhas mãos enfaixadas, prontas pro treino. E olhou nos meus olhos. E com seu jeito simples, me disse que eu era muito mais do que eu aparentemente supunha. E que ela era só uma malandra curtindo comigo.

- Ela não “malandreô” o namorado c´ocê? Ocê acha que se ocês ficarem juntos ela não vai te malandreá também? Ocê num tá desse jeito por causa dela. Ocê tá desse jeito por causa da sua separação, da perda da famíia, de ficá longe das fia que ocê tava junto todo dia. Ocê não tem o direito de ficá mal por causa dessa moça. Eu via ela aqui nos treino. Ela é matuta, é malandra. Tava só de curtição cocê.

Eu não respondia nada. Ficava pensando na sabedoria do meu treinador, que me fez entender como ninguém tudo isso. As coisas geralmente são mais simples do que aparentam.

- Ora, ocê tem duas fia linda! Ocê, um advogado, respeitado pelas autoridade, bataiador, forte que nem um tôro. Ocê trate de vortá a treiná direito e vê se isquece isso logo di veiz!”

-Desculpa, negão. Eu sei que tô pisando na bola com você e o treino.

- Óia aqui! Ocê tá sozinho agora! Tem que cuidá da sua vida! Isso daí vai passá qui nem água. Essa moça num tem noção de quem ela perdeu. Quem vai ficá triste no fim das conta é ela, não ocê. Ocê vai vê só. Agora ocê vai lá no ringue, aquece um poco e dispois vai lá na borsa mais pesada. Faiz só um round, mais cum vontade! “Sorta os gorpe”!

Nem precisava pedir, cara. Nem precisava pedir. De repente, tudo ficou claro. Foi tudo fruto de uma carência dos infernos. Estirpei toda a mágoa que me assolava naquela hora na bolsa (saco de pancada – um de 120 kilos, duro como pedra). Eu bati, e bati, e bati. Cada golpe parecia prever um mais forte. Minhas mãos não doíam, logo, não havia limite algum. Era tudo o que eu precisava constatar. Eu era (quase) eu de novo.

- Trinta segundos! - o Galo, o outro treinador, gritou, avisando o tempo que faltava pra terminar o round na bolsa. A ira veio mais forte. Eu tinha que bater mais forte. Eu tinha que bater mais rápido.

- Í é Teeeemmpoooo!!!

Meu abdômem se contorceu. Não liguei, continuei em pé, resfolegando. Quase um mês sem treinar. E fumando quase um maço de cigarros por dia. Ignorei também a falta de fôlego. E fui pro pára-mão. O equilíbrio das pernas não era o mesmo, o habitual, tampouco a rapidez. Incrível o que se perde em um mês sem treinamento. Ignorei isso também. A sede era grande. Mas, é claro, não teve luva (luta com sparring). Provavelmente ficarei um tempo privado disso, como um cão preso e sem comida que de repente é solto na arena com outro cão. Isso é a sede a que já me referi aqui, em outro post.

Eu mesmo atrapalhei meu caminho. Eu mesmo pus a pedra no sapato e me recusei a andar, reclamando de dor. Mas lá no quadrilátero, naquele espaço apertado do ringue escuro, da academia quente e mal ventilada, é onde eu me entendo, é onde eu entendo que jogar a toalha nunca vai ser uma opção em minha vida. Eu só preciso dessa essência, que eu nunca aceitei deixar de lado, pra continuar.

O treino acabou. Meu treinador teve de sair, e eu fiquei com o Galo, tomando um chimarrão.

- Nossa, ocê suô feito doido hoje, hein piá?

- Tô há muito tempo sem treinar, Galo.

- Num pode, piá. Ocê precisa disso aqui. E todo mundo sente sua farta. O negão tava triste, achando que ocê tinha abandonado o boxe. Ele credita muito nocê.

Acho que não tenho mais nada pra dizer.

Fui.

19.11.07

Às vezes é difícil aceitar um recomeço, principalmente quando você não se dá conta de que se trata, mesmo, de um recomeço.

Você se sente pequeno. Mas é porque acabou de nascer. Daí você readquire a consciência, e começa a crescer outra vez. É dolorido, como todo crescimento dói um pouco. Necessário, ou, quiçá, para melhor? Só o tempo dirá.

Mas o recomeço está aí. Estou sozinho agora. Rodeado de coisas novas acontecendo em minha vida, atestando o recomeço que eu não queria enxergar. Bem, finalmente consegui.

Não me interessa o fim da caminhada. Não quero saber do que existe do outro lado do muro que limita a vida. A briga é aqui e agora, desse lado.

No entanto, não me sinto pronto. Mas tampouco aqui existe algum covarde. As marcas de minha coragem vem estampadas em meu peito ferido. Mas elas estão aí só pra provar que eu ainda estou vivo.

Eu faço parte do pequeno grupo de homens que se recusam a continuar mentindo a si mesmos. Busco-me dentro de mim: insensato e louco, sonho. E dia desses ainda me encontro.

26.10.07

Insight nº 2

Eu quero ter valor para as pessoas. Cansei dessa dualidade mundana onde, de um lado, todo mundo corre atrás de aprovação, e de outro lado, todo mundo se gaba em afirmar que não se importa com a opinião dos outros.

Eu quero ter valor para as pessoas. Não consigo ter atitudes tão diametralmente opostas.Nunca consegui. Então percebi que nesses últimos anos, a escolha foi cagar e andar mesmo: nem correr atrás de aprovação e nem me importar com a opinião dos outros. Seria ótimo se isso não fosse um mero mecanismo de defesa pra manter todo mundo afastado de mim, e por quê? A ironia é essa mesma: por medo de me decepcionar com os outros também.

Eu quero ter valor para as pessoas. As pessoas são superficiais, os relacionamentos são superficiais e baseados não mais nos sentimentos, mas num jogo onde vence quem consegue desprezar mais o outro. Demonstrar que não se importa é sinal de força hoje em dia. Ganha-se o respeito alheio quando se demonstra auto-suficiência o bastante pra ignorar todo mundo. Muita gente acha lindo aquele ar de desprezo que disfarça muito bem uma baixa auto-estima.

Eu quero ter valor para as pessoas. Também não sei se aquele pensamento cristão de que “você tem que se amar primeiro se quiser ser amado” (ame ao próximo como a si mesmo) é mesmo correto. Querer ter valor para as pessoas implica em valorizá-las. E valorizando o outro eu também sinto que tenho valor, ainda mais nesse mundo besta de hoje em dia, onde a regra geral é tocar o foda-se.

Tenho um pouco de receio de tantas idéias revolucionárias em minha mente perturbada, porque não sei se consigo estruturar tantos pensamentos e me readaptar na mesma velocidade. Mas tem que haver um ponto de equilíbrio nesse mar de emoções. E eu vou até o inferno pra encontrá-lo se for preciso.

Fé. Disciplina. Coragem. E valor.

Fui.

19.10.07

The Bipolar Order

O sujeito tem doença bipolar e declarando-se inválido, obtém benefício previdenciário e fica “encostado”, como gostam de se referir os beneficiários desse tipo de pensão. Ele não se trata direito, logo, tem várias crises e afinal percebe que o melhor a fazer é preservar-se doente. Depois vem seus familiares e amigos e dizem que isso não existe, que doença bipolar é frescura. Ele, claro, não aceita ouvir isso. Sente-se orgulhoso de sua mente criativa, de seu humor instável, de ser o cara que anima as festas, e depois não se sente muito feliz em afastar as pessoas com o efeito rebote do uso desmedido de bebidas, drogas ou o que for que ele utilize como expediente para manter-se aceitável a si mesmo. Mas aí ele atribui a culpa à ignorância dos que lhe são próximos sobre seu estado de doença.

Outro, com a mesma doença, levanta-se de manhã, em meio a uma crise depressiva e vai trabalhar, a muito custo e contragosto. Ele sente a limitação própria da doença, mas atribui a si a culpa dessa limitação. Ele toma os medicamentos prescritos religiosamente, não abusa de bebidas alcoólicas, na verdade, já está longe dos destilados há mais de ano. Não achou ainda o medicamento perfeito, aquele que estabiliza o humor sem efeitos colaterais indesejáveis. Pratica exercícios físicos regularmente, preocupa-se com o equilíbrio, não se sente um desafortunado por conta da doença, mas vê na doença uma forma de auto-conhecimento, um caminho das pedras para o que ele espera seja uma vida de aprendizado. E também ouve dos amigos e das pessoas próximas a ele que essa doença é frescura, que isso não existe. Mas ele não se abala, ele se preocupa em entender a doença e suas crises, em controlar o incontrolável e sente algum progresso. Ele sabe que perdeu muito com o tratamento, muito daquele humor, daquela euforia, daquela energia, daquele raciocínio criativo maravilhoso. Mas ele sabe que isso faz parte, e que o preço é muito alto se ele quiser se manter sem tratamento só pra se sentir especial. Sabe que a vida, a sua vida, como a vida de todo mundo, bipolar ou não, é a soma de suas escolhas. E ele não se resigna em declinar das próprias.

O primeiro sujeito sonha com uma vida que não lhe parece possível. O segundo sujeito quer às vezes desistir, e aí, dane-se se ele for um peso morto, a sociedade que o despreza por conta de sua doença que o sustente. Bem, talvez isso funcione também na mente do primeiro sujeito.

Mas em qual das situações você se encaixa? Sim, porque você pode tirar proveito das duas situações, ambas tem suas vantagens, você não é nenhum meta-humano, nenhum mutante, e não tem que se esforçar acima das pessoas “normais”, então, pra que se comparar a elas e tentar levar uma vida igual, coisa que você sabe que nunca irá conseguir? Os outros estão errados mesmo, em nenhuma das situações acima descritas a doença é inexistente. E você vai se arriscar e vai sofrer do mesmo jeito, então, qual a sua escolha? Que tipo de vida você quer levar?

Agora, dois desafios, à sua escolha: O primeiro: Não se trate mais - e tente sentir o equilíbrio que você tanto inveja nas pessoas “normais” que tanto te criticam. O segundo: Trate-se e tente sentir a alegria eufórica de um bipolar não tratado, ou, tratando-se, chore e tente sentir a mesma tristeza de um bipolar que não toma os medicamentos (essa tristeza, por mais incompreensível que seja aos normais que tanto invejamos, faz falta a quem está acostumado a descer ao inferno). Perceba que nos dois casos, você não vai conseguir nem chegar perto dos objetivos propostos. Perceba, que sim, você é limitado mesmo, em comparação com essas maravilhosas pessoas normais que estão detonando com o mundo todo, esses bipolares normais que não sabem o que querem, que não sabem o que buscam, e que assim mesmo continuam buscando uma felicidade que não existe da forma que eles acreditam. Perceba, com isso, o quanto eles também são limitados, talvez até mais. Sinta-se fazendo parte, mas não espere compreendê-los, e não espere que eles compreendam você. Note, que com tantas diferenças entre você e eles, tudo de que ambos precisam é amor. Só amor.

Então, se você escolher se tratar, esteja preparado para perder um pouco do brilho, prepare-se para trocar um pouco do brilho por um pouco de amor – além, é claro, de um tratamento correto, que muitas vezes é a maior prova de amor que você pode dar a quem lhe interessa, porque, verdade seja dita, um tratamento correto poupa mais os outros do que você mesmo. Se a renúncia faz parte do amor, o que você ainda está esperando? Seja bem vindo ao segundo time.

E se você não quer se tratar mesmo, esteja preparado para aceitar não ser aceito, e, mesmo que seja aceito, não se aceitar de nenhum jeito. Saiba que seu destino está nas mãos de um cérebro quimicamente desequilibrado e fora de controle. Pule de cabeça (no bom sentido, não no suicida, por favor), viva a sua vida de forma louca e livre. Entre pra história (talvez), preserve seus dons e em hipótese alguma se permita culpar por sua doença. Ao invés disso, culpe sua escolha. Com a doença, aprenda. Entenda o que ela tem a te ensinar sobre a vida e as pessoas e os julgamentos errados e suas conseqüências. Leia muito, aproveite seu potencial físico, de um físico que parece nunca se cansar, que parece ter aquele combustível maníaco extra que vai além do fôlego atlético. Encare sua depressão com naturalidade e nunca se esqueça de que sempre passa – para voltar outra vez, sempre. Então aprenda a ter paciência e não duvidar da existência do amanhã. Permita o amanhã em sua vida. Aceite seu ciclo natural de altos e baixos.

Sei lá. Seja como for, procure amar aceitando-se em primeiro lugar. Procure querer o bem a quem, a qualquer um, porque essa é a contrapartida, a forma de amenizar os delírios paranóides que alguns bipolares sentem. E pare de culpar sua doença. Isso é o mais importante. Eu, como leigo bipolar, acho. E partilho, porque eu sinto muito pela sua dor, eu sinto muito em minha própria carne, eu sinto que aprendi a me sentir bem melhor, ainda que sentindo dor, eu sinto que me sinto melhor aceitando, me preocupando comigo, e com o outro. Sou bipolar, não canalha.

E a você que não é bipolar, digo isso também: aceite, cara. Nós existimos sim, e temos que conviver com vocês tanto quanto vocês conosco. E não somos lá muito diferentes: aceitamos e rejeitamos as mesmas coisas.

Já chega de tanto desamor nesse mundo. Já chega de tanto ódio, chega de dor.

Fui


9.10.07

Navegação de sabotagem

Adoro escrever. O problema é que adoro isso mais do que ler. Isso, a propósito, é um dilema enorme pra mim. De um lado eu imagino que a leitura para quem gosta de escrever induz ao plágio. Esse pensamento sabota e muito as oportunidades de leitura. E de outro, eu penso que escreveria melhor se lesse mais. Mas não sou escritor, e este pensamento me sabota muito também.

Talvez eu devesse parar de escrever e ficar de castigo, só lendo. Mas esse pensamento então...

Fico pensando se existem escritores de verdade que sofrem ou sofreram esse dilema em suas vidas, mas como eu não leio muito, vai ser difícil descobrir.

Bem, um pensamento que não sabota as oportunidades de ler é que sempre é tempo de renovar os próprios prazeres, não? Então é melhor eu aproveitar a fase. Isso sem falar que eu ando muito reflexivo ultimamente, o que ajuda muito a escrever. Mas resolvi arriscar um livro e ali estava escrito que ficar reflexivo não é muito bom.

Puta que o pariu. É difícil gostar de aprender a ler. É difícil encontrar quem, ao mesmo tempo, descreva de maneira deliciosa (como Jorge Amado, por exemplo) a situação de que fala, e além disso, que o assunto ou a história, ou a estória retratada simplesmente interesse, desperte a curiosidade, do início ao fim.

Porque minha alma me faz ler pouco e adivinhar muito sobre o que foi lido, e isso atrapalha a continuidade do que leio. Eu tenho a incrível e triste capacidade de interromper o escritor que já escreveu.

Fui.

2.10.07

Mal, bem mal mesmo. Situação horrível a que entrei. Coisa de desespero diante da solidão, ou não, sei lá. Pode-se enlouquecer assim, mas isso não me preocupa, que eu já sou louco mesmo. Tomara que não fique mais. Não quero contar aqui ainda. Deixa rolar mais pra ver até onde vai. Mas minha dúvida é sobre o enfrentamento. Quem usa a razão é mais feliz? A razão me diz pra me ocupar de muitas coisas que me dêem prazer até que eu vá esquecendo, ao invés de entrar na dor e levar o momento de forma muito reflexiva, como eu, esse poço fundo de emoção, costumo fazer, achando ainda que isso é experiência de vida, que assim fico mais forte, e blá, blá, blá. E eu fico na dúvida sobre como devo proceder diante desse impasse que não depende mais de mim.

Daí razão diz: não depende mais de mim, então pra que me preocupar? Hahaha! Teoricamente é bem simples.

Ah,, o maldito passar das horas! Dá vontade de me entupir de tranqüilizantes, dormir umas duas semanas direto, até ver um indício de resultado do que me atormenta a alma como há muitos anos não me acontecia. Mas não tomo mais tranqüilizantes, não tenho e não quero pedir receita pra Adriana. Penso que devo mesmo entrar na dor, como um pugilista bem preparado faria. E lá estou eu provavelmente sabotando minha felicidade em troca de dor, mais dor, que é o que sinto lá dentro, me apertando o peito muito forte mesmo. Maldita dor que atrapalha qualquer decisão sóbria.

Tô desabafando aqui. Não sei com quem conversar a respeito, então não converso, vomito aqui e deixo as coisas assim mesmo, suspensas. Criatividade zero, freios puxados em quase tudo. Só posso me ocupar do trabalho, que esse não tem como largar. Boxe? Posso ser morto nessa brincadeira. Parabéns, inconsciente. Você está me vencendo mais uma vez. Mas ainda não entreguei os pontos, e nem vou.

26.9.07

Morra, Smoochi, morra!!!


"O inconsciente define um complexo psíquico (conjunto de fatos e processos psíquicos) de natureza praticamente insondável, misteriosa, obscura, de onde brotariam as paixões, o medo, a criatividade e a própria vida e morte". (fonte - wikipédia).

Não falei? Insondável, misterioso, obscuro, de onde nasce o medo? Grandissíssimo filho da puta. Morra, desgraçado, morra! Pare de tentar me sabotar!

A propósito: Score:
segunda: inconsciente 1x eu 0
Terça: eu 1 x inconsciente 0
quarta: tá rolando ainda. Mas tudo indica que vai dar eu na cabeça de novo.

P.S.: como você vê, Fred, nada mudou. Nada mesmo. Grato pelo post.

Fui.

25.9.07

Morte ao inconsciente!


Não entendo de psicologia, e me perdoe se eu falar merda. Mas às vezes a ignorância oportuniza perceber e sentir pelas próprias mãos, sem precisar se sentir plagiando eternamente tudo. Então, certo ou errado sobre os conceitos, escrevo o que penso a respeito do que nem quis saber de ler:

Eu vejo meu inconsciente como um herói grande, forte e bem burro, que parou de aprender na infância e segue com os mesmos modelos aprendidos, tentando me proteger e só me fodendo o tempo todo. Vejo meu inconsciente como meu inimigo mortal, do pior tipo, que a pretexto de me proteger, só faz me manter infeliz. Não tem como matá-lo de pancada sem morrer também. Então eu tenho que dobrá-lo como um bom advogado, e estou arquitetando meu plano infalível pra que isso aconteça e esse cara grande, forte e bem burro se torne meu aliado.

E na seqüência terrível dos eventos que venho passando nessas duas últimas semanas, e que não relatei nesse blog, já descobri a primeira arma pra derrotar esse maldito ser que habita dentro de mim: Eu aceito ser feliz.

É isso. Eu aceito ser feliz. Não, não é algo tão simples assim. Essa afirmação é apenas a síntese do raciocínio, aquela frase que liga os motores e não me deixa cair no esquecimento, esse esquecimento que é uma das maiores armas do meu inconsciente pra me manter no mesmo “porto seguro” de sempre.

Eu aceito ser feliz. Na minha infância eu era severamente punido por um pai (principalmente) e por uma mãe (cúmplice do pai) toda vez que eu demonstrava estar feliz. Sabe aqueles rompantes de alegria, euforia e criatividade que as crianças tanto têm em suas vidas e que tanto recebem a aprovação dos pais e de quem mais as assiste? Pois é, só pra exemplificar, rapidamente, teve uma vez que me lembro estar imitando um personagem de programa humorístico, e tentando mostrar minha teatral performance ao meu pai. Levei um bofete na cara e uma ordem: Cala a boca! E em diversos momentos eu fui castrado, muitas das vezes quando nada de errado havia que não fosse a própria frustração que acompanhava um pai que deve ter sofrido o mesmo na mão de seu pai, se não pior. Isso, além das promessas não cumpridas, em torno das excelentes notas que eu tinha nos meus primeiros anos escolares, e que caíram vertiginosamente, principalmente com a mudança para o interior de São Paulo, numa escola maldita onde eu era vítima de bulling, e tinha apenas amigos de uma série anterior à minha e nenhum apoio dos meus pais pra me ajudar a resolver esse problema, tudo me fazendo sentir o menos importante dos seres pra eles. Tá piegas, eu tô parecendo me fazer de vítima? Você tá lendo e achando isso? Foda-se.

O importante é o que eu aprendi com tudo isso. E vou dizer o que aprendi. Eu aprendi a me punir toda vez que percebia que algo ia dar certo. Eu sempre procurei evitar ser muito feliz pra não apanhar tanto assim da vida em troca. E desse tipo de comportamento-padrão (porque vira um padrão ao longo dos anos) podem surgir as mais bizarras meta-mensagens, do tipo:

- A dor será maior quanto mais feliz eu estiver.

- Desista antes que as coisas (que estão dando certo) comecem a dar errado.

Ah, sim, a pieguice que acompanha esse texto tem o mesmo sentido, na verdade: auto-piedade como forma de se sentir amado é uma das inúmeras e infalíveis armas do estúpido inconsciente pra obter amor e aprovação, sem precisar sair do mesmo lugar odioso e aparentemente seguro que esse tipo de sentimento propicia: uma vida vivida pela metade, sem uma felicidade plena. Outro exemplo? Eu não sou rejeitado, mas tento o tempo todo, principalmente com uma postura bem agressiva e intimidadora afastar as pessoas só pra me sentir seguro de que se eu não estiver muito feliz, também não serei muito punido.

Só que no final de semana que se passou eu resolvi enfrentar o problema. Eu resolvi descer ao inferno, ver até onde o sofrimento era possível de se suportar, aproveitar a crise depressiva, e outro problema que venho enfrentando e que não cabe relatar aqui, mas que vinha me deixando muito triste mesmo, até a situação de solidão, amargura, depressão com um misto de mania, falta de vontade de comer, pensamentos suicidas e tudo o que mais acompanha um bipolar em crise. Eu deixei vir tudo o que de ruim existe dentro de mim, sem recuar, sem fugir, sem amenizar, até que fui obrigado a admitir a mim mesmo que meu comportamento-padrão de auto-sabotagem da felicidade não deu, não dá e nunca dará certo. Finalmente eu entendi na carne o que é viver uma vida cheia de ilusões, e é viver exatamente como eu vivi desde a infância, até agora.

“As coisas querem dar certo pra vc, mas vc não deixa”, me diz um amigo que vai em casa no sábado tentar me tirar de lá quase que a força, sem compreender como era possível que eu quisesse ficar lá quieto, diante do problema que venho enfrentando e do meu até então visível estado depressivo. Mas é claro que ele estava certo. Eu simplesmente não aceito ser feliz. É claro que eu vivo uma vida pela metade sendo assim, é claro que eu tenho o tempo todo essa sensação de que a vida nunca será completa, é claro que eu carrego essa insatisfação em viver por sentir que não existe nada nem perto de uma felicidade plena.

É claro que eu não vou me aproximar de uma mulher bem bonita, porque se eu levar um fora, será uma situação insuportável de rejeição, onde tudo em meu corpo me dirá que eu nunca mais deveria fazer isso de novo. É claro que eu não vou fazer de tudo pra ganhar dinheiro em meu trabalho, porque podem me queimar, posso passar por uma crise financeira e sofrer muito por saber que se eu dei tudo de mim e se não consegui, como será daqui pra frente? É claro que eu não vou dar tudo de mim nos treinos de boxe, assim, quando eu perder o campeonato, vai ser bem mais fácil digerir, e ninguém vai poder dizer que não tentei. É claro que eu me saboto pra estudar, eu já percebi que o conhecimento me traz muita felicidade! É claro que eu não curto ler, pois sei que com isso eu escreveria muito melhor!

E é claro que da mesma forma que meu pai e por tabela minha mãe fizeram isso comigo, porque fizeram com eles, eu também vou passar adiante. E é claro que eu já estou fazendo isso com minha filha mais velha, de quatro anos de idade. Eu a corto quando a vejo muito feliz, porque também não quero que ela sofra como eu!

Parei de escrever e chorei. Dá tempo de consertar as coisas ainda. Não vou permitir que minhas filhas sofram o mesmo e passem adiante. Esse maldito ciclo termina aqui! Eu aceito ser feliz. Tenho a obrigação de ser feliz! Tenho os dons que Deus me deu, esse mesmo Deus que me iluminou, numa das piores crises que eu tive, e que me mostrou que minha doença não é nada perto do Seu poder.

Lamento por você, ó inconsciente grande e burro, você já começou a perder. As coisas foram para o plano do consciente, fora do seu domínio. Eu sei que você vai lutar com tudo o que tem pra ver se eu volto para onde estava antes de perceber isso. Lute, seu filho da puta! Lute mesmo! Vamos travar uma batalha eterna, dia após dia, após dia, após dia. E no final, no balanço da semana, no mínimo, você vai perder. E no do final da vida também!

Serei feliz, e não serei punido por isso. Parece-me bem óbvio que agora é preciso mais coragem pra ser feliz do que pra continuar no mesmo estado. E eu sempre amei a coragem.

21.9.07

Outras guerras

Em fevereiro de 2008 eu vou disputar um campeonato estadual de boxe amador estreante peso-pesado (até 91 kg). Devo lutar com algum moleque de 22 anos, 1,90 e 91 kg. Meu peso varia muito, mas atualmente é 95 kg, em 1,85 m de altura. Há 06 meses era 106, mas eu pus na cabeça desde o começo que queria disputar um campeonato de boxe ainda nesta vida. Essa é uma das poucas coisas que me vejo fazendo por mim e somente por mim.

Trinta e cinco anos. Não é sobre tudo que dá pra dizer que ainda resta tempo. Como no boxe não tem categoria sênior (é por peso, que varia nas categorias amador e profissional), é melhor aproveitar agora e fazer logo isso de uma vez. Trinta e cinco anos. Vai dar quase um ano de treinamento pra participar sem ao menos ser morto. Não tenho tanta vontade de vencer, mas tenho vontade de ficar em pé até o final. Saber que eu suporto, sem medo de levar pancada, os pés plantados, ou fazendo um jogo rápido de pernas (disso depende muito estar em muito boa forma).

Essa do boxe parece historia de filme. Na estrada que chega na cidade onde moro tem uma academia ao lado de uma boate. E é dessas boates mesmo. O dono é o professor de boxe, e não mistura os empreendimentos, nem deixa os alunos misturarem, enquanto ali treinam quase que só caras que querem lutar em campeonatos. É surreal. O professor é um negro, careca, de cavanhaque e muito forte, da minha categoria de peso. O outro treinador é peso-galo, tem também um sparring peso pesado que faz luvas (luta) comigo uma vez ao mês, mais ou menos. Agora e até o campeonato vamos nos ver um pouco mais. Mas falando do lugar: Por incrível que pareça, bem ao lado de uma boate, uma verdadeira academia, com ringue, várias bolsas (sacos de pancada) de vários tamanhos, pesos e colocadas em alturas diferentes. Push-ball, teto-solo, pneu de caminhão no chão. Quem treina sabe pra que serve. Mas quem treina e lê isso aqui? Um ringue improvisado, com cordas e chão de madeira com molas, pra amaciar uma eventual, mas certeira queda. Videocassete antigo reprisando grandes lutas antigas, do tempo em que pugilista não era atleta, era gladiador. O nome da academia? “Mão-de-ferro”, o óbvio ululante em minhas mãos calejadas nos punhos, de tanto bater, bater e bater. Possível pseudoartrose em alguns anos. Trinta e cinco anos. É agora ou nunca mais. Uma chance apenas. Se eu subir lá e amarelar, nunca vou me perdoar. Subiu ali não tem volta. É ganhar ou perder. É trocar socos, é sentir o sangue escorrendo e achar (porque nem dá tempo de olhar pra baixo) que não é sangue, mas uma sinusite de andar de moto que tá descendo pelo nariz como quando tomo uma pancada mais fraca no rosto ou no nariz. É ver o sangue nos segundos fora e ao invés de amarelar, ficar com sede. Ver que tem um cara do meu tamanho querendo me matar e estar ali, em igualdades de condições e a reação depender apenas de tranqüilidade. E do tamanho da sede.

Ah, a sede. Treino de boxe é foda. Sempre o mesmo treino: três por um. O tempo entre rounds, três por um. Então eu chego, são cinco rounds de corda, três rounds de “escola” (o treinador com uma luva para absorver golpes, chamada pára-mão), daí vem as luvas (três rounds pra valer), daí as bolsas, dois rounds em cada – 10 rounds, daí dois rounds no teto-solo, dois no push-ball , seguido de uma fortíssima seqüência de abdominais. Mas a cada dia parece diferente, eu sinto meu estado físico e emocional claramente num treino de boxe. A melhor terapia que já fiz. Coisa de uma hora e meia a duas, um a dois quilos perdidos em cada aula. Onze quilos em seis meses. Quem treina boxe pra lutar não se preocupa em perder peso por razões estéticas, mas por sobrevivência. Acima de 91 kg, no amador, eu lutaria no super-pesado. Aí não sei se dava pra arriscar.

Acho que Tyson também era bipolar, só que não se tratava. Penso em deixar de tomar meu remédio uns dez dias antes de lutar. Vou chegar babando no ringue. Trinta e cinco anos. Corro quinze quilômetros sem parar pra andar. Até 100 kg eu perdi de forma bem saudável, só treinando, sem precisar me preocupar em reduzir a feijoada, a churrascada, a cerveja e a comida campeira. Só parei de fumar e cortei qualquer tipo de bebida que não fosse cerveja e vinho, mas bebo com bastante moderação. Não dá pra abusar de bebida quando se tem doença bipolar, porque o efeito rebote é grande: quase a certeza de uma crise maníaca, depressiva ou mista. Os socos no fígado também contam. Não conseguiram quebrar meu nariz ainda. Os últimos cinco quilos eu perdi com o estresse pós-separação. Tá valendo tb. Faltam 04 quilos, mas é moleza perder até lá.

Talvez eu esteja errado, isso é coisa de moleque, passei da idade. Mas eu tenho só essa vida, até onde conseguiram provar. E como um pugilista sempre faz, eu coloquei isso na cabeça e não dá pra tirar enquanto eu não fizer. Trina e cinco anos. Em março/08 farei 36. Em fevereiro eu luto. Imagino o turbilhão de emoções que eu vou experimentar ao subir no ringue. Só sei de uma coisa: se eu suportar os golpes do outro cara, ele vai ter sérios problemas. E eu consigo ainda pensar em pena, e em não machucar muito o cara que nem conheço. Só sendo eu mesmo pra me entender. E olhe lá.

12.9.07

Separação

Corte o vínculo. Não se envolva com ninguém durante x limite de tempo. Mantenha o vínculo com suas filhas. Seja amigo da ex. Aprenda a suportar a solidão sozinho. Faça amigos. Abra novos contatos. Lembre-se que não existe nenhuma rede de segurança embaixo. Não fique deprimido. Não caia. Não saia. Arrume a casa nova. Aprenda a lavar roupa. Mantenha um mínimo de organização. Pague a pensão em dia. Não se atrase para o trabalho. E bem vindo ao feliz clube dos separados.

Porra, dá pra tirar de letra.

Fui.

30.8.07

Separação


Não é só a falsa ilusão de liberdade. Como escreveu Jorge Amado (Mar Morto) "a tempestade é a falsa noite", eu digo que a separação é a falsa liberdade, ao menos no começo.

Voltar a viver sozinho, depois de um relacionamento razoavelmente longo, dá a sensação de perda, somada à sensação de regressão a um estado que parecia inferior ao do casamento. É deprimente, querendo ou não, e quem passa por isso tem que estar pronto a se permitir sentir na pele esse sofrimento, com a certeza que vai passar, afinal, enfrentar os revezes de um casamento tb não é fácil, então, qualquer coisa enfrenta-se.

Mas a tentação de já querer entrar em outra é grande, porque ninguém quer sofrer, e solidão implica em algum sofrimento. Tomara que só no começo, onde me encontro atualmente, meio abobado, meio perdido.

Mas o que mais me doi é a mais completa descrença no amor. Hoje, se alguém muito apaixonado me perguntar, eu diria que todos os relacionamentos invariavelmente se tornam iguais com o tempo.

E por tudo isso... eu preciso dar um tempo pro coração.

28.8.07

Tristeza

Tente separar a tristeza meramente situacional daquela que vem do seu desequilíbrio químico, seu louco! Tente separar pra ver o próprio desequilíbrio químico acontecendo. E depois tente responder aquela do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro? Tristeza ou depressão?

Comigo aconteceu, comigo foi assim. Eu me separei da Adriana. Acabou? Não sei, só sei que por enquanto sim. Desequilíbrio químico ou não, coisa de momento, infelicidade passageira, sei lá. Está tudo quieto agora. Tudo suspenso. O mundo parou, o tempo do corpo é outro. Tristeza para a felicidade? Será? Descrença no amor? Será?

Será vaidade? Essa aí está sempre motivando o ser humano. A gente diz que é necessidade de aprovação, mas necessidade de aprovação pra quê? Pra vaidade fluir e eu não sentir meu próprio cheiro, que só se mantém aceitável porque meu corpo - acredita-se - esteja vivo ainda?

Porra de vaidade, que me faz editar meus textos e me perguntar, até numa hora dessas, se ficaram bons. Mas e se tirar a vaidade, o que sobra do ser humano?

Não quero falar disso. Eu sou um idiota, ela é admirável, minhas filhas são lindas e eu tinha uma boa vida a seu lado. "Não estou feliz", eu disse. E desde quando eu, essa química cerebral perturbada ambulante, posso me dar o direito de conceituar felicidade?

Não estou feliz? Será que errei o verbo? "Não sou feliz, mas contava com sua ajuda pra mudar isso". Assim melhora? Não, assim a falha passa a ser dela. E não foi. "Mea culpa" agora? Eu mereço morrer queimado, que deve ser o pior jeito.

Acho que fiz merda. Ela não chorou, não na minha frente. Eu não levei nada, mas ela ainda me emprestou e eu fiquei chorando. Vaidade e culpa.

Agora olhe para o seu espelho e diga que eu sou um filho da puta.

Fui.

20.8.07

Redução da maioridade penal pra quê?

Bem, tem as palestras a respeito do importantíssimo tema, que dão uma boa grana pra quem as ministra. Tem os políticos furtivos que distraem o povo dos mensalões e mensalinhos com debates sem nexo como esse no horário nobre, mas nisso o apagão aéreo já está dando um jeito. Aliás, na última tragédia em Congonhas eu fiquei imaginando como é que a Marta recebeu a notícia do acidente após seu infeliz “relaxe e goze”, mas agora eu sei que ela não se afetou tanto assim, já que ela é a melhor cotada pra ser candidata na próxima eleição pra prefeito de São Paulo. Já o Renan Calheiros deve ter se sentido aliviado por um tempo.

Então, sem distrair o povo do nobre debate sobre a maioridade penal, vamos logo acabar com essa chatice:

Não se pode esquecer que nossa legislação já permite a punição do menor infrator a partir de 12 anos de idade, com penas – chamadas de medidas sócio-educativas - que variam desde a penalidade máxima (internação em “estabelecimento educacional”, que é como a prisão: não educa nem ressocializa ninguém) até a mínima que é advertência. E tudo após o devido processo legal.

Acontece que na nossa legislação uma internação (a pena máxima) não pode ultrapassar três anos. Aí acontecem situações como a do menor Champinha, que tem um problema mental, e não é um problema mental qualquer. O garoto é um sociopata, que bem ao contrário dos maníacos depressivos não tem sentimentos em relação a praticamente nada. Ele tem de ser isolado do convívio social, mas é por conta da condição mental dele.

Por isso eu acho que o problema não é legislação. É aplicação da legislação em vigor visando o bem-estar social. Porque naquelas situações onde o infeliz vai roubar pra sustentar o vício em crack, dizer pra esse adolescente, vamos imaginar, de uns 14 anos de idade, que ele não vai ter outra chance em sua vida miserável também é uma enorme covardia.

A situação é essa, nem mais, nem menos. É uma pena que os políticos que decidem o futuro do país estejam muitas vezes mais preocupados em alardear e tripudiar em cima de uma situação para fugir de outra, do que com o futuro dos jovens. Mas o falido sistema educacional do país já serve na verdade pra mostrar o quanto eles se importam.

Será que uma educação decente contribui pra diminuir a criminalidade de um país? Taí outra chuva no molhado, já que aqui onde eu moro tem professor do ensino fundamental que fala “ponhá”. E ainda se justifica dizendo que é do verbo “ponhar”. É “relaxá, ponhá e gozá”. E tudo na sua cara, ó nobre povo brasileiro.

Fui.

Auto-ajuda, é?

Blog é a auto-análise da era da informação, onde tudo parece tão efêmero que eu me pergunto se esses registros ainda se perderão no tempo, como grande parte da história mundial soterrada ou intencionalmente escondida pelas hábeis mãos de corporações como a igreja católica.

Tomara que a era da informação dure o suficiente para que toda a inutilidade que brota de meu cérebro insano seja um dia resgatada num disquete de algum cristal alienígena, daqui a uns 100.000.000 de anos ou por aí, quando o planeta finalmente estiver a salvo do homem já extinto e seres de outro planeta, geralmente não muito atraentes sexualmente, descubram, registrem a patente e coloquem nos lançamentos de suas locadoras de cristais líquidos. Porque se isso não acontecer, não sei como vou lidar com meu fracasso pessoal de não ter sido ninguém nem enquanto estou vivo.

(Se você leu a sentença acima e percebeu de cara traços de baixa auto-estima, parabéns. Se não, fique tranqüilo, você provavelmente é mais uma pessoa que se sente uma fraude. Tudo o que eu posso dizer é que se você se sente assim, pode apostar que não está sozinho).

Mas enquanto o vazio total não vem, na forma daquela depressão camarada, que eu tanto adoro, e na falta que me faz saber que contribuí com algo de muito significativo para a história que um dia será perdida, eu amadureço, observando o mundo e observando como essa doença me trouxe várias visões diferentes que se complementam. A doença me permitiu uma acurada auto-análise, onde eu pude me treinar a perceber e antecipar a bomba de cada crise de mania, tornando possível, na maioria das vezes, evitar danos maiores às pessoas que convivem comigo e a mim mesmo. E na depressão, aprender a colher qualquer coisa boa que acabe acontecendo no meio da crise e insistir na idéia do benefício com o que quer de bom que ainda esteja pra vir.

Mas falemos de mania. A mania, como é da mania, é a falsa ou sincera (pouco importa) sensação de que eu sou forte pra cacete. Ninguém me agüenta maníaco, nem eu mesmo. Já as perigosas idéias suicidas dos vatos locos bipolares vem geralmente nas crises depressivas, e todo mundo adora se sentir bem dando aquela força e fazendo aquele trabalho social com os doentes mentais que convenhamos, são muitos. Hoje até já se fala em espectro bipolar, tamanha a variedade de níveis de intensidade da doença nas pessoas acometidas e a crescente inabilidade da medicina pra lidar com elas.

Mas como eu consegui isso? Como eu aprendi a identificar a crise maníaca se formando e, principalmente, antecipar o dano?

Lá vai a primeira dica: ninguém no mundo conhece sua doença como você mesmo. Você, bipolar, sabe do que eu estou falando. Você sabe quais são os sintomas. É fato que, não importa se vc é do tipo I, II, III, X, ou o que seja, os sintomas de suas crises maníacas são sempre os mesmos. E eles têm um início, só que você geralmente nem se dá conta, talvez porque não acredite que prever a tempestade pode te ajudar a evitar muito embaraço.

Então, qual é o início? É como eu disse, você conhece seus sintomas. O que você tem a fazer é conhecê-los melhor, buscar identificar o momento-chave da próxima crise. Tente voltar ao seu passado recente, com a maior riqueza de detalhes que lhe for possível. Ande pra trás em seu raciocínio. Analise fato a fato, conversa a conversa, atitude a atitude, principalmente se você puder contar com a ajuda de alguém de sua confiança, que lhe diga como é que a “situação” se desenrolou até ali. Esse interlocutor vai ter de ser orientado previamente por você a lhe contar tudo em detalhes. Note que é EXTREMAMENTE IMPORTANTE também você se condicionar a aceitar ouvir, porque sabemos que nessa hora é difícil pra cacete ouvir algo de quem quer que seja, certo?

Um exemplo do que eu estou falando seria conveniente, porque eu acho que talvez não tenha conseguido me fazer entender. Pense nessa situação:

Você acaba de voltar da Padaria, de manhã. Você começa a reclamar com sua esposa, marido, irmão, (quem for o seu interlocutor) que você foi mal atendido, o preço do pão subiu, o padeiro não pesou o pão na sua frente, mas também, puta que o pariu, esse negócio de pesar o pão agora fez com que o preço subisse mais, e ele (a pessoa que você está falando um monte) porque não faz nenhum comentário? Porque não te apóia? Ele te acha chato, não quer te dar atenção ou o quê? Você está incomodando muito? Ah, ele que vá dar a bunda pro padeiro!

E por aí vai. Quem é do convívio dos bipolares logo se dá conta do início das crises. Mas quem disse que nós aceitamos ouvir que estamos em crise QUANDO ESTAMOS EM CRISE? Não adianta mesmo. Por isso seu interlocutor vai ter que aprender a desenvolver a paciência dele. Pra esperar acabar a crise e daí falar algo a respeito. Entenda que para aprender a identificar uma crise, ela tem de ser vivida primeiro – e discutida logo depois.

Volto a insistir no lance de aprender a ouvir. Aceitar ouvir é uma coisa que - mais do que as pessoas “mentalmente sãs” e equilibradas que constituem nossa alegre e bem resolvida sociedade de consumo, os bipolares PRECISAM, se quiserem aprender a se controlar um pouco. Eu sei que a origem do problema é um desequilíbrio químico e daí, como se controla isso a não ser com medicamentos e etc soam como as primeiras perguntas para que você já comece a pensar num jeito de sabotar a tentativa sugerida, mas será que o uso da razão, como conseqüência de uma atitude, de uma iniciativa de combater a crise já não vai estar combatendo esse processo? Olha aqui: você tem que repensar antes de tentar identificar suas crises maníacas. Nós os malucos temos que buscar a razão. Se você pensar bem, razão, responsabilidade e bom senso são “tentativas interessantes” nas vidas dos bipolares, já que são, em regra, as exceções.

E aí você vai voltando no passado recente. Volta pra quando você saiu pra ir pra padaria, como no exemplo. Como foi? Como estava se sentindo quando acordou naquela manhã? De repente você se dá conta que já não dormiu direito à noite. Estava inquieto. Pernas inquietas, e pior, pensamentos vários que não paravam de fervilhar na cachola e simplesmente não te deixavam dormir. E antes de dormir você também percebe que já não estava se sentindo bem. E de repente, lá atrás, a uns dois dias, você vê que já fez um monte de merda e que sua crise está atravessando um longo período. Não importa. Só insistindo nesse treino de voltar ao passado é que você vai poder começar a evitar várias das situações que ocorrerão.

Também posso dar como exemplo minha própria história. Tenho um pouco de mania de grandeza nas crises, mas é pouco. O grande mal pra mim é a agressividade. Só que a agressividade é o final do processo, que no meu caso, começa uma noite antes, onde eu me percebo dormindo acordado, com as pernas inquietas, e os pensamentos de ódio ainda no início: primeiro eu crio uma situação na minha cabeça envolvendo alguém que será o alvo do meu ódio: geralmente eu faço isso distorcendo pra pior o “mal” que a pessoa me fez, não importa quando. E esse é um ponto perigoso, porque as fantasias paranóides dos bipolares são muito bem elaboradas. Pode ser só algo que a pessoa disse, e minha cabecinha já começa a voar alto, achando que fulano realmente quis me fazer o mal, me destruir, me prejudicar, ou o que for.

O próximo passo, no meu caso, é conseguir aliados. É aí que eu digo que ninguém agüenta gente em crise de mania. E lá estou eu, tentando convencer quem for de que aquela pessoa que me fez o mal está tramando É aí que aquela piada horrível que você, se é bipolar, provavelmente já ouviu e não gostou: “o médico mandou não contrariar”. No meu caso ainda é engraçado mesmo, porque minha esposa é médica. E as esposas contrariam quando bem entendem.

Por exemplo, todo mundo sabe quando a paz interior não está presente. E a sensação de paz interior começa a desaparecer quando a crise está chegando nos bipolares. Isso é uma regra geral, mas cada bipolar sente isso de um jeito: no meu caso, a síndrome das pernas inquietas, sempre na noite anterior a uma crise.

E os pensamentos a mil por hora? Eles têm um momento em que começam, anterior ao momento em que já fugiram ao controle. Depois que a crise já bateu, esqueça. Depois que a gente perde o controle não dá mais pra voltar atrás. Aí, como acontece com tudo que não tem solução, só o tempo cura.

Então, essa capacidade premonitória tem de sr exercitada, até que se consiga atingir O ÚLTIMO MOMENTO EM QUE VOCÊ AINDA ESTAVA BEM. Taí seu momento-chave. Se você se acostumar a fazer isso, vai chegar uma hora em que você vai se dar conta do início de uma crise ASSIM QUE ELA COMEÇAR DE VERDADE. E aí é hora de tomar as medidas cabíveis. Aí é hora de preparar o abrigo das tempestades.

Mas sobre isso, falo na próxima.

Como qualquer outra forma de aprendizado, o hábito é mais poderoso que a vontade. Então não fique achando que logo de cara vc vai conseguir identificar o início da crise. Mas é preciso treinar, manter esse foco, insistir, fazer disso um hábito. Anotar, como eu faço nesse blog, que depois eu leio e vejo como minha doença teve fases muito diferentes, bem piores, por sinal.

Doença bipolar não tem cura. Mas isso não quer dizer que a gente precise se sentir doente o tempo todo.




6.8.07

Voltando das cinzas

Mais vivo, mais forte e menos bipolar do que nunca. E com muita história pra contar.

Em breve.

30.10.06

Já foooiiiiii.......

Não sofro mais por causa da doença bipolar. O Trileptal deu mesmo conta do recado, com poucos efeitos colaterais. Já tomo desde o início desse ano. Dois por dia, nem mais, nem menos. É a tal remissão do quadro clínico. Não tenho o raciocínio tão rápido quanto antes, tampouco emburrei. Invés disso, aprendi a ser um pouco cínico. E quando se é um pouco cínico não é necessário ser muito inteligente, porque o mundo acha que precisa mais de cinismo do que de inteligência pra sobreviver. Gente cínica não é sincera e é adorada por isso, porque sinceridade machuca. Então, numa acepção bem filosófica do cinismo – que foi uma corrente filosófica que pregava o desapego até ao sofrimento dos outros, como forma de alcançar a felicidade – eu digo que assim tá bem melhor.

Voltando a remissão do quadro clínico, eu ia dizer que às vezes eu ainda fico meio deprê, mas nada incontrolável como antes. O que eu não vou fazer é tomar antidepressivos outra vez.

Pô, eu sei que serei bipolar pra sempre. Durante todo o tempo que escrevi esse blog eu soube disso. Mas e daí?? Fuck it. Isso já deixou de ser um problema pra mim. Não vou mais escrever sobre a minha doença. Hoje em dia eu prefiro opinar sobre os outros. Por isso vou trocar de endereço, e como tem gente que vem aqui e que não é bem vinda, não vou deixar endereço. Vou simplesmente sumir da rede. Esse blog já foi pra fita.

E se você é bipolar e lia esse blog, fica o conselho: seja sincero consigo, sempre. Não engula junto com os medicamentos os efeitos colaterais indesejados. Insista em mudar de remédio, se não estiver bem. Dane-se o que o seu psiquiatra acha. Se não tá bom pra vc, ele tem que achar outra coisa. O objetivo do tratamento acima de tudo é a qualidade de vida. Não desperdice a sua insistindo no remédio que te deixa pior do que vc já é.

E acredite: em algum lugar do mundo, a indústria farmacêutica está fazendo alguma merda, como testes em gente que eles consideram sub-humanos, pra te propiciar um remedinho melhor. E um dia você irá encontrá-lo.

Ah, e faça exercícios físicos com alguma regularidade. Não importa que no começo você fique mais maníaco, como aconteceu comigo. Insista. Vai acabar te fazendo tão bem que você não vai nem querer mais tomar seu remédio, mas não faça isso. E se for encher a cara, NÃO faça isso com alguma regularidade.

E NUNCA use sua doença como desculpa para magoar as pessoas, ou destruir a si mesmo. É na adversidade que a gente evolui. E de um modo geral, as pessoas sofrem muito em suas vidas pra terem de agüentar a agressividade de um doido como nós bipolares.

Boa sorte.

Fui.

12.9.06

Trocaram minha senha do msn há aproximadamente dez dias. Faço questão de deixar registrado, para o caso do palhaço que fez isso usar meu email para qualquer coisa que possa me incriminar ou me endividar.

Aliás, eu sei quem é: É o mesmo palhaço que me roubou na cara dura - três vezes.


Fui.

30.8.06

Meus pais vieram e se foram tão rápido quanto. Pior que no meio do fogo cruzado entre eu e a Adriana, meu pai quis ir embora no sábado. Fiquei puto da vida com ele por causa disso, até porque nada demais aconteceu, eu fiz de tudo pra que eles se sentissem muito bem, e fiquei decepcionado com a insensibilidade do velho. Mas minha mãe segurou a onda e no fim das contas isso até que contribuiu para que eu e a Adri fizéssemos as pazes.

Agora, e até a próxima, está tudo bem... resolvi que vou lutar mais pra manter o equilíbrio e não estourar com as atitudes da patroa, nem deixar que minhas atitudes negativas tomem conta da situação. Difícil é conseguir viver assim, bipolar controlado, sempre. Sei que cedo ou tarde eu vou falhar, e sei que não vou ser perdoado por isso, porque a patroa, apesar de não ser bipolar, tem um gênio que tb não é fácil. Ela não perdoa, parece que odeia ter que perdoar. A gente briga por coisas que aconteceram há quatro anos atrás, coisas que eu nem lembrava mais...

Eu ainda tô triste... não queria sair de casa, não queria separar mesmo... a conclusão que eu chego é que as situações da vida desencadeiam uma depressão mais profunda em mim, mas que a melhora dessas situações não são a certeza de que eu vou melhorar da crise depressiva.

Eu ando querendo reagir...

23.8.06

Reticências...

Trinta e quatro anos e eu ainda não sei bem se é isso o que eu quero... Eu não escolhi essa vida, eu não escolhi ser pai, eu não escolhi bem minha carreira... Sei lá, to deprimido, to de ressaca da vida. Parece que minha vida foi uma sucessão de acidentes, e eu só fui me acostumando às seqüelas... To querendo ir embora pra casa, ficar lá, na tv, vendo um filme besta qualquer...Mas não dá, tenho compromissos, malditos compromissos... To sempre resolvendo os problemas dos outros e deixando os meus de lado. Eu consigo ser o menos importante pra mim...

To sempre enxergando o lado ruim das pessoas, sempre julgando, sempre justificando os meus erros por comparação aos erros dos outros... Tenho medo, eu morro de medo da vida, morro de medo de tentar viver sozinho, morro de medo de falhar, morro de medo de encarar minha falta de qualificação pra ser outra coisa que não o que eu faço, porque o que eu faço é tudo o que eu sei fazer direito nessa vida...Parece que eu fui cagado pelo céu e vim parar aqui, sem ter a mínima noção de que lugar é esse, que pessoas são essas, a quem serve essas regras do jogo que eu não entendo o sentido...

Se pelo menos eu soubesse quanto tempo mais eu tenho pela frente, quanto tempo mais eu vou ter que agüentar esse mundinho sem esperança em que eu vivo... Dependendo de quanto tempo, eu talvez criasse coragem e adiantasse o processo...

Pior ainda... Não acredito que as coisas melhorariam, ainda que eu chutasse o balde, fosse embora, começasse tudo de novo... Os problemas só iriam se renovar, as pessoas teriam rostos diferentes, mas ainda seriam pessoas, e tudo seria invariavelmente igualzinho ao que é, porque simplesmente é, simplesmente é assim que é, sempre...

Ah, a velha depressão está voltando...

Meus pais estão vindo pra cá, depois de quase nove meses que eu não os vejo... eles vem prometendo vir pra cá há três meses, e nada... isso me magoou muito, e parece que eles também estão perdendo a importância, desde que eu resolvi não cobrar mais que eles fizessem sua parte de avós, e de pais, e lembrassem que eu estou vivo...apesar de viver isso, esse jogo de não cobrar mais e ao mesmo tempo deixar de se importar, eu não entendo bem como é possível que as coisas funcionem aparentemente melhores quando a gente deixa de se importar... quem despreza conquista... não entendo isso, é como se o mundo precisasse mais desamor pra ser melhor, mais aceitável...

Mas o que me derrubou mesmo foi que eu acabei de sair de uma briga terrível com a patroa... acho que ela não me ama, mas eu também não sei se a amo, e acho que ninguém no mundo tem certeza se ama, por isso ninguém sabe definir direito o que é o amor... vai ver só existe amor mesmo entre pais e filhos, e olhe lá...

Não quero mentir mais pra mim... mas para isso eu precisaria saber a verdade. E essa eu já desisti de procurar. Se é que já não a encontrei, e nem me dei conta...

Penso na Lorena, que escreve outro blog, e em tudo que ela teve de passar ultimamente... ela vive com outra mulher, mas queria muito ter um filho, e pra piorar teve uma doença maldita que nem sei ao certo se vai comprometer a possibilidade que já era remota disso acontecer. Enquanto isso, eu to aqui reclamando do meu destino... a única coisa que me dá a certeza de também pertencer a essa maldita raça humana é o fato que, como todo mundo, eu sou eternamente insatisfeito.

14.8.06

Por quê?

“Sarah, de 10 anos, jamais saberá quem venceu a guerra, se Israel ou o Hezbollah, pois morreu abraçada a sua mãe depois que as bombas israelenses as sepultaram sob os escombros do prédio onde se refugiaram, em um subúrbio ao sul de Beirute. Sua mãe, Asmahane, está no caixão ao lado do dela. Quando foram retiradas dos destroços, a menina abraçava a mãe que tentou visivelmente protegê-la. As equipes de socorro tiveram que afastá-las". (fonte: terra.com.br)
Li e chorei.

Alguém por favor, poderia me dizer o que está acontecendo com o mundo?

Eu não quero mais morar nesse planeta. A vida por aqui não tem mais valor. E eu não tenho capacidade de fazer nada para mudar essa situação.

A minha doença, que eu egoisticamente dei uma puta ênfase a ponto de criar um blog pra lidar melhor, está entrando na fase remissiva. E nem por isso eu estou mais feliz.

Fui.

27.7.06

Enquanto eu to com preguiça de montar outro blog....

Consultores são uma fraude

Sabe aqueles caras que escrevem e dão palestras milionárias dizendo o óbvio ululante sobre motivação e sucesso, para aqueles outros caras que são extremamente bem remunerados para dizer aos funcionários mal remunerados que ralam pra caramba que eles é que devem se sentir motivados?

É...As bichonas do mundo corporativo conseguem o inimaginável. Aparentam não ser pessoas desse planeta: não peidam, não sujam as manguinhas, parecem robôs, sempre impecáveis. E, no entanto, são os caras que humanizam os macacos de linha de produção, com seu jeitinho de guru. Fazem viagens caríssimas, bancados pelas empresas cujos administradores só podem ser idiotas que não conseguem nem sentar-se a mesa com os peões na hora do almoço, que dirá fazer amizade, ou passar adiante um pouco do conhecimento provavelmente adquirido de algum grupinho de acionistas cujo líder parou com a partida de pólo no domingo porque tava com um pentelho encravado nas bolas.

Como tem gente que cai nesse papo furado de consultor. E isso não vai mudar, porque o mundo resolveu achar que consultores não são uma fraude. E adivinhe: eles acreditaram nisso também.

Esses caras não são desse planeta.

Como as bichas esvoaçantes que vão a vernissages, têm galerias de arte enormes, sempre vazias, mas o vazio das galerias dá um charme maior ainda, e o preço sobe... e novos ricos estúpidos vão lá fazer uma onda e comprar uma zebra em tamanho natural, que estava lá exposta porque o seu criador era namorado de uma bicha amiga da bicha dona da galeria, que mantinha a galeria dando pro filho retardado de um banqueiro líder do grupinho de acionistas que ficou com as bolas doendo por um pentelho encravado.

Pior de tudo é ter escrito isso, e depois pesquisar material sobre ódio aos consultores, e encontrar um bando deles fazendo críticas “inteligentíssimas” ao Brokeback Mountain.
http://altovolta.apostos.com/archives/2006/02/pieguice_poltic.html

É sério. Eu achei isso depois de escrever os parágrafos acima. E não vejo mais ninguém opinar a respeito. Exceto os próprios consultores, que de tão inteligentes foram os únicos a confirmar minha teoria.


Malditas bichonas.

Não me entenda mal, eu não tenho nada contra viados. Viados são deste planeta, e tem muito viado gente fina. O problema são os consultores, que procuram “insights” pra responder a tudo, inclusive porque não saem logo do armário. Aliás, o melhor “insight” de um consultor pra dizer por quê não sai logo do armário deve ser: “porque tá lotado de economistas”, que são outros pervertidos que falam, falam e não dizem nada.

E o mundo paga pela sua propaganda enganosa. E as pessoas gostam de gastar dinheiro pra serem enganadas. E advogados estão virando proletários. Exceto, é claro, os que são amigos de consultores.

É o caos apocalíptico.

Fui.

24.7.06

Sem título

Fase mista: eu escrevo, mas tudo parece desinteressante e eu apago em seguida. Tá demorado muito a passar dessa vez, e eu não tava a fim de começar tratamento novo, de novo. É aquela coisa de tentativa e erro, mais erro do que tentativa, se é que é possível.

Além disso, eu cansei da exposição. Nada mais desestimulante pra esse blog do que dar o endereço pra gente conhecida. Vou trocar de endereço, de nome, de tudo. É o segundo blog que eu encerro. E eu me orgulho disso. Quando quiser me identificar eu escrevo a porra de um livro, publico e fico milionário.

Fui.

19.5.06


Selecionar, copiar, colar.


Você não é uma pessoa criativa. Você copia o que os outros já fizeram. Quando você acha que está inovando, ainda que seja em uma piada, gíria, musiquinha para as filhas, frase de efeito, ou qualquer outra coisa, você percebe que alguém já fez isso, às vezes num seu passado tão distante que você acha que aquilo foi uma criação original sua. Até que você ouve ou vê ou lê a mesma piada, música, gíria, frase de efeito. Aí você se dá conta: “na natureza nada se cria, mas tudo se copia”. Inclusive esta frase que você acabou de copiar, lembrando de alguém que tirou uma onda com aquele físico... quem é mesmo?




Nem a pessoa que tirou a onda e nem o físico. Você não se lembra. Não é só sua criatividade que está indo embora. O que realmente deveria ser importante está sendo lenta e gradualmente apagado para dar lugar a outras coisas que te ajudam a fugir de onde você está, e que são as coisas que você escolheu para preencher o vazio, durante suas crises. Como ficar no sofazão, vendo TV a cabo. Essa do “sofazão vendo TV a cabo” você também escutou de outra pessoa. E foi recente. E você já queria se apropriar da frase como se fosse sua, né? E só não fez isso porque aconteceu tão recentemente que você se lembrou.

Nas crises maníacas você tem a impressão de ser original. Mas sua mente não é confiável nas crises maníacas. Ela pode te trair, como geralmente acontece mesmo. Quanta gente vem dizendo a você que você diz coisas horríveis, que depois você não se lembra de ter dito? Você só se deu conta que essas pessoas estão dizendo a verdade quando a quantidade de pessoas que te dizem isso aumentou insuportavelmente. Quando isso começou, você achava que se tratava de mais uma conspiração. As pessoas têm sistemas de comunicação tão poderosos na sociedade globalizada que suas teorias conspiratórias ficavam tão plausíveis... Nada original. Você que começou a acreditar nessas teorias envolvendo poderosas vias de comunicação exatamente por causa da TV a cabo e dos filmes americanos importados em um número absurdo pelos distribuidores do ”Grande Irmão”, mas que você sente necessidade constante de matar a pau e ver todos os lançamentos, mesmo sem agüentar mais ver as mesmas histórias contadas sem nenhuma criatividade. Será possível afirmar que é a partir daí que sua criatividade morreu? Será essa a pergunta certa? “Você tem que fazer as perguntas certas” (essa é do filme “Eu, Robô”). A propósito, a pergunta certa seria: por que você faz isso com você mesmo, se você já se deu conta do tamanho do prejuízo que isso te causa? Como as perguntas certas geralmente são difíceis de responder, e você está com preguiça de pensar, porque HollyMoney faz isso por você...epa! Será que essa não é a resposta? Preguiça? Hum... que vergonha. Ainda bem que você tem a desculpa de ser bipolar.

Nossa. Já se passaram tantos anos desde que inventaram o videocassete e que a sessão da tarde deixou de ter graça. Você consegue estimar quantos filmes de HollyTrash você já assistiu em sua vida? “É uma pergunta retórica, idiota”. (essa frase é do filme Snatch). Vai ver é por isso que lá em HollyTrash há uma necessidade enorme de patentear tudo, cada frase, cada nome. Até o Spike Lee já brigou na justiça por causa do cão Spike, de algum filme ou seriado, que ele achou que estava sacaneando ele. Ou ele queria indenização do cão, porque o bichinho usou seu nome? Você não se lembra porque lê menos do que escreve, afinal ler pra você dá muito trabalho, e isso você já desistiu de entender o porquê. Parece que Spike também está perdendo a criatividade para os orçamentos milionários que agora os investidores colocam em seus filmes. O diretor, não o cão.



Só que (voltando ao umbigo) quando você não conseguiu mais estabelecer relações entre a quantidade monstruosa de pessoas que vivem em lugares diversos e que nem se conhecem e que se queixam com você e te acusam da mesma coisa, ou seja, de falar um monte de merda e depois esquecer que falou você se dá conta que não se tratava de conspiração em rede, mas sim de uma mania de perseguição lenta, mas substancialmente gradual.

Pela primeira vez você entendeu porque gente que tem sua doença é considerada louca. Você se viu louco, e não sentiu orgulho. Sentiu medo. Apesar de saber que você não vai piorar muito mais do que isso, afinal você tem tomado seus remedinhos direito, e estudos comprovam que sua doença não migra para outras piores, como esquizofrenia, você se apavorou, pensando que talvez você esteja enlouquecendo dentro do que é possível enlouquecer por causa da sua doença. Talvez você esteja enlouquecendo dentro da sua loucura.

E alguém provavelmente já disse isso em algum lugar. É você que não se lembra. “O hábito é mais poderoso que a vontade, definitivamente”. Essa você acha que é original, até descobrir que já foi patenteada.

12.5.06

EGO eu CENTR eu ISMO eu

Esta... É a minha vida. Tempos sem fazer não importa o que seja: bom, mal, que dê prazer ou que seja pura obrigação, desprovida de alegria... Tempos fazendo tudo isso, buscando mais ainda para fazer.

Fazer, fazer... Obrigações, prazeres, deveres, rituais, necessidades (além das fisiológicas, claro!). Não fazer, idem. Crises... Mania, depressão. Euforia, recolhimento. Reclamar, queixar-se, achar que alguém vai ler e pensar que eu escrevo muito bem para alguém tão egocêntrico que escreve só sobre si mesmo, sobre a própria vida, que não tem talento (ou será maturidade?) para escrever sobre outras coisas, outras pessoas, outros lugares, que nem existem. Que não tem coragem de dar o endereço do blog para outras pessoas lerem, e quando o faz depois se arrepende e tem medo de continuar a escrever, porque sabe que agora virou uma necessidade escrever melhor, não reclamar tanto, não desabafar tanto, não ofender tanto, não ser tão egocêntrico.

Querer que as coisas fossem mais fáceis, pra depois descobrir que coisas fáceis são sinônimas de insatisfação, de frustração, de sentir-se uma verdadeira fraude... Necessidade de tornar tudo mais difícil, de ir dançando conforme a música, de buscar desafios, ou não, nada parece um desafio. Sem perder o passo, o ritmo que não existe no mundo... Meu, eu, ego... Lá estou eu de novo falado de mim. Se eu transformasse meus textos para a segunda ou terceira pessoa do singular ficaria melhor? Se a maioria do que se escreve é autobiográfico, porque mudar a pessoa, porque estudar regras gramaticais?

Por que estudar, se ele aprende tudo com uma facilidade que o atrapalha, visto que ele sabe disso? Por que você tem trava pra estudar? Seria por que vocês deduzem tudo com muita facilidade? Será que minhas deduções estão certas?

- Já sei! E se nós escrevêssemos na primeira pessoa só quando quiséssemos reclamar de algo? Será que eles se sentiriam melhor?

Para quem você escreve, afinal, cara? Eu sou egocêntrico, escrevo para mim. Eu assumo meu egocentrismo. E assumir é escrever na primeira pessoa.

Fomos. Foram. Fui.



4.4.06

CICLAGEM R-Á-P-I-D-A*************

Eu fiquei deprimido por causa do vespeiro chamado prefeitura municipal que eu fui mexer pelos médicos; porque ouvi uns boatos nojentos a meu respeito e a respeito de meus amigos; porque ouvi que pessoas que eu já sabia que não gostavam de mim andaram falando coisas que as pessoas que vieram me contar não quiseram dizer o que foi dito pelas pessoas que me odeiam; porque as pessoas não respeitam a crença religiosa da Adriana (se eu fosse essas pessoas, eu não falava mal dessas coisas, pode acreditar); porque eu ando generalizando as pessoas, do mesmo jeito que elas costumam fazer, e isso é doentio; porque meu Rivotril gotas acabou e eu estou com medo de continuar a tomar, porque eu senti que vicia, mas é prescrição médica e me faz uma falta danada quando eu estou quase me transformando em bicho; porque eu encanei que não tenho que pagar R$ 220,00 por consulta mais 80 pau de viagem pra tratar uma doença que não tem cura, e por isso eu não to fazendo acompanhamento há dois meses; porque eu andei sentindo que certos ambientes que deveriam ser de entrega acabam se tornando fogueira das vaidades; porque eu prefiro ser sincero a ter de jogar o jogo; porque eu não quero me conformar em só poder ser sincero com os amigos; porque meus amigos me alertaram que eu deveria maneirar na hora de dar o recado às pessoas que eu acho que deveria dar o recado; porque um amigo me alertou que às vezes, as coisas que eu falo magoam meus amigos; porque eu sorrio pra gente que eu queria socar, e às vezes pareço sério demais pra gente que eu queria demonstrar que gosto; porque meus pais continuam não me ouvindo e fazendo merda; porque minha vida é maravilhosa, eu sei disso no fundo, e não dou valor mesmo porque eu sou um maldito deprimido.
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- QUE ÓDIO! ...e que tristeza... QUE RAIVA! ...oh dia, oh azar... QUE GOSTOSA, MEU!!! ... ah, eu não teria chance mesmo..

(Momentos depois... Estado transitório. Tudo volta ao normal. As flores estão onde estão).

- Eu estou bem, obrigado, e vc?

(No dia seguinte, ao encontrar um grande amigo, que ainda por cima tem sensibilidade de artista)

- VOCÊ TÁ MAL? TAMBÉM, VOCÊ É UM COVARDE!! PORQUE VOCÊ NÃO ENFRENTA?

(Minutos depois... )

- ... ahn... será que eu magoei o fulano?.... eu não valho nada mesmo...

(No outro dia, quando um amigo me conta que, de fato, eu magoei o fulano)

- Nem me lembrava que tinha dito isso ao fulano ontem... que depressão... acho que vou pra casa, ficar no escuro...

(Momentos depois, no escuro )

- QUE PENA QUE EU NÃO TENHO UMA MALDITA ARMA!!
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Isso é ciclagem rápida. E tem gente no Orkut que diz que quer ser bipolar. Isso me deprime... OU ME DEIXA PUTO??


Meus textos deprimem. MAS FODA-SE.

E pra você que é normal (não bipolar), uma pergunta: QUEM É "NORMAL"ASSUME QUANDO PISA NA BOLA???? QUEM É "NORMAL", HOJE EM DIA, ASSUME O QUE SENTE? PELO MENOS ENTENDE O QUE SENTE? Se não, eu prefiro continuar assim louco, mesmo.
Fui. Foda-se.

11.2.06

FELIZ 2006!!!!!!!

Mudei de psiquiatra. Ano novo, novas metas. Eu costumava achar babaca quem pensava assim, afinal, nada além da troca de um cinco por um seis no calendário.

Mas pra esse ano eu instituí metas. A primeira delas era me livrar da minha psiquiatra, que eu tava começando a achar que era uma sádica em potencial, já que pra ela eu simplesmente tinha que agüentar a doença com os medicamentos de sua listinha. De psiquiatra novo, agora eu tomo Rivotril e Trileptal. Rivotril gotas é bom porque eu doso as gotas segundo minha escala de necessidades. O médico disse entre cinco a vinte gotas, sempre que eu sentir necessidade. Pra dormir são quinze. Pra trabalhar são cinco. Se eu enfrento um pepino enorme, são dez.

Em resumo, melhor conversar de novo com esse novo psiquiatra. Parece que essa merda vicia. Agora foram três gotas pra escrever.

Entrei na academia. Perdi oito quilos em três semanas. Tô com 42 de bíceps e 65 de coxa. Uma beleza. A musculação opera milagres em pessoas geneticamente predispostas a grandes músculos.

Passei as férias agüentando a inveja que meu pai tem de mim, agüentando a minha mãe apertar os pulsos da Laís porque ela mexeu num bibelô de merda, vendo toda a educação que eu dou às minhas filhas, livre de violência, ir pro ralo, e curtindo minhas filhas, apesar disso, e da minha nega ter ficado recolhida de 26 de dezembro a 09 de janeiro em uma casa de santo. Pior é que, com os dias de resguardo, foram 34 dias sem sexo. No 35º dia, já de volta a Santa Catarina, a gente quebrou o estrado da cama.

Apesar das metas, apesar de tudo... achei que o ano estava começando bem. Mas isso tudo foi por água abaixo, quando, semana passada, eu travei uma discussão com 08 policiais militares. Dois deles me pararam porque eu estava na contramão, sem saber que era contramão, e queriam que eu parasse para que eles fizessem a notificação de multa. Eu disse que eles poderiam me multar sem abordagem, bastava anotar a placa do carro e enviar a multa, que eu ia recorrer mesmo. Aí o sujeito me manda descer do carro, quer ver os documentos. Eu estava com minha filha de três anos no banco de trás, indo buscar minha esposa no trabalho que ela havia iniciado as 07 da matina. Já passava das nove da noite. O policial começou a bater boca comigo, e deu azar: eu estava numa crise de mania. Nem precisa falar o quanto eu aluguei o cara, enquanto ele retinha arbitrariamente minha CNH. Eu dizendo que a imagem da polícia é PÉSSIMA, porque eles tratam os cidadãos de bem como lixo. O soldado dizendo que eu estava alterado, que eu estava elevando meu tom de voz. Eu dizendo que tinha o direito constitucionalmente assegurado de falar no tom de voz que eu quisesse, e, aliás, que eu tinha o direito de ir e vir. Eu entrei e saí do carro umas três vezes, estiquei as mãos, perguntei se, diante daquele abuso, ele também não queria me algemar. Eu disse à minha filha de três anos que aquilo ali que ela estava vendo é que era a polícia e etc, e etc, e etc.

Como eu queria que ele tivesse tentado me tocar. Ia ser um massacre. Claro que depois eu ia ser preso, ia apanhar, mas ia me sentir vingado pelo que ele me fez passar na frente da minha filha. Apareceram policiais com filmadoras, tentando tocar o terror. A pior merda que um ser humano pode fazer comigo é me desafiar, me irritar propositalmente, porque eu nunca digo não a uma briga. Eu sou o verdadeiro cão, principalmente vendo minha filhinha assustada com a atitude dos policiais, me cercando, tentando me intimidar. É isso aí. Pra você que está lendo isso e achando ridículo, seu bosta, eu sou, sim, um babaca idealista até a última gota de sangue. E morro por isso, porque acho que a minha vida vale menos do que a minha dignidade de ser humano.

No final das contas, ele fez a notificação, eu não assinei, minha mulher chegou com dois outros médicos pra testemunhar o abuso de poder. E um verdadeiro circo em volta, só faltou pipoca e cachorro quente com cerveja.

Coincidência ou não, tudo isso vem logo agora que eu pedi a instauração de um inquérito civil contra o município e o governo do estado, por causa do mau-caratismo político que transforma a saúde local num ralo de dinheiro público. Eu compro a briga, os caras reagem com represálias, e eu quero partir pra porrada. Imaturo, mas eficiente.

Ah, a secretaria de saúde, a quem eu carinhosamente chamo de S.S. Após inúmeras irregularidades, tais como: carimbo da secretaria de saúde em guias de consultórios particulares; ligações do secretário de saúde ao hospital dizendo ao médico cadastrado pelo DATASUS que não operasse o paciente que sofreu uma fratura exposta após um soterramento, porque eles não iam pagar (o cara esperando a cirurgia, que se não se realizasse em três horas, ele ou perderia a perna ou morreria de infecção generalizada); outras situações semelhantes, que, ao contrário do geralmente retratado na imprensa, aqui o médico quer operar e a secretaria de saúde não deixa.

Enfim: tudo pronto, documentos juntados durante quase um ano, pedido endereçado ao MP em 10 laudas, fundamentado, explicando aos promotores que como aqui a gestão é plena do sistema municipal, a responsabilidade por procedimentos de alta complexidade é do gestor municipal de saúde, conforme manual do NOAS-SUS. Eu estava apenas aguardando uma assembléia de um dos meus clientes para decidir se encaminhava ou se eu faria outra reunião com o prefeito, a seu pedido na primeira reunião, que realizamos em dezembro, onde ele se saiu muito mal, dizendo que “não é que eu queira ganhar tempo, mas dá pra marcar pra segunda quinzena de janeiro?”. Ah, eu aguardava que meus clientes (uma associação e um sindicato) assinassem as procurações, já que, após inúmeras reuniões, ainda tava todo mundo com medo, ou com o rabo preso tb. Aí, antes da data marcada para a assembléia, e antes de uma segunda reunião com o prefeito, veio a bomba: um decreto de estado de emergência na saúde do município, só para conseguir dispensar uma licitação para a contratação da empresa médica que iria terceirizar o plantão de sobreavisos, empresa essa que tem como sócia a própria auditora da s.s., e que ia receber, também por decreto, colocado logo abaixo do decreto de emergência na saúde, a módica quantia de UM MILHÃO DE REAIS, por serviços que não iam se realizar, mas que iam ser lançados nas contas públicas, que seriam auditadas pela própria auditora da s.s., que ia levar, junto com os políticos locais, um milhão da grana do povo no rabo.

É assim, ó: se é decretado estado de emergência, o poder público pode dispensar a licitação por até 180 dias, e contratar quem eles quiserem. Eles queriam a empresa da própria auditora, que, como funcionária pública, nem pode contratar com a adm. Pública. A licitação é a regra, sua dispensa é exceção, quando se trata de contrato com o poder público. Enfim, iam entregar a chave do galinheiro para a raposa, quando eu, de saco cheio de tanto mau-caratismo, e diante do dilema: “será que eu espero a assembléia dos meus clientes se realizar e deixo esses sem-vergonhas faturarem um milhão, ou eu mesmo assino esse documento como cidadão e entrego ao MP? Adivinha o que eu fiz? Fui lá no MP, no mesmo dia do decreto, entreguei sozinho o negócio, e trouxe para mim toda a responsabilidade. Aí rola o abuso policial na cara dura e eu, com mania de perseguição, coisa de bipolar, começo a prestar mais atenção no movimento.

E o que eu vejo? No dia seguinte ao abuso policial, eu saio da academia cedo e tem uma viatura estacionada ao lado do meu carro. Eu vou do outro lado do centro da cidade, até o hospital, estaciono meu carro, para falar com um dos clientes que eu representei(?) nesse pedido de inquérito civil, e vejo a mesma viatura parando a dez metros de mim. Haja Rivotril.

E eu afinei? Aí é que não mesmo. Liguei para a PM, disse que queria falar com o capitão, e um dia depois recebi uma ligação de um sargento super gente fina, que me disse que o capitão ia me receber no dia seguinte. Fui lá, contei a história, disse que não tinha a intenção de representar ninguém, por isso eu não ia dar nomes, mas que se eu sentisse qualquer forma de represália eu ia sim representar, além de tomar TODAS as medidas legais. Ele disse que achava que era um direito meu, mas que a atitude de seus policiais estava correta, apesar dele não ter visto a fita ainda, etc. Enfim, ele me chamou lá para me dizer que ele achava, como ele mesmo disse, “NORMAL” a atitude tomada por seus homens. Eu me levantei, fui embora, sentindo que realmente, após desafiar os corruptos locais, com o documento que eu fiz para os meus clientes, eu havia entrado numa guerra mais suja que a do petróleo: eu quis provar que qualquer cidadão pode exercer seu direito contra a corrupção. Sem o apoio de ninguém, ficou parecendo que tudo partiu de mim. Aí a imprensa começa a me rodear, os partidos de oposição querem ficar com o crédito pela minha ação, me abutreando com seus assessores jurídicos, e eu, que sou apolítico e acabei entrando sozinho nessa, vejo se desvendar diante de mim uma cortina de interesses muito maior que minha ingenuidade típica de quem acha que conhecimento é poder poderia prever.

Pois é. Quem é bipolar deve se privar dessas coisas. Só que agora já foi, então, tudo o que eu tenho a dizer é que eles não precisam mandar uma declaração de guerra formal. Eu me dei conta que eu mesmo fiz isso. Alertaram-me que o telefone de casa e do escritório estão grampeados. Então, até a morte: eu mesmo declaro guerra.

Eu declaro guerra aos políticos locais e a fraude milionária na licitação para construção da rede de esgotos da cidade, envolvendo grandes empreiteiras do país (já é outro caso, que está para ser abafado). Dos desvios de dinheiro, doado de um banco que venceu uma licitação para colocação de uma agência dentro da prefeitura, para um fundo de pensão dos funcionários municipais, e que foi desviado para a construção de um portal de lazer. Das glosas em guias de internação de pacientes como a do sujeito com fratura exposta e que dependia de uma cirurgia em três horas ou perderia a perna. Da polícia que, ao invés de proteger o cidadão, tenta intimidá-lo com um 38 na cintura e oito homens em volta, em frente a sua filha e sua esposa.

Tô de saco cheio de conchavinho. De acordão. De abuso de autoridade. De mídia distraindo o povo do mensalão com campanha de desarmamento. De petróleo por comida que não vem. Minha bipolaridade transforma os problemas do mundo em meus problemas.

Acho que eu vou voltar a lutar boxe. Tudo é mais simples quando você é apenas um lutador. Descobri que tem uma academia da polícia militar numa cidade vizinha que ensina boxe. Um ringue, dois caras, e, com sorte, um par de luvas de vinte onças. E o mesmo ódio de Mike Tyson, que também era bipolar. To de saco cheio de cartazes neonazistas em minha cidade. Isso mesmo, acredite. No final do ano retrasado, numa manhã qualquer, apareceram 30 cartazes neonazistas colados nos postes do centro da cidade. Neles, uma charge: dois negros, um segurando uma faca e outro nem me lembro, e no meio deles uma garotinha loira, e, em alemão, os dizeres: “abra os olhos - diga não a migração”. Às vezes é difícil gostar desse lugar.

E agora, depois disso tudo, o que me falta acontecer? Metas nunca mais. A vida é inesperada demais pra tentar-se controlá-la com metas. Se eu pudesse prever o futuro, eu diria que provavelmente a pressão vai aumentar, vão querer ameaçar minhas filhas, minha esposa... Aí eu mato um... um não, tantos quanto eu puder. Pego trinta anos e fico tomando lítio fornecido pelo SUS na cadeia. Volto a engordar, a ficar broxa e burro. Minhas filhas vão estar cada vez mais longe de mim. Minha mulher vai se casar de novo. Os anos vão passar. E eu vou ouvir lá dentro da minha cabeça, em meus surtos psicóticos, dentro de uma cela escura, a voz do meu pai dizendo o quanto eu sou um fracasso, o quanto a vida passou e eu não cheguei a lado nenhum.

E tudo porque eu não aceitei fazer parte do esquema escroto inventado pela humanidade da qual eu infelizmente faço parte.

É.. parece que eu vou ter de rever os medicamentos de novo, novo psi. Ou tomar Rivotril com Absinto e mais uns vinte remédios que eu já tive que tomar por aí. Um tiro no céu da boca seria mais certeiro, mas eu não tenho uma arma. Não sou polícia, nem ladrão.

A propósito, esse novo velho médico acha que eu sou de ciclagem rápida. Pelo menos um médico que concorda com o diagnóstico que eu acho que melhor se encaixa na minha loucura indefinida.

E com isso, eu concluo meu post FELIZ 2006, mandando um FODA-SE bem grande aos políticos, inclusive o LULA, que eu admirava, e que até hoje eu não consigo acreditar que fodeu com tudo tão assim numa boa; aos policiais que não merecem a farda que vestem, e apavoram uma menina de três anos que ficou pensando que o pai dela ia ser preso por causa de uma multa. Também quero dizer FUCK YOU VERY MUCH à minha ex psiquiatra, que foi um fiasco total, aos meus pais, que até hoje acham que eu sou um bosta, aos moleques que me curraram quando eu tinha oito anos, e a todos os que entrarem aqui, lerem isso, e pensarem que EU é que tenho problemas e que suas vidinhas egoístas, hipócritas e medíocres é que são lindas.

Foda-se o Brasil. Foda-se o Diogo Mainardi, com seu jeitinho de paulistinha revoltado que na verdade nunca fala qual é a real. Foda-se o Jabor, sempre se escondendo atrás de uma câmera. Fodam-se os neonazistas dessa cidade.

E foda-se esse blog maldito, que ninguém lê. E foda-se o google, que não colocou meu blog lá. Fodam-se os padres pedófilos, a igreja católica moralista e seu papa nazista. Foda-se quem rouba, quem corrompe, quem joga o jogo do poder com represálias e não com conhecimento. Que as cabeças dos canalhas amanheçam em postes públicos, numa manhã qualquer de qualquer dia.

Enquanto eu estou aqui que nem uma besta lutando pelo direito dos outros, sublimando minha vontade de reagir do meu jeito, está todo mundo só querendo ganhar umzinho pra nem sabe fazer o quê. Ninguém presta. Nem eu, nem você, que joga a bituca do cigarro na praia, porque não tem um lixo perto. Sempre o maldito interesse próprio. E foda-se BUSH E OS POLÍTICOS AMERICANOS corruptos, que são os que sabem melhor levar umzinho no bolso. É tudo o que importa nessa merda de mundo.

Ou eu dou um tiro no céu da boca, pra ter certeza mesmo que eu vou morrer, ou eu vou me tornar um sujeito extremamente perigoso por mexer com essa gente e vou acabar sendo morto de qualquer jeito. E quer saber? Foda-se. Quem disse que eu faço questão de passar dos quarenta?

“Quem tem cú tem medo”, diz o ditado. Mas o meu já foi arrombado contra minha vontade. Meu medo está enterrado na zona metropolitana de São Paulo, num terreno baldio onde o sangue virou adubo e alimentou alguma forma de vida que, como o ser humano, no fim das contas só conta com a porra da própria sobrevivência, custe o que custar.

O que eu vou ensinar a minhas filhas para que o mundo se torne algo melhorzinho pra elas do que foi para mim?

Lágrimas escorrem dos meus olhos por isso. Lágrimas que eu sinto sozinho. Minhas filhas são a mais pura representação de AMOR que eu conheço. E eu só sei odiar. Foda-se a minha maldita doença. Inevitavelmente eu vou acabar sendo uma merda de pai, porque eu nunca vou saber como ensinar minhas filhas a serem honestas com os próprios sentimentos e ao mesmo tempo amarem essa humanidade que apodrece dia após dia.

Foda-se. Fodam-se. E eu que me foda tb.

A alma do homem está morta. Amém.

9.2.06

Cest finite

Nada tem dado certo. Oh dia, oh azar. As pessoas odeiam ouvir queixas. Mas quase ninguém lê essa merda mesmo, então, como eu tenho o dom da auto-sabotagem, quando estou em crise, talvez quem costuma passar por aqui e ler o que eu escrevo resolva desistir de vir aqui também. Pessoalmente, eu não ligo a mínima. Na verdade, eu era mais feliz quando escrevia só para mim.

A vida que as pessoas levam deve ser muito excitante, porque o que eu conto da minha vida, aparentemente, não interessa a ninguém. Eu escrevi um post, mas tá no word do computador de casa. E agora eu não to em casa. To no escritório, de saco cheio dos problemas que não eram meus, e que, por bobeira minha, passaram a ser. Depois eu colo o post de casa aqui e tudo se explica. É isso. De lá até aqui, que fique aquela merda que eu escrevi mesmo. Até onde contei ali, ta contado. A ordem dos tratores não altera a porra do viaduto.

É daqui que eu vou levando. Na bunda, sem vaselina. Comecei o ano cheio de metas, coisa que eu nunca faço. Meta é coisa de RH, não de gente. As metas estão nos livros que não merecem ser lidos, tanto quanto esse post, que nada acrescenta nas vidinhas maravilhosas das pessoas que entram aqui. As metas denunciam que, no início do ano, eu tive uma puta crise de mania. E agora eu to deprimido (mas que novidade, hein?). A hipocrisia, o egoísmo, o mau-caratismo, o descaramento humano vem tomando na minha vida proporções insuportáveis. E eu não me encolho de medo, mas me encolho de nojo, de desânimo, tudo por conta da estupidez de quando em crise (sempre em crise – novo psiquiatra acha que sou de ciclagem rápida), enfim, quando em crise... o peso do mundo nos ombros e a decepção que acarreta carregar esse peso, acompanhando o que o homem gentilmente chama de amadurecimento, me faz vomitar. Eu falo do ser humano com tanta distância que acho mesmo que não quero me sentir um. O post que tá em casa explica, depois eu colo aqui.

“Vamos celebrar a estupidez humana”. É isso aí, Renato Russo. Você sabia das coisas e morreu de aids, deprimido. Pelo menos sua depressão era artística, e vendia um monte pra um monte de gente que, como eu, digeria melhor a própria depressão com as suas letras. Hoje eu tomo Rivotril gotas e Trileptal, e não te ouço mais.

Eu acho que não quero ser lido. Vou colar aquele post que escrevi, onde eu mando um foda-se bem grande pra quase todo mundo, e encerrar o blog.

Antes de sair, vou recomendar alguns blogs de gente que vale a pena ser lida:

Do meu funcionário (por acidente de percurso), ator e escritor Cato Padawan Mohamed Ali Bruce Lee, que só tem 19 anos e sabe das coisas muito mais do que eu:
www.fotolog.com/pierrotrafa

Do Alexandre Herege Herédia, que ainda vai alcançar seu intento de ser psicopata, principalmente se continuar com o mesmo psiquiatra, mas é bom mesmo como escritor de psicopatias:
www.psicopataenrustido.blogspot.com

Da Lorena Leme Psicóloga Sexy, que se entende como todo mundo queria se entender. Ela é a verdadeira auto-ajuda. Daí eu acredito que ela pode ajudar quem quiser pagar suas sessões.
www.descompasso.blogspot.com

Sei que tem muita gente por aí, escondida na rede, e que merece atenção. Não encontrei porque o google, devagar, foi tirando minha inspiração para selecionar frases exatas para pesquisa. Mas eu duvido que qualquer um que escreva na rede não queira ser lido, que só eu sou vaidoso. Todo mundo é um pouco. Todo mundo é meio quase tudo. Todo mundo é meio gay, todo mundo é meio bipolar, todo mundo é meio nazista, deprimido, alternativo, chato, sexy, complicado, perverso, todo mundo tem sempre escondido um pouco de qualidades e um pouco de defeitos que na hora errada sempre aparecem.

A vida é uma merda, os estados de espírito são transitórios, e os medicamentos podem me dizer amanhã que a vida é bela, e que vale a pena celebrar qualquer coisa, por conta do estado de espírito, enquanto o pau não sobe, como efeito colateral do remédio que me faz sair dançnado igual a uma bicha louca, achando que tudo são flores.

Depois eu colo o último post aqui, que foi escrito antes desse. Talvez eu cole um topic do orkut tb, que eu escrevi, com todos os coments.

E daí eu fui. Pra sempre. Um tiro no céu da boca, um corte na jugular. Todos os meus remédios antigos tomados de uma só vez. Minhas filhas não precisam de mim, a Adriana é mais "madura", não tem transtorno de humor, e ganha bem mais que eu.

Pena que eu não tenho coragem. A igreja católica conseguiu botar na minha cabeça que se eu me suicidar, vou viver no inferno por toda a eternidade. Já pensou se for igual aqui?

Bom... talvez num episódio misto, onde eu esteja bem deprimido e bem maníaco suicida, sem querer eu esbarro na gilete, caio com a boca aberta num 38, e tento ser salvo pela Laisão da Floresta, que me dá todos os meus remédios antigos com água, tentando me salvar.

Eu queria morrer, mas pelas mãos de outro alguém, e sem que eu precisasse pedir. Esse seria o suicídio perfeito. Se não houver nada depois daqui, ótimo, eu complemento o tudo que minha vida representou para mim: nada. Se os católicos estiverem certos, eu, sendo suicidado, não posso parar no inferno assim, sem antes exercer meu direito de defesa, pelo menos. Se é que o deus católico quer saber de ouvir; a mim parece que não. Vale pras religiões que derivaram do catolicismo isso tb.

O que é que eu to fazendo aqui ainda, escrevendo? Fuck me.

Fui.

2.12.05

“Laisão da Floresta” e “Perninhas”.

Ela tem 02 anos e 10 meses, quase um metro de altura, um dorso musculoso e uns pelinhos pretos na bunda. Tem os cabelos castanho-escuros, bem compridos, pele branca e olhos azuis imensos. Fala nossa língua fluentemente. Conhece o alfabeto de A a Z. Sabe contar até trinta. Não usa mais fralda. E reconhece, no Mapa Mundi, onde fica o Brasil, os Estados Unidos, a África, China, Europa, Groenlândia, Austrália, México e Antártica. Seu ícone é Cinderela (fazer o que? Pelo menos ela se orgulha de fazer cocô e xixi no vaso “que nem a Cinderela”). Seus braços são tão fortes que ela se pendura por apenas um deles para que eu a leve, erguida, três lances de escadaria da creche, acima, na chegada, e abaixo, na saída, enquanto ela ri e pede mais, e as mães das outras crianças me olham com ar de reprovação: “você vai arrancar o braço dessa guria”. Aí eu a pego no colo, pela cintura, e a viro de ponta cabeça, elevo meus braços e a giro até que ela fique pendurada em minhas costas. Ela vira, se agarra em meu pescoço, e senta-se nos meus ombros. Ela dá cambalhotas como um artista de circo. Eu a penduro pelos braços desde que ela tinha dois meses. Todo mundo achava cruel. Só ela que se matava de tanto rir. Eu sei, é difícil para os adultos admitirem que crianças são muito mais inteligentes e muito mais fortes e resistentes, proporcionalmente falando, do que adultos.


Ela vê tv comigo, sentada num “puf” imenso, comendo pipoca. Quando ela assiste Rei Leão, ela diz que o Mufasa é o papai, só que o papai não vai pro buraco fundo (não morre). O mesmo acontece quando ela vê o Hulk, no telecine. De manhã, ela toma café no colo do papai. Come de tudo. Adora brócolis. E à noite ela pula no colo do papai, com um livro qualquer, inclusive o Mapa Mundi, e pede pro papai contar histórias.


Quando uma criança lhe morde ou dá um tapa, na creche, ela pede autorização para a professora para revidar: “tia, posso bater nele também? Você deixa?” Ela nunca apanhou. (Tapinha pra educar? Quer levar um meu? Você pode não ficar educado, mas com certeza vai ter uma concussão). É muito obediente, e muito carinhosa. Claro que ela é levada, ela é criança. Mas basta um castigo de três minutos, com uma explicação detalhada do motivo do castigo, que ela pede desculpas.


“Laisão da Floresta” só não é muito chegada a dormir. É que ela fica pouco tempo com o papai, que, para dar mais atenção a ela (o que, sinceramente, não é lá considerado um esforço), optou por trabalhar só das 09:00 às 17:00, de segunda à sexta. A mamãe é workahoolic, e trabalha das 08:00 às 21:00, de segunda à quinta. Na sexta ela trabalha até as 20:00. E aí, Laisão da Floresta quer ficar agarrada com a mamãe de noite. O papai entende, só é meio foda, porque foda com a mamãe, mesmo, sem muita chance. Só na alta madrugada, quando o papai leva Laisão para seu quarto.


Ah, seu nome é lindo: Laís Helena. Mas o papai não resiste a um bom apelido. Como ela tem todo esse quê de garota-macaco-x-men, ficou mesmo “Laisão da Floresta”. Já foi babita, princesa babita, kakita, lagartinha, bichinho do tomate, babitors, e outros 15 apelidos.

A maior pérola de Laisão da Floresta foi quando ela tinha um ano e três meses. Coincidência ou não, o papai mostrou a ela uma pilha. E disse: PI-LHA. E ela pegou a pilha em suas mãozinhas e apontou para a luz, e perguntou: “A luz?” É foda. E depois dizem que meu elogio não conta porque eu sou pai, e pai é suspeito. Fala sério.


O grande problema de Laisão da Floresta é o ciúmes. Ela não é a única garota-macaco em casa. Esse ano nasceu “Perninhas”. “Perninhas” tem 10 meses, é ruivinha e tem olhos castanhos. O apelido se deve às pernas muito finas, de quando era recém-nascida. Perninhas é o oposto de Laisão. Enquanto Laisão fala pelos cotovelos, perninhas é quietinha. Perninhas dorme sozinha em seu quartinho, no escuro mesmo, e não incomoda ninguém. É um nenê bem do tipo “esqueceram de mim”. Se deixar, você nem percebe que ela está em casa. Ela só reclama quando faz cocô, quando está com fome e quando está com dor nas gengivas, por causa dos dentinhos aflorando. Fora isso, para o papai, a mamãe, para Laisão, e para qualquer pessoa, “Perninhas” só sabe sorrir. Com ela o papai radicaliza mais ainda nas brincadeiras da floresta. Papai joga ela pra cima e pega de volta pelas axilas. E ela dá gargalhadas fenomenais quando papai faz isso. Enquanto papai tá no puf com Laisão, perninhas vem engatinhando, se agarra no puf, fica em pé, escala o puf, depois escala o colo do papai até segurar os cabelos do papai. O que impressiona o papai de verdade, que achava que nunca iria ver uma criança ser mais garota-macaco que Laisão da Floresta, é ver as peripécias de Perninhas.


Perninhas também tá ficando musculosinha. Você a olha de costas, em pé, com uma firmeza anormal (já ficava em pé desde os 04 meses, acredite se quiser), e vê que seu trapézio se desenha junto com os ombrinhos, fazendo com que ela pareça uma pipinha.


“Pô, papai, você quer masculinizar suas filhas?” Se algum imbecil perguntar isso, vale lembrar que crianças nas respectivas idades de minhas filhas não tem esse lance de identidade sexual. Eu estimulo a agilidade e a curiosidade nelas, de forma a que elas nunca sofram o que eu sofri: bulling escolar e aversão a livros. Jamais cobro, jamais forço. Brinco com elas do jeito que elas querem. Elas comem verduras porque eu gosto de comer verduras. Laisão gosta de livros, porque, graças a Deus, hoje eu tenho o hábito de ler. Perninhas vai pro mesmo caminho. Não são crianças violentas, porque não vêem violência em casa. Claro, eu já tive minhas crises de mania. É só por isso que eu me trato, chegando muitas vezes a ficar como um zumbi. Amor é renúncia.


Minhas filhas têm criatividade e idéias próprias, porque em casa a gente se encanta e valoriza e diz isso a elas, para cada coisa que elas fazem ou dizem. Tudo para que elas fiquem com a auto-estima elevada. Eu sei a importância disso, porque eu não tive isso na infância, e vi a merda que deu.


Ah, o nome de Perninhas é Giulia. Alguns de seus apelidos anteriores foram bolinha e “companero de partido”, uma referência latina a nossos laços de amizade. Como Che Guevara e Fidel. Às vezes eu a chamo; “Giulia! Ô nenê!”, e ela não olha. Mas se eu falo : “Perninhas”, ela atende com um sorrisinho meio sem dente muito engraçado. Eu peço pra ela falar “papai”, e ela: “ah pá, ah pá, ah pá”. Perninhas ainda não vai na creche. Ela fica em casa durante o dia com nossa empregada, a Teresa, que está com minha esposa há mais de sete anos. A gente paga seiscentos paus por mês, mais INSS e o dinheiro do busão pra Teresa criar nossa filha do jeito que a gente diz pra criar, e ela obedece cegamente. Minhas filhas adoram a Teresa.


Essas são minhas filhas. E pra que ninguém duvide de tanta beleza, posto uma foto delas com a vovó.


Eu adoro ser um pai babão.


Fui.


A prisão da qualidade de vida


E cá estou eu, outra vez, dentro do ciclo bipolar. Alteração na medicação. Depakote para Torval no tratamento da mania, retirada da fluoxetina para a depressão, e manutenção da trazodona. Tudo porque, na última consulta, eu reclamei muito com a psi sobre o problema da libido, e de estar sentindo, mais uma vez, a mania começando a aflorar. Tudo pela qualidade de vida, para que eu seja uma pessoa saudável, um pretinho bonzinho, que não dá desgosto pro feitor. Tudo para que eu acredite que eu gosto muito de mim. Mim me ama.


Qualidade de vida: expressão cunhada provavelmente por publicitários para designar o conjunto de regras de conduta pessoal inventado pela sociedade moderna, a fim de justificar seus estereótipos e conservar o ser humano por mais tempo que o necessário numa vida sem nenhum prazer, como forma de auto-afirmação de que ainda se gosta de si mesmo, e não se vive apenas para obter a provação alheia. Em resumo, mais uma merda que somos obrigados a engolir.


Banner que mais aparece no hotmail: “VOCÊ ESTÁ ACIMA DO PESO? CALCULE AGORA!” Você não pode ser gordo, porque não é bonito e nem saudável. Então, você tem que comer direitinho, saladinhas, frutinhas, pouco carboidrato. Esqueça o prazer de comer, de encher o bucho na churrascaria, arrotar e cair numa rede, no domingo à tarde, desabotoando as calças e caindo num sono sem culpa. Nossa, como isso soa repugnante! Alguém disse que você não tem esse direito, que gostar de si mesmo implica em anular seu prazer de comer para que você passe a vida toda comendo o que detesta, se mantendo saudável e bonito. É... só assim você vai ser feliz.


Por mais que você odeie, você tem que se exercitar regularmente. Tudo pela qualidade de vida. Tudo para que você, quando ficar velho, não sofra com doenças da velhice. Doenças da velhice? Não, isso está errado. Hipertensão pode acometer os mais jovens. Então, em prol de sua auto-preservação no formol da chatice intitulada “qualidade de vida”, não coma o que gosta, e perca seu tempo (no jargão da qualidade de vida, “reserve um tempo para você”), fazendo o que detesta: exercitando-se. Mas cuidado: você não pode ficar muito musculoso/a, porque elas/eles não gostam. Você tem que lutar contra sua natureza genética para ser o modelinho perfeito da calça 42. Aliás, você já calculou seu IMC hoje? O que? Dois pastel de carne e uma turbaína diet? Corre pra academia já!


Você não pode fumar porque dá câncer, beber porque dá cirrose, comer o que é bom porque engorda, e usar drogas porque é ilegal. E você tem de ter uma vida sexual muito ativa, mas não tanto assim, ou você está com sérios desvios psicológicos, e precisa de terapia. Sexo tem que ser, no mínimo, três vezes por semana. Alguém disse que isso é o saudável, um primor de qualidade de vida. Mais que isso você é ninfo/compulsivo, e menos você é frígida/brocha. Se você tem um parceiro(a), você não pode mais se masturbar, porque isso é prova de rejeição. Sexo com outras(os) nem pensar. Contrariando sua herança fisiológica, você tem que ser fiel, ter só uma parceira(o). Use um chicotinho nas costas para se punir, toda vez que você tiver pensamentos impuros com outra pessoa. Mas não use muito, ou você pode gostar, e sado-maso é um tipo horrível de perversão, que só está autorizado em baixas doses, e em ocasiões especiais, como seu aniversário de casamento (quando foi mesmo?) com fracos tapinhas na bundinha e um par de algema de prástico. Aliás, você já checou seu calendário sexual hoje? Não? Bom, lembre-se que punheta e siririca não conta. Ah, importantíssimo: você está dentro da exigência (quase que predominantemente masculina) de ter um pau grande? Não? Então, “enlarge your penis now!” Mas não deixe ninguém descobrir que você faz isso, senão vão te achar um total “looser”. E você mulher? Peitinho que parece um par de ovos fritos? Ah, não, não senhora. Silicone financiado em 60 meses. “Do it now!” Cabelinho ruim? Escova progressiva nele. E não esqueça que nem só de regime vive o mercado. Uma lipo-aspiração, que pode te dar uma parada na respiração, também vale. O que você faria por uns quilinhos a menos? Fale com seu médico. Tudo pela qualidade de vida.


Afinal de contas, você gosta de você ou não? Quem se ama, testa a própria paciência, renunciando a tudo que é bom, só pra provar o ponto a si mesmo. Hedonismo é feio. Culpa católica behaviorista é lindo. Prazer em comer é feio. Porre nem pensar. Sedentarismo é preguiça. Consuma qualidade de vida. E ache esse post a coisa mais escrota que você já leu, depois de Bukowski.


E eu? Ah, eu acho que é bonito ser feio.


Fui.

27.11.05

Eu não sei se Cristo nasceu mesmo em 25 de dezembro. Mas descobri que Papai Noel existe

O natal está chegando. E, mais uma vez, todo mundo se prepara para seguir uma gama enorme de tradições religiosas, comerciais e de solidariedade, sem questionar, ou sem mesmo querer saber a origem dessa data e das tradições que a cerca.

Eu nada tenho contra o natal. Pelo contrário, penso que não me cabe destruir a fantasia das crianças, ou, muito menos, chacoalhar as crenças religiosas dos adultos que as ensinam a viver. Quero mais é alugar uma roupa de Noel e deixar que minhas filhas pequenas vivam o seu momento, afinal, quando foi minha vez eu aproveitei muito, e o que eu mais queria era acreditar. Hoje, eu também acredito que o acesso à informação é um meio Divino de auto-conhecimento, e como tal, jamais pode ser sonegado.

Por isso eu começo falando sobre a data: 25 de dezembro. Na Bíblia, não consta que Cristo nasceu nesse dia. Então, por que seu nascimento é comemorado nessa data?