
Depois de vários anos tentando criar a coragem dos meus sonhos dentro de um ringue, agora que eu consegui, estava aqui pensando, é natural querer testar esse talento, fabricado a ferro e fogo. Nos bons dias, naqueles que se entrelaçam na linha dos outros dias, eu me sinto especialmente motivado a sparrear, seja onde for. Aqui numa associação de boxe que tem numa cidade vizinha, por exemplo, tem muitos alunos jovens e muitos mais ainda motivados pelos mesmos propósitos que eu, esses propósitos de coragem, de alcançar a coragem que precede o controle, o controle da violência, a possibilidade de me controlar e em grande parte de poder controlar ainda qualquer forma externa de violência, das mais assustadoras e variadas formas de violência que a gente enfrenta todos os dias, dentro e fora da gente mesmo. A bipolaridade e o boxe, na mesma proporção, me deixaram fascinado, talvez até um pouco obcecado, por controle.
Ah, esse tal de controle, palavra que induz muitas emoções, que tem muitos significados. Algumas vezes, controle é palavra opressiva e ameaçadora e outras vezes, controle é estabilidade e paz interior. Controle é algo incrível, algo que umas vezes eu busco e outras vezes busco me afastar, não querendo nenhum controle, porque a loucura algumas vezes é boa, após anos no ringue da bipolaridade sinto que posso afirmar isso, que o controle da loucura é necessário, mas controlar toda loucura é só loucura, porque é impossível.
Lição de boxe, lição de bipolaridade: Fôlego. Fôlego é o grande companheiro do controle. Controlar o próprio ar é um dom difícil pra cacete de alcançar. Quem tem síndrome do pânico ou nas crises maníacas sofre intensas taquicardias e falta de ar deve sofrer especialmente pelo conflito entre o controle e a falta do fôlego lá dentro. Quem está depressivo e acha que na inércia não falta ar, porque a inércia dá aquela falsa sensação de paz, se engana, que pra sair da inércia, o ritmo do ar tem que aumentar, isso também é controle e é igualmente difícil. Mike Tyson, que é bipolar e tinha problemas pulmonares desde a infância, não era super agressivo no ringue à toa. Ele precisava derrubar logo o adversário, porque se passasse do 6º round, seus pulmões começavam a abandonar a luta antes de todo o resto. E quando ele próprio estava fora de controle, na vida, e passou do 6º round, no ringue, ele foi nocauteado, por Buster Douglas, pela primeira vez, embasbacando o mundo. A agressividade do Tyson, pelo menos dentro do ringue, quem diria, visava controle.
O que te irrita? O que te faz perder o controle, o fôlego, o tempo? O que te faz resfolegar, o coração zoado, o tremor interior? E quando você está caído? O que te mantém inerte, o coração cansado, a falta de fôlego para ficar de pé? O que cicla seu humor, brinca com sua vontade, sacaneia com seu controle?
Eu vejo tribunal decidir recurso e não registrar voto vencido. O cidadão não fica sabendo direito o que foi decidido, ou como foi decidido. Basta o desembargador divergir, não precisa dar maiores explicações. Voto vencido, não escrito, divergiu, ponto final. Algo especialmente odioso quando você está do lado mais fraco. Quando você se dá conta que a idade média ficou pra trás. Que a ditadura ficou pra trás. Algo que irrita quem liga pro direito de defesa ou de provar o próprio direito. Algo que me faz perder o controle, resfolegando, como num ataque de pânico, afinal, como enfrentar algo tão grande assim, especialmente quando o fôlego se foi diante do pânico provocado pela hipossuficiência desprezada?
O tempo, o necessário tempo. Palavra que soluciona o fôlego, que assessora o controle. O tempo é variável. Três minutos no ringue, três semanas em depressão, três dias de ciclagem rápida, trinta e três anos de idade já são mais que suficientes para concluir que o tempo não tem nada de linear, pouco tempo pode não passar nunca, muito tempo pode passar rápido. Leva tempo pra recuperar o fôlego, a não ser que se conheça a lição de boxe: quando você conseguir fazer com que a falta de fôlego da perda do controle for, ela mesma, o botão de start, reganhar o controle é automático. Você sente que perdeu o ar, e antes que o pânico tome conta e não te deixe respirar e nem lembrar que você precisa de ar, só de sentir que o ar murchou, o corpo, ao invés de gritar, se acalma. No ringue, fica visceralmente claro o que a falta de controle provoca. E fica mais claro ainda, com muito treino, que o tempo necessário para reganhar o controle pode ser, assim, automático. E essa é uma lição que eu tento trazer para a bipolaridade. É possível, eu penso, é preciso reganhar o controle, antes que a crise, seja maníaca, seja depressiva, tome conta e te faça acreditar que em relação a tudo, tanto faz qualquer coisa.
Respirei fundo. Disparei contra o sol, forte, por acaso, após descarregar, no post anterior, fora de controle, minha metralhadora cheia de mágoas. Dá licença aí, grande poeta. Fui.


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