30.1.12

Caverna




Não sei bem o que dizer. Acho que estou com preguiça de juntar as idéias que passam voando pela minha cabeça. É como o filhote de andorinhão que vi ontem, dentro de uma caverna de teto baixo e água no chão, num lugar mais ou menos perto daqui. O bicho, confuso pela luz de minha lanterna, resolve grudar na minha calça, mas logo sai voando novamente, perturbado pela luz que chacoalhava, incontrolável, por conta dos meus tropeções, com água até as canelas, ora até a cintura, num chão cheio de buracos imprevisíveis e pedras soltas, com um teto mínimo, às vezes menos que mínimo. Não tendo para onde ir nem como dividir aquele espaço comigo, se agarra, contrariado, dessa vez nas pontas dos meus dedos. Com uma mão eu tentava salvar o bicho e com a outra carregava a lanterna que o fez debater-se nas pedras dentro da caverna até ficar tonto. Assim andam minhas idéias sobre algo para escrever aqui. Elas vêm voando, se debatendo, presas num lugar que já não é lá muito espaçoso, e me rodeiam, e me circulam, meio com medo de pousar, meio querendo sair dali.

Com o câncer da Adriana e com o suicídio da minha irmã, eu aprendi muito mais rápido do que com a bipolaridade, sobre a divisão do que realmente importa e do que não importa tanto assim. Fiquei mais cético, muito mais cético, não sei dizer ainda se isso foi bom ou ruim, só aconteceu assim, hoje eu olho pra Deus meio desconfiado. É bom? É ruim? Importa-se? Demonstra? E saber disso tudo, melhora?

Meus pais estão melhores e eu entendi porque: Minha irmã já começou a virar lembrança e também um lembrete de que quando alguém morre, quem morre não volta, quem morre não volta e nunca mais volta. E Adriana, viva, que escapou do câncer? Beijo a Peixa. Amo a Peixa (Peixa é seu apelido de namoro). Ah, Peixa. Toninho abraça-Peixa. Passarinho amassa-Peixa (Passarinho é o meu apelido de namoro, droga, eu não gosto de contar essas coisas, mas já tá contado). Passarinho massaga Peixa contra o peito, Passarinho polega a Peixa, goza com Peixa e celebra a vida, ainda que tenha que ficar de olho no escore da loteria do câncer, por mais dez anos, com medo da morte a cada exame de verificação de que o alien não voltou, não dessa vez, pelo menos, temos mais um pouquinho de vida, mais um pouquinho de tempo. Passarinho-passarinhão, um Toninho-Andorinhão. De tão burro para escrever, Passarinho acha que poesia é rima e que Toninho rima com todinho, deixando tudo bem construído, certinho e bonitinho.

Tá bem, tá bem também. E bipolaridade, nisso tudo? Ai, ai. No escore da loucura, Toninho sempre está de olho, mas não acompanha mais assim, tão arraigado que tenha o que escrever. Na imensa rede das mesmas lições contadas de formas diferentes, tem, na verdade, mais uma dica, talvez dita antes, de outro jeito: é bom aprender a separar neurose de psicose. Toninho exemplifica certinho: o sobrepeso da Laís, minha filha mais velha. Minha neurose é fiscalizar, incansavelmente, se ela não roubou uma comidinha. Mas quando é a mania quem se debate contra as paredes da caverna, Toninho perturba Laís, tadinha. Toninho perturba e não consegue evitar: sente que tem que dizer, o tempo todo, tem que avisar, tem que dar sermão,tem que contar e ensinar a contar calorias, tem que conscientizar, tem que levar para mais atividades físicas, tanto e tão repetidas vezes, na mania, tão sem sutileza alguma, até que Laís o odeie. Tadinha da babita. Agora ela tem 9 anos e me diz sei que você é assim mesmo papai, não tem problema. Laís perdoa a psicose do papai, mas a que preço, no futuro? É, tem que saber separar o que é importante do que não é tão importante assim. Entender que a neurose pode ser potencializada pela psicose está do lado das coisas importantes, que Toninho tem de aprender, para não destruir as vidinhas que vivem consigo. Hum...É “consigo” que escreve? Toninho burrão, vai lá e estuda, que vergonha perguntar isso pra quem lê.

É difícil, é trabalhoso extrair as próprias idéias. É como a lanterna e o andorinhão: sem um chão firme, o foco da luz chacoalha, se perde e se confunde. E as idéias, desesperadas, voam, se debatem, e finalmente, se cansam e se escondem, vagas, sem uma conexão que as faça minimamente interessantes.

Um grande beijo a minha amiga Cris, A Tieta, colega de faculdade, irmã e amiga de todas as horas da minha vida, poetisa (publicada), professora de piano e mãe-guerreira, que fez e faz muito mais com o que aprendeu do que eu e ainda me escreve e diz que fora um ou outro erro de concordância (somos amigos o suficiente pra dizer esas coisas), eu sou alguém realista nas irrealidades da mente. Irreal quando fala da realidade. Obrigado, Tieta. Dedico esse arremedo de post a você. E aproveito para confessar que usei um poema do seu livro como se fosse meu, durante minha juventude para conquistar algumas garotas. Foi feio fazer isso, mas pelo menos deu certo.

Fui.

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