23.5.11

Ah! Perfeito!




Toda vez que eu venho aqui a fim de contar alguma coisa boa da minha vida eu tenho a impressão que quem lê tem a impressão que eu quero fazer aparentar que minha vida é perfeita ou pelo menos muito próxima disso. Que eu sou o mais equilibrado dos bipolares, mais equilibrado e sensato ainda do que quem não tem nada diagnosticado. Bem, a essa altura já não acredito mais que ninguém tem nenhum transtornozinho daqueles duzentos e tantos diferentes do CID.

Quem me lê há bastante tempo viu que eu passei algumas que “não foram bolinho”, como diz meu pai. Mas, outra vez, a forma como eu aparentemente superei tudo só me torna ainda mais “perfeito”. Então eu conto algumas de minhas fraquezas, mas de novo, contar as próprias fraquezas no mundo de hoje também pode ser visto como um grande sinal de coragem, e mais, uma vez, porra, perfeito!

Talvez alguém tenha lido além, nas entrelinhas, nem todas elas planejadas, já aviso. E nas entrelinhas tenha visto um cara que sublima as angústias, vindo aqui e vomitando perfeições, até quando fala das próprias fraquezas, ou pior, quando fala das fraquezas do mundo porque simplesmente está a se encarar no espelho. Um cara extremamente crítico, com uma extrema baixa-estima, cheio de traumas.

Mas o que pensar então da “foto com músculos” desses dias atrás? Porra, depois que baixa a crise, nem eu sei o que eu penso. Caraca, que vergonha agora. Mas, pensando bem, o que foi aquilo? Eu digo. Fui eu, pirado, me achando “o bonitão” da festa, na minha pira de provar que os bipolares podem ser até melhores que os humanos. O poder de dar um belo “cala a boca” no preconceito mundial contra gente louca. Talvez eu não devesse me sentir desconfortável com isso, afinal, a pira de ser perfeito toma conta do mundo todo, a vaidade impera sublime e silenciosa, e eu não deveria me sentir mal quando todo mundo faz parecido, e de diferente mesmo, só fazem a sutileza, que dá uma falsa noção de humildade ao vaidoso sutil.

Só que não é assim que a banda toca. Não tem perfeição não. Eu sou um tonto ingênuo, com uma dificuldade enorme de me situar no tempo. De lidar com pessoas que eu julgue melhores que eu. E eu julgo muita gente melhor do que eu. Um otário, tímido, que desperdiça a inteligência “melhoradinha” pouco ou nada investindo na própria cultura, com medo até de abrir um livro. Um escritor que não quer ler. Uma inteligência que merecia ser cassada. Um boxeador medíocre, que só criou culhão para boxear de verdade depois que sabia que já era tarde demais, tão tarde que agora ele parece não mais que um coroa em crise de meia idade. Um advogado ingênuo, que acredita em justiça.

No mais, para arrepio do padrão social, eu sou um cara sem grandes interesses, sem grandes curiosidades, mas com grandes aspirações, talvez até mesmo por conta da fiação instalada meio errada que é o que ocorre com os bipolares. Meio que megalomaníaco, meio que quase sempre um tanto deprimido, um tanto irritado, um tanto inquieto, um tanto anti-social, com uma vontade imensa de não ser assim, uma vontade que não me leva a lugar nenhum, porque não está na minha natureza ser carismático, simpático, pacífico. Sou visto como agressivo, arrogante, reclamão. Sou tudo isso, admito. Não queria ser, admito. Mas não consigo, admito. Depois do suicídio da minha irmã, agora eu me torno mais cético também, mais cético e mais apavorado com a idéia de morrer e isso aqui ser o fim, não existir alma, Deus, nossos pensamentos e sentimentos serem puras mediações químicas decorrentes de milhões de anos de evolução e nada mais.

Portanto, não se preocupe leitor, eu também guardo minhas frustrações, muitas vezes até de mim mesmo. Eu também tenho medo. Eu também sou fraco. Eu me saboto, eu não me situo, eu também desisto. Eu também me isolo, a ponto de achar que a única coisa boa em minha vida é minha família e isso depois de anos de sucessivos erros, agressões verbais desnecessárias, falta de tato com as filhas e com a esposa, depois de muito estragar, como tanta gente faz, agora eu quero dar graça ao que eu quase que já fiz perder a graça.

E que dizer da felicidade? Eu também fico feliz, mas morro de medo dessa tal felicidade, ela já provou que só vem para me arrebentar com mais força lá na frente. E quando isso não acontece naturalmente, eu mesmo dou um jeito de acontecer. Veja só: Eu estava escrevendo isso aqui, parei um pouco, abri meu email e vi que saiu uma sentença de um processo que eu achava que estava perdido. Também na caixa de email vi o resultado de uma etapa do campeonato estadual de boxe, onde eu estava ajudando a treinar um atleta que ganhou bonito sua luta. E nem pela sentença, nem pelo pupilo, fiquei feliz. Em outro processo, semana retrasada, o réu foi absolvido pelo júri popular da qual eu fui advogado. Mas o promotor pediu a absolvição. Sabe o que eu fiquei a pensar depois do julgamento? Que quando eu teria a oportunidade de obter uma absolvição, o promotor vai lá e tira essa oportunidade de mim, se adiantando e pedindo a absolvição. Eu e minhas várias lentes negras.

Eu posso parecer perfeito a muita gente que vem aqui me ler. O bipolar perfeito, que não acredita em perfeição. Pelo menos disso eu tenho certeza, não existe perfeição. Mas se existisse, perfeito seria conseguir ter o grande talento de simplesmente enxergar as coisas como elas realmente são, enxergar a vida na medida real do que ela se apresenta, sem lentes bipolares ofuscadas. Perfeito seria largar o chicote da autopunição. Perfeito seria não ter medo de ser feliz.

Será que um dia eu aprendo?

Fui.

4 bosteie vc também!:

Mensagens abencoadoras!!! disse...

Olá meu querido amigo!
Sou a Marly do "Mensagens Abençoadoras", claro hehehe vc tá vendo ai em cima...
Já nos comunicamos antes.
Sabe eu tbem me sinto muitas vezes fraca e frágil sim, tambem me sinto muitas vezes corajosa e ", ëxibida", a ultima bolachinha do pacote!Mas este previlégio não é so nosso não,os que não são bipolares também se sentem assim ,mas "camuflam "tudo,
nos somos mais autenticos hehehe
Querido eu estou aqui para perguntar se já sabe da fase nova do Bipolar Brasil, eu agora, com muita honra, faço parte da equipe do Bipolar Brasil e seu novo endereco é http://www.bipolarbrasil.net/
Ficariamos muito felizes de continuar contando com seus comentarios, seus relatos, seu carinho...
Bj
Com carinho
Marly

Megara disse...

Acabei de ser diagnosticada com transtorno bipolar e achei o seu blog... gostei muito, me identifiquei com várias coisas!
Também estou escrevendo um blog sobre a vida de um bipolar: http://www.meueubipolar.blogspot.com/
Podemos nos comunicar?
Beijos
Megara

VidAnaCrônica disse...

Nem sei o que dizer depois de ler seu post-depoimento-crônica! Estou impressionada com a sinceridade e verdade das suas palavras... Sobre como me atingiu a ponto de eu sentir empatia... Nem sei o que dizer. Pretendo apenas continuar a ler! Abraço!

Marina (vidanacronica.blogspot.com)

lunatidoido disse...

Marina, obrigado, você tem um incrível talento literário. Então, meio envergonhado, digo que seu elogio significou muito.