21.2.11

Camo

Um túmulo preto, sem nome e sem cruz, beirando a parede antiga e rachada que ladeava túmulos esquecidos, rachados, envelhecidos. Entre eles, um túmulo preto de mármore novo, sem nome e sem cruz, condenado à velhice e ao abandono, de quem ainda não tem coragem pra passar lá e dizer “oi, estamos aqui”, ou encomendar uma placa, com algo que diga que ela não envelheceu por opção. Não. Esta placa não será admitida. “O crime-pecado do suicídio, confessado numa lápide? Vergonha! É um lugar cristão, pelo amor de Deus!” Ah, mas eu entendo meus pais. Não tem como se desvencilhar dos velhos conceitos repetidos na fé católica-culpólica-desumana, sarcasticamente saudados por Simon & Garfunkel: “And here´s to you, Mrs. Robinson, Jesus loves you more than you will konw, , wo,wo,wo, God bless you, please, Missis Robinson, Heaven holds a place for those Who pray, hey hey hey”.

Pois então. Último dia de dezembro. Sexta-feira. Eu, chapado de Jack3d, como mencionei no post anterior, rodeado de motivos me incomodavam, incômodos-exacerbados pela crise em progresso. E a maldita energia compulsiva-ofensiva, catalisada pela união bipolaridade-Jack3d, e eu precisando escapar dali, me sentindo completamente frustrado e derrotado. Mãezinha e paizinho ainda não entendem que às vezes eu quero fugir para não ofender e estragar meu objetivo de aliviar sua dor, porque o descontrole é algo muito frustrante quando você tenta se controlar e falha . E eu falhei, mortalmente, quando a dor dos meus pais aumentou em função dessa porra de doença anabolizada pelo Jack3d e pela promessa de uma deprimente festa de natal.

Depois da maldita crise de fim de ano, onde eu matei por completo meu objetivo de dar alegria aos meus pais, eu parei com o Jack3d, mas era tarde, e eu sabia que tinha que fazer algo mais, que devia ter algo mais, puta que pariu, eu tinha de escolher algo que stivesse encalacrado lá dentro e tentar me livrar disso, como uma tripulação que dispensa parte da carga de vôo para deixar o avião mais leve, numa emergência. E havia algo, que reconhecidamente colaborava para o processo maníaco-depressivo, naquele momento, e que, tal qual o Jack3d, estava em minhas mãos resolver. Sempre é preciso pensar que atitude, durante uma crise, aceleraria o processo de reestabilização.

Então eu fiz minha escolha: Um túmulo preto, sem nome e sem cruz., que até então, eu não havia visitado e não sabia como era, apesar de saber o cemitério. Então eu aproveitei o impulso maníaco, e vendo que faltava 25 pras 6 da tarde, e que o cemitério iria fechar, resolvi pisar fundo e rumar a toda antes do final do ano que foi de longe o mais difícil de minha vida, até agora. "De hoje não passa, Camo, eu vou te visitar. Todo domingo a noite, desde o domingo que você morreu, eu, sentia sua presença no quarto, na hora que começava a pegar no sono.

Segui para o cemitério, pisando fundo no acelerador, entrando em sintonia com o ritmo acelerado impossível que eu experimentava, recheado de flashs da infância, uma dor que parecia aquela dor que só chega para anunciar uma dor bem maior. Atravessei o longo caminho entre a casa dos meus pais e o cemitério em 10 minutos, e cheguei, por assim dizer, "daquele lado do rio", onde um Caronte negro e bem alto veio me atender e enxergou meu óbvio pesar, às 17:45 de uma sexta-feira. Então ele abriu novamente o escritório que acabara de fechar, para me dizer onde estava seu túmulo. Imagino que vendo meu transtorno (eu nunca sei com que cara eu estou, mas devia estar transtornado) o Caronte me conduziu até onde estava o túmulo, depois de anotar lote e quadra num papel que ele copiou de um livro imenso que só um Caronte usaria. Arranquei a carteira do bolso e lhe dei 20 reais, a menor nota que eu tinha na hora. Ele aceitou, relutante, como não era de se esperar do Caronte. Mas daí ele disse que em troca iria cuidar bem daquele túmulo. Eu entendi: ali ele me levou porque eu precisava ir, não ia cobrar nada, então precisava dar algo em troca.

Daí ele sumiu, e eu me vi ali sozinho, em frente a sua morada, aquele túmulo preto, sem nome e sem cruz, onde eu chorei pra valer, pela primeira vez., desde que você partiu. Sinos tocaram ao longe, assim que pus meus pés em frente a seu túmulo. Eram seis da tarde, hora dos sinos, mas também era um sinal , e eu não demorei nada para entender o que você queria, todos aqueles domingos a noite, quando eu ia dormir: Você queria saber se eu te perdoei pelo que você fez. Eu não fui no seu enterro, Camo, e no seu velório, com essa porra de doença, eu sei que não parecia exprimir emoção nenhuma, mas no meu mundo, isso é o mesmo que dizer que mais uma vez a emoção errada tomava conta do momento.

Adeus, irmã. Eu sei que você partiu confusa. Sabe, eu não conseguia deixar de pensar se a bipolaridade se resolve depois da morte. Não sei porque, mas minha sensação era de que não, se você não resolveu sua confusão aqui, você partiu confusa e ia ficar assim um tempo. E não saber como eu me sentia aumentava a sua confusão. Então eu dei a volta no túmulo e fiquei perto do seu ouvido. E disse a você que eu entendia, mais do que você imaginava. Disse também que meu sobrinho, que tinha 6 meses quando você foi embora, ia ficar bem, que eu jamais deixaria ele na mão, que se eu sentisse que o pai dele realmente o iria abandonar aos cuidados de terceiros (como estava tentnado fazer, com seus pais e meus pais, provavelmente tomado do desespero) eu ia cuidar dele.

Então eu sentei ao lado da lápide e lembrei de quando éramos crianças e desobedecemos a mãezinha e compramos sorvete do sorveteiro da rua e eu entrei pra dentro de casa com cara de culpa e metade do sorvete na mão, porque não queria ficar lá fora sozinho tomando escondido da mãezinha, porque eu estava com medo do homem-do-saco passar lá fora, na rua, atrás do muro, onde nos escondíamos, e você acabou logo o seu sorvete, entrou e me deixou sozinho. Muitas vezes você me defendeu, mas naquele dia eu traí sau confiança e entrei parea dentro, com o. soprvete na mão e um medo tão insano do homem do saco que eu preferi enfrentar as consequências de ser descoberto mentindo. A mãezinha então me viu com o sorvete, deu uns petelecos em nós dois e pôs a gente de castigo, lembra? E agora você tinha ido embora antes da hora, de novo. E eu finalmente pude me despedir de você.

Adeus, irmã. Antes de ir embora, no cemitério, se repetiu a conhecida e rara sensação de que o tempo parou um pouco à minha volta. O giro do mundo, a continuidade da certeza da vida deixou de ter importância por um momento, antes de eu ir embora. Então eu parei junto com o mundo, e te vi criança, na lápide em frente, sentada, me ouvindo, me olhando, aliviada. Eu vi sua alma, e senti o alívio que te trouxe saber que eu entendi o que você fez e que eu não te esqueci.

Daí eu prometi voltar em breve e parti, em direção ao portão do cemitério vazio, que só tinha uma frestinha aberta pra eu passar. Não vi o Caronte, então eu mesmo fechei o portão atrás de mim e enxuguei o rosto, impossivelmente inchado, não me lembro quando foi a última vez que chorei assim, tanto, de uma só vez. Também não me lembro de não ter sentido vergonha de chorar antes. Então, desfigurado, eu parti. Mas não sem antes cavar seu nome no mármore negro do seu túmulo, com algo que achei no chão. E fazer uma cruzinha de madeira, que joguei lá dno fundo de sua lápide, onde nenhum som se ouve, bem perto do seu caixão.

Começou a ventar muito forte, as folhas começaram a dançar no ar, sinalizando agradecidas. Aqui dentro, a tempestade maníaca se acalmou e eu vi que não podia ir embora dos meus pais. É que a vida continua, sabe Camo? Os dias passam, as dores se equilibram e a certeza existe: um dia, a gente se encontra de novo, e ri de tudo isso.

Mas hoje não, ainda não, que hoje é dia de saudade.


Adeus, irmã.


4 bosteie vc também!:

Ana disse...

Olá
Também sou bipolar.
Também sofro com a saudade de alguém que foi e não devia ter ido cedo de mais.
Sempre que precisar conta comigo tá.
Abraços

Tuca Doria disse...

Lindo texto. Parabéns. Bela homenagem a sua irmã.

Anônimo disse...

Eu achava que era só eu que preisava escrever para se entnder... Quando dizia isto muitos riam de mim... Idiotas! Gosto de ser o que sou. É horrivel ir ao inferno da depressão mas, só que foi pode voltar. E quando se volta se vai também ao paraíso. O problema é viver na base do Bungee Jump rs rs rs ... Mas só que It's only after we've lost everything that we're free to do anything.

Baccio Bellos,

Sarah

Anônimo disse...

Engraçado que quanto mais leio depoimentos de pessoas com o mesmo 'problema' mais clara fica a percepçao de que o que eu sinto, vivo, vivi, passei e nao compreendia...é parte de mim, parte essa mta viva ainda e com as mesmas expectativas de mudança, luta pelo equilibrio, o cuidado em magoar pessoas queridas, o foda-se que se liga sozinho, o autocondenamento, etc etc etc..
SOu mais um, amigo!

Neo