
Eu tenho uma fantasia, nas minhas crises mistas de rápidas e perigosas ciclagens de humor. Mas não é fantasia sexual. É a fantasia da calma maldosa. Explico. Em minha luta diária por manter o equilíbrio, me deparo com a calma como um dos seus impossíveis degraus. E não é só pela agressividade exacerbada que a calma é algumas vezes impraticável. Quem é bipolar entende do que eu estou falando. É que toda calma, de longe, é admirável pelos loucos. De longe, eu disse. Louco que se preza presta atenção a calma alheia e fica atento aos trejeitos do sujeito calmo. Louco que se preza quer aprender alguma coisa com a calma alheia, então, observa a calma alheia assim, mais de perto. E observar atentamente a calma alheia pode mostrar outra coisa que não a virtude esperada da calma. A gente percebe que nem toda calma é meritosa. Que muita demonstração de calma, de perto, esconde apenas um mecanismo de defesa. Esconde o ódio. Esconde a frustração. E como diz o rapper, “você sabe o que é frustração? É máquina de fazer vilão”. A demonstração de calma, como uma forma de comunicação não violenta, muitas vezes de não violenta não tem nada.
A habilidade humana em transformar virtudes em fiascos é incomensurável. Pense nas atendentes das filas de check in de aeroportos em feriados. Ou nos vendedores de pipoca de cinema em dia de estréia. Sua calma maldosa consegue parar o tempo a sua volta. Você perde o início da sessão, enquanto vê a fila aumentando e os atendentes numa aparência cada vez mais “relax”, diante do caos, enquanto toda a fila trava a sua frente. Pense nas duas horas e meia que você aguarda no telefone para receber em troca um número de protocolo de atendimento do SAQ terceirizado que nunca tem culpa de nada e que não resolve porra nenhuma.
Antes que me chamem de preconceituoso, digo que não, não falo apenas das pessoas mais humildes, como funcionárias de SAC, vendedores de pipoca e rednecks decerebrados, que ficam em um silêncio imóvel e irritante quando não concordam com você e também não tem opinião nenhuma a respeito. Nada disso, o buraco é bem mais embaixo e atinge toda e qualquer pessoa que sinta que por um breve instante pode ter você na mão, pois você, naquele momento, depende e além de depender está irritado com a situação criada na maior calma. Falo da calma maldosa de quem se aproveita de sua irritação para plantar mais irritação regada a uma falsa calma que vem apenas para irritar mais. “Porra, mas que papo mais infantil!”. Depende. Quem é bipolar sabe do que eu estou falando. Situações facilmente identificáveis e consequentemente ignoráveis pela maioria das pessoas não se apresentam da mesma forma para os loucos. Pelo menos não para mim, a quem a bipolaridade catalisa o lado agressivo.
Daí vem a fantasia da calma maldosa, que hoje se apresenta num financiamento que eu quero quitar, posso quitar, mas o banco não deixa, utilizando-se de todos os expedientes possíveis e imagináveis para protelar a negociação. Já viu querer pagar tudo de um lado e o outro lado não querer se comprometer a fornecer a quitação? “Aqui é assim que nós fazemos, senhor”.
Ai ai. Quando eu estou ciclando o humor, como hoje, é um perigo ser vítima da calma maldosa. Porque eu fantasio e crio a crença firme que qualquer outra tentativa além das tentativas reais que já fiz até agora vai redundar em mais um confronto de calma maldosa, onde do outro lado do balcão vai ter um gerente idiota achando que após todas as tentativas frustradas anteriores o balcão da porra da agência ou a mesa que nos separa vai servir de grade de proteção. Ele aposta todas suas fichas nisso, no guarda velhote que fica na porta, no comportamento social esperado de um cara de terno dentro de um banco e porque não, em sua própria calma maldosa, que ele obviamente, como todo idiota de consciência lassa, reconhece apenas como calma.
Eu odeio odiar. Eu odeio esse ciclo de pensamentos de ódio inafastáveis durante as crises. Eu odeio a maldita calma maldosa.
Fui, bem variado.


1 bosteie vc também!:
Engraçado que li seu post ontem e hoje fui vítima da calma maldosa que você bem retratou. Engraçado é que trabalho em bancos e esse é um dos pontos do qual me envergonho por participar do sistema. Engraçado como tudo o que você diz faz tanto sentido...
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